terça-feira, 2 de setembro de 2008
Vice-Versa Ofertado Ao Ser Sagrado Mulher
Vice-Versa Ofertado
Ao Ser Sagrado
Mulher
Escrevo poemas
Como faço amor
E faço amor
Como escrevo poemas
De corpo e alma
De alma e corpo
Com fúria e calma
Paixão e delírio
De inspiração possesso
Devasso e peregrino
De um templo sagrado
Em romaria sem cansaço
Ao regressus ad uterum
Início de tudo
Cálice soberbo
Santuário sacratíssimo
Nascedouro e berço
Do Pai Altíssimo
Estrelas do céu
E contas do terço
Mãe do verso
Que encerra o soneto
Girando glorioso
A chave de ouro
Do mundo esqueço
Adentrando no ninho
Tocando com o arco
O violino
Vibrando, soando
As notas mais belas
Brilhando o halo
Na fronte coroada de heras
Gozando o orgasmo
O orgasmo gozando
Vou fazendo amor
Como escrevo poemas
E escrevendo poemas
Como faço amor
Meus versos são cantos
À glória do anjo
Dentre todos
Adornado de mais encanto:
O Ser Sagrado Mulher
Ápice do divino prazer
Que o homem pode ter
Extrema unção controversa
Que da morte liberta
Ao de amor sobre seu corpo morrer
Nascendo para a vida eterna
Ah! O suspiro, o gemido da Mulher...
O sussurro no ouvido
Os olhos turvando em gozo
As unhas nas costas cravando
Tomada de amor e paixão se confessando
Em voz suave de veludo
Doce como o mel do paraíso
À glória dessa flor
Dentre todas aquelas dos campos
A maior em fulgor
De longe a mais bela
Oferto humilde meus cantos
Pincelando em tons de aquarela
Elevando-as ao monte Olimpo
D`onde vieram essas deusas
Musas de beleza
Delicadas ninfas
Pérolas raras
Juradas
A embriagarem de êxtase
Todo aquele
Que por bem as mereça
E devotado as reconheça
Como o ser que é:
Sagrado, Sacratíssimo
Soberbo, Infinito
Belíssimo...
E após o amor concedido
- Se lhe for essa bênção rendida –
Que se ajoelhe entre seu par de coxas
Contrito de olhos cerrados
E espírito limpo
Peça:
- Dá-me em minha boca
A hóstia do seu gozo
Como a deu ao meu corpo
Ó, Minha Deusa!
Para que eu a sorva na língua
E provando-a conheça
O poder de toda sua feminilidade
Excelsa e perfeita
Em seu momento maior
De fêmea que liberta
O homem
Que a ti mereça
Amém!
Rob Azevedo
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Poesia Indignada
Poesia Indignada
Aqui
No Templo do Melhor
E mais VIS-CE-RAL poeta de todos os tempos
Não tem meio termo
É uma obra prima atrás da outra
Menos do que isso
Jogo no lixo
Rob Azevedo
Ora-Pro-Nobis
Ora-Pro-Nobis
- Rogai por nós
Pois somos pecadores -
Quanto mais se avoluma meu engenho
Mais me avolumo do mal
E desdém
Por aquelas formigas lá embaixo
E ao próprio Deus
Me igualo
Não foi essa a história de Lúcifer?
Tanto seu saber cresceu
Que se arrogou perfeição
Superior ao do Perfeito
Expulsando-se do Céu
Descendo ao breu
Aonde vive crestado
Que o viver devolva-me o halo
Da humildade
Enquanto me calo
Para que possa ouvir bem mais
Do que dizer
E maldizer
Quem um dia me deu o prazer
De ser exaltado
Eu, trovador
Tomei emprestado
O saber de muitos bardos
Foram meus mestres
Por mim idolatrados
Ao começar a escrever
Julgava brincadeira
Rabiscada
O que vertia minha pena malcriada
Em lágrimas de vergonha
Diante à Arte
Daqueles outros bardos
Passaram-se os anos
Avolumou-se meu engenho
De mãos dadas com meu engano
E um dia vi pequenos
Meus mestres de outrora
Senti-me um Michelangelo
Da Poesia
E ofertei Odes
A mim mesmo
Celebrando-me o maior
De todos
Ah! Doce sonho de um trovador...
Devaneio de criança...
Meta que nenhuma mão alcança...
Não que seja mal
Em verdade é o mais belo sonho
Nem tampouco que seja tão engano...
O que reclamo
Minha alma investigando
É que me trouxe
O mal
Da falta de humildade
E arrogância intolerante
Com quem vejo
Através de minhas lentes embaçadas pelo ego
Deveras avolumado
Num orgulho sem tamanho
Despudorado
Desapiedado
Não tenho medo da perfeição, no entanto
Essa quimera é inalcançável
Mas no paradigma da contradição
A imperfeição me atenta
Tornando-se síndrome do pânico
Quando vôo feito Ícaro
Perseguindo a lenda intangível
Não me importa!
É essa diligência que justifica
Meu vôo mais alto
Ao ser perfeccionista
Extremista
A tal ponto que me tornei
Malabarista
Contorcionista
De palavras
Mágico ilusionista
Bastando dizer
Abracadabra!
Assim se avolumou meu engenho
E vi minha Arte
Em faca de dois gumes transformada
Me apunhalando a alma
Ferindo minhas retinas
E vi meus mestres de outrora
Meros grãos de areia
Do deserto do Saara
Nem lhes disse ao menos:
Muito obrigado!
Longe disso...
Ousei roubar suas coroas
Fazer-me Rei
Igualando-me ao Diabo
Tudo porque alguém me disse:
- Os poetas na literatura consagrados
A maioria
Não chegam aos teus pés...
Perdendo-me da humildade me achei
O maior de todos
E na verdade roubei
A coroa de Lúcifer
Arrogando-se exceder a Deus
Que Ele, o Perfeito que tudo sabe
Me ensine novamente a humildade
Para que eu não pise mais nas flores que me dão
Descendo ao breu
E vivendo nele crestado...
Pelo orgulho inflamado...
Longe, bem longe
Do teu coração...
Rob Azevedo
Aula de Poesia a Quem Tenha Humildade
Aula de Poesia a Quem Tenha Humildade
A verdadeira boa poesia
É aquela que se transforma
Em obra-prima
De Arte
E tenha coisas
Importantes
A serem ditas
Em forma de metáforas
Em forma de música
Constituída
Na oralidade
Deixe de ser tão somente
Um aglomerado de palavras
Dicionarísticas
Acertadas na estética
Para ser algo
Que impacta
E a alma
Toca
Se é de raiva
Que a sinta
Te esmurrando
A cara
Se é de rancor e ressentimento
Que sinta a força
De seu tormento
E o pé do poeta doendo
Pelo aperto do sapato
E a pedra martirizando
Enquanto se revira o estômago
Em ânsia de vômito
Se é de sátira
Que sinta humilhada
Debochada
Ridicularizada
Quem a ela é ofertada
E dê risada
Se é de desilusão
Que sinta o nada
E o cuspido azedo
No chão
Se é de tristeza
Que sinta a dor
Em toda sua grandeza
E te escorra a lágrima
Ainda que interior
Se é filosófica
Que pare pra pensar
E se transforme
Se é social
Que não se conforme
Se indigne
Chore
E grite
Se é surreal
Que compreenda
A lógica
Do Caos
Se é erótica
Que te excite
Dê vontade
E suba
Pelas paredes
Se é de amor
Que se desenlace
Do laço
Do medo
E ame
Tanto quanto
Ama um poeta
Ao dizer eu te amo
Ainda sabendo
Que mente
Deveras
Mente
Consentido
Que a mentira
É verdadeira
Verdade
E maldade
Ouça teu mestre
E suba ao palco
Do teatro comigo
Que eu te ensino a brilhar
Sob a luz do holofote
Porque dou aula de Poesia
A quem tenha humildade
Pra ouvir a voz
De uma sumidade
Rob Azevedo
Presunção
Presunção
Dai à Celestina
O que é de Celestina
E tome a ti
O que é teu
E não confunda as coisas!
Oh vaca excomungada
Que rumina
Presunção!
Rob Azevedo
domingo, 31 de agosto de 2008
Alma Penada
Alma Penada
Uma sombra me ronda
Uma alma penada me atormenta
Uma nau à deriva
Atravessa a tormenta
O Diabo zomba
Da encrenca
Lá na treva funda
Aonde em seu trono assenta
Despojado da minha sapiência
Por força da mulher que me tenta
Não compreendi o que havia além
Da reticência:
Falsa inocência!
E se foi o bem
Do meu vinho
Transformado em vinagre!
Nasceu no meio do caminho
Um cacto espinhoso
Em minha língua o gosto
Acre
Da morte
Destino nefasto, assombroso
O que um dia foi gozo
Metamorfoseou-se no negro
Das asas de um corvo
Ó, Deus, livrai-me do estorvo
De quem vive incorporada num porco!
Rob Azevedo
A Diferença
A Diferença
A grande diferença
Entre as minhas poesias
E as poesias dos outros
É que as minhas
São bebidas embriagantes
De alto teor alcoólico
E aquelas dos outros
São refrescos
A grande diferença
Entre as minhas poesias
E as poesias dos outros
É que as minhas
São picaretas, marretas, martelos
Que estilhaçam em farelos
Tudo o que há
E aquelas dos outros
São petelecos
No ar
A grande diferença
Entre as minhas poesias
E as poesias dos outros
É que as minhas
Contém o saber dos filósofos
E aquelas dos outros
O entender dos asnos
Sobretudo
A grande diferença
Entre as minhas poesias
E as poesias dos outros
É que as minhas
São almas gritando
Corações estourando
Corpos enlouquecidos se amando
Tudo impactando
Tocando, retumbando
Feito bumbo na praça alardeando
E aquelas dos outros
São mugidos de vacas
Magras
Balbuciando
Rob Azevedo
Gioconda
Gioconda
Ó, Gioconda!
D`onde me vem tantos versos
Tão perfeitos e belos?
Senão outra resposta:
Estou incorporado dos espíritos
De dez mil poetas!
Com eles converso
No silêncio de um bosque ermo
Possesso de inspiração
Na overdose da criação
Psicografo o que me dizem
Sussurrando em meus ouvidos
Cânticos antigos
Perdidos na noite dos tempos
Daqueles que repousam agora
No monte Olimpo
Ó, bela senhora!
Por que me fechaste a porta?
- Não é nada, cousa alguma me pára -
Incorporado dos espíritos
De dez mil poetas
Que agora jazem em lousas
Derrubarei vosso castelo
Como se fora o sopro do vento
Curvando frágeis lírios
Cessarão assim os rios
De lágrimas que dos meus olhos derivam
Abrigar-te-ei em meus braços
Tomando-te os lábios
Possuindo teu corpo
Esculpindo-o em alabastro
A flâmula do gozo
Que ascenderá por cada vértebra tua
Serpenteando
Enquanto estremece
Será o laço de ouro
E o brilho da Lua
A nos unir um ao outro
Adeus, meus olhos baços!
Terei então minha Ambrósia
De volta
Mais apaixonada
Do que nunca
Rob Azevedo
Pra Lá de Bagdá
Pra Lá de Bagdá
Estou pra lá de Bagdá
Bandeira, Camões, Drummond
Cecília, Florbela Espanca
Nada melhor não há
Nenhum monstro já me espanta
Enfiei na sacola
A viola dos trovadores de outrora
Que amarrem minhas alparcatas
E batam palmas
Porque me vou embora
Pra Bagdá
Bem além de Bandeira, Camões, Drummond
Cecília, Florbela Espanca
Não chegam aos meus pés
No ardil de nenhum revés
Que durmam em paz
E conversem comigo
Quando eu me for aos céus
São Pedro que seja o juiz
Na tribuna de Deus
Ao bater o martelo, eu sei
Nada melhor se verá
Os trovadores de outrora
Se renderão
Aclamando-me em glória
Foram meus mestres um dia
Os devotei toda minha idolatria
Passaram-se os anos e agora
Carrego a certeza no fundo da alma:
Nada melhor não há
Nenhum monstro já me espanta
Estou pra lá de Bagdá
Bandeira, Camões, Drummond
Cecília, Florbela Espanca
Rob Azevedo
Deus Humano de Inspiração Possesso
Deus Humano
De Inspiração Possesso
“Quanto mais alto nos elevamos
Menores parecemos
Aos olhos daqueles lá embaixo
Que não sabem voar”
Nietzsche
Quando o engenho transborda
Por todos os poros
E o homem a si mesmo transforma
Em deus humano
A humildade não importa
São linhas tortas
Ser humilde nessas horas
É voltar a ser homem
Vindo do sêmen
Quando em deuses
Somos arrebatados aos céus
Que me elevem os elfos
Ao píncaro do monte Olimpo
Ponham em minha fronte o elmo
Rendam-me glórias
Gravem meu nome em ouro
Na História
O que me importa a humildade nessas horas?
Quando a inspiração vis-ce-ral me toma
Deixando-me possesso
E assombra
Abandono a sombra
Do existir mundano
Elevando-me ao que vejo:
A mais bela miragem
De um deus humano!
Rob Azevedo
Simply The Best
Simply The Best
Cansei de dizer mentiras!
Quero ser tão arrogante
Quanto o cavaleiro Lancelot
Dizendo-se o melhor de todos os guerreiros
Do planeta
Ao adentrar em Camelot
Pois de fato o foi
Assim como sou
O melhor de todos os poetas!
Um não aos falsos estetas!
Um soco na cara
Desses bardos de proveta!
Que nenhum deles se atreva
A desafiar minhas trovas
Pois minha pena é afiada
Tal qual a espada
De Lancelot
O melhor de todos os guerreiros
De Camelot
Tão hábil e rápida
Que sem dó dilacera
Desnuda, humilha e enterra
Tudo o que vem da treva
Que meu ego se inflame
O teu se arranhe
E a (impressão) de arrogância
Te espante
Como tambor retumbante
Quebrando o silêncio ignorante
Daqueles que não têm nada a dizer
Calem-se tolos!
Deixem que eu diga!
Pois cansei da mentira
Brindarei a verdade:
Sou o melhor de todos os poetas!
Diante a mim
Perco a humildade!
São pseudo-estetas
Gerados em provetas
De vis planetas!
Nem a mais poderosa luneta
Enxerga a Arte
Em qualquer parte
Do que escrevem (e não arde)
Esses poetas
Já vão tarde!
Minha pena sem dó dilacera
Expõe as vísceras e enterra
Na funda treva
Os falsos poetas
Que eu seja o profeta
Da nova era
Poética!
Um viva à Arte!
Um amém a essa deusa
Da qual sou parte!
Simply The Best!
Rob Azevedo
sábado, 30 de agosto de 2008
Grande Verdade Eloqüente
Grande Verdade Eloqüente
- Parafraseando uma citação de Salvador Dalí -
A grande verdade é que o maior poeta do mundo
que sou eu
não sei escrever poesias.
No entanto, se puder...
Escreva alguma melhor do que as minhas!
Tenta...
Just me – Rob Azevedo
Remissão
Remissão
Se eu quem parti
Teu sentir
Juntarei os pedaços do teu coração
E farei deles
Minha oração!
Se eu quem cometi
O que me redime teu perdão
Despir-me-ei das roupas
Do orgulho
Para que me vejas dele nu
Suplicando redenção
Se eu quem me inundei
Da falta de humildade
Ajoelhar-me-ei diante ti
Clamando piedade
Se eu quem te perdi
Nas trevas da maldade
Vagarei por toda a eternidade
Morto de saudade
Se eu quem não disse
O que havia ter dito
Confessando amor aflito
Tão grande que te escandalizes
Deixarei que minha pena deslize
Ofertando a ti
O arrependimento dos meus versos
Se eu quem murchei
As rosas que me deste
Outras colherei
Que te adornem o leito
Aonde um dia, Deus queira
Ao teu lado amanhecerei
Se eu sei que errei
E contrito juro que hei
Estancar o mal que ofertei
Perdoa-me se te magoei
Permitindo que te mostre
A verdade que não morde
Teu corpo acolhe
O rancor sacode
Até que acorde
De amor tão forte
Mais cheia que a Lua
Feliz por causa tua
Ao ver-te amanhecer
Extenuada de prazer
Junto a quem te pede
A clemência que concede
Grandeza a quem a oferte
Ao beijar-te os lábios, perdoado
Que eu reze
Juntando os pedaços
Do teu coração
Fazendo deles
Minha oração
Rob Azevedo
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Duas Metades
Duas Metades
Metade de mim é amor...
A outra metade... Horror...
De longe, pareço um mar de encanto
Do mundo o homem mais romântico
Sensível e fino
De perto, a mim mesmo espanto
O que dirás – a tu, então?
Presunçoso?
Prepotente?
Arrogante?
Zombeteiro?
Grosso?
Dado a surtos de ira?
Delirante?
Inconseqüente?
Ególatra?
Narcisista?
Despudorado?
Egoísta?
Ditador?
Insensível?
Torturador?
Sarcástico?
Frio
E calculista?
Gênio
Ou louco?
Não se aproximes demais
Mantenhas uma certa distância
Ou conhecerás
O íntimo dos animais
Consolo-me, no entanto
De perto ninguém é normal
E ainda tenho
A minha outra metade...
Essa outra parte
Vale bem mais
Infinitamente mais
Do que o ser inteiro
De dez mil normais
Porque nasci com dotes transcendentais
Geniais
De um ser único
Que se causa espanto
Por aquela outra metade
Espanto também causa
E pranto
Ao deparar-se com o dom
Assombroso
Da minha Arte
Eram os gênios loucos?
E em qualquer parte
Mesmo o inimigo me aplaude
Embora
A certeza de que...
Metade de mim é amor...
A outra metade...
Horror...
Não me idealize demais
Tampouco me desmereça
Porque também enxergo
A tua outra parte
Negra
E nessa
Somos iguais
Com a diferença
Que eu cedo a mão à palmatória
Reconhecendo-a
E tu?
Rob Azevedo
Diablo
Diablo
Cala-te!
Oh boca desdentada
Porque manejo bem as palavras
Minha pena é afiada
Feito adaga
E mata
Não me despertes a ira
Não me queiras teu inimigo
Ou nenhum abrigo
Te salvará da bomba-atômica
Da minha lira
Nem farelo dos teus ossos
Restará
Tua alma o Diabo
Vomitará do Inferno
Que não te merecerá
Cala-te enquanto podes
Conservando teu último dente
Prefira a morte
A ver-me de cólera doente
Não escolhas o destino pior
Que te trará a negra sorte
Mais escura que a funda treva
Pode supor
As almas acorrentadas
Aos anjos caídos
De ti se compadecerão
Ao saberem não estando
Em teu lugar
Sorrirão felizes
Contentes de viverem ao lado
Da Besta do Apocalipse
Por Deus se livre
Da catástrofe da ira
Contida em minha lira
Mais afiada
Do que qualquer adaga
Que dilacera a carne
Rasga
E mata
Rob Azevedo
Templo Sagrado do Belo
Templo Sagrado do Belo
O belo pelo belo se apaixona
A feiúra a si mesma procura
E blasfema
Contra a beleza humana
Não agüenta o tolo
Mirar-se no espelho
Reconhecer-se tão feio
Que do fundo do âmago
Lhe vem a ânsia de vômito
E o ódio
Pelo belo exaltado
Desde o povo antigo
Grego
Assim são os fracos
Inventores do pecado
Cheios de rubor por sua própria feiúra
Abominam o corpo
Vestem os índios
Cobrem com panos negros
Os nus de Michelangelo
Da Vinci
Renoir e Picasso
Cometem sacrilégios
Contra o corpo humano sagrado
Concebido por Deus
Em perfeição
Porque o feio
Ao belo inveja
E do prazer é apartado
Restam-lhes nos atirar pedras
Nos impor complexos
Com tudo o que diz respeito
Ao sexo
Não vamos celebrar a feiúra
Sim ao belo – que nunca haverá de nos envergonhar!
Seja do corpo ou da alma
O melhor é ser de ambos
Porque tudo se completa
Não apenas na beleza estética
Mas na grandeza interior
Não me atirem pedras
No Templo Sagrado da Beleza
Nem lhe roguem pragas
Ou lhe devotem a inveja
Porque eu enfezo
E apiedado rezo
Para que Deus se compadeça
De vós queimando no fogo do Inferno
Amém!
Enquanto me amo
Sem nenhum rubor
Ou torpeza de espírito
Rob Azevedo
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
CENSURA
CENSURA
Não me imponha a vergonha!
Porque nunca me envergonharei da beleza do meu corpo
Se um dia posei de modelo
Para a escultura que os gregos
Fizeram do deus Apolo
Não me imponha o complexo
Com a nudez do meu sexo
Diga suas coisas sem nexo
E deite você
No divã do analista!
Discuta com o sexólogo
Seus traumas controversos
Enquanto converso
Com meus versos
Para o verdadeiro artista
O belo é excelso
Jamais castigado
Vestido e dito pecado
Não confunda as coisas
A Arte é bela
A pornografia vil mazela
Não dê uma de trouxa
Indo à capela Cistina
E tapando com panos negros
As pinturas de Michelangelo
Retratando
O nu humano
Na criação do mundo
Nem se enrubesça
Com a obra prima de Renoir
Ao pintar suas musas
Nuas
Banhando-se num lago
Volte ao analista
Faça mais uma consulta
Mas não me endoideça
Pois sou artista
E sei que a Arte
Não se censura
Rob Azevedo
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Crise de Estrelismo
Crise de Estrelismo
Todo artista
Quando aparece
É dado a crises
De estrelismo
Eu tenho as minhas também
Sem nunca ter aparecido
Que não fosse
Para meia dúzia
De gatos pingados
Malhados
Contados
A conta gotas
Que me idolatram
Nem sei por quê
Se na verdade
Nem sou artista
Só escrevo
Umas bobagens
E me dizem:
É Poeta!
Ou talvez, quem sabe?
Até eu seja
E esteja na estrada
Underground
Trilhando-a no anonimato
E algum dia
Quando meus cabelos houverem embranquecidos
Eu brilhe
Nos círculos literários
Sendo reconhecido
E estudado
Em cada escola e faculdade
Quem sabe ainda mais?
Eu arrume mesmo algum trocado
Que me dê para comprar um túmulo
No Jardim da Saudade
Pois o tempo
Haverá chegado
Tudo é tão hilário
Que eu me divirto
Com meu sarcasmo
E explodo em crises súbitas
De estrelismo
Diante minha legião
De meia dúzia de fãs
Atônitos
É que eu me vejo em devaneios insanos
Um grande artista
Sob as luzes
Da ribalta
No palco imaginário
Do Carnigge Hall lotado
Sendo ovacionado
De pé
E também por quê
Eu sempre estudei a biografia dos grandes artistas do passado
E eram loucos de fato
Passíveis de atos
Impensados
Espantosos
Surreais
E boçais
Espelhei-me neles
E procuro de vez em quando pra quebrar o marasmo
E focar as luzes da ribalta sobre mim
Surtar diante todos
Que sejam meia dúzia de gatos pingados
Em meu delírio
São a platéia
Do Carnigge Hall lotado
Boquiaberta
Assustada
Com tanta loucura surreal
Mas vinda de um grande artista
É uma tacada genial
Estampada nas manchetes
Dos jornais
Mundo a fora
Tudo isso impulsiona as vendas
E se enriquece
Fomentando escândalos
Medito nessas coisas
Mas eu sou apenas
Um poeta underground
Só conhecido
Por meia dúzia
De gatos pingados
Malhados
Ainda assim o fato
É que me idolatram
Me bajulam demais
Acham que sou o máximo
E eu acredito
Até que surto
Subindo ao picadeiro
Sendo um palhaço de circo
Mas daquele bem famoso
Considerado
Um grande artista
Fenomenal
Na verdade sou o macaco
Que come as pipocas que lhe atiram
Fico cheio de vontades
E caprichos
Assentado num trono de ouro
Como um Rei
Porque meia dúzia de gatos pingados
Malhados
Acham que sou o máximo
Até que eu acredito
Crise de estrelismo
É isso...
Perder a humildade
Se julgar um deus humano
Sendo o maior
De todos os insanos
Perdoa-me, Meu Sol
Tudo aquilo foi só
Um ego que inchou demais
Se achou
E estourou
Diante
Meia dúzia de gatos pingados
Malhados
Rezo
Que apesar de tudo
Tu nunca deixes
De ser um deles
Acreditando em mim
Enquanto caminho
No anonimato
Rob Azevedo
Sátira da Sala de Estar
Sátira da Sala de Estar
Em tua sala de estar
Pe-ne-trei
E barbarizei
E tuas primas escandalizadas
Com a beleza das rimas
Escritas em meu corpo
Invejaram-te, eu sei
E me maldisseram pelas costas
Fomentando fofocas
Cobiçando o que é teu
Ah! E aquelas velhacas também...
Mal amadas
Celibatárias
Um não sei o quê
Um ninguém quer
Protótipo de mulher
Não sabem mais o que é o prazer
Desde mil novecentos e seis
Fizeram seus discursos hipócritas
De falsa moral sórdida
E me apunhalaram
Fechando a porta
Mas Deus escreve certo por linhas tortas
E nos vimos a sós
Trancados em teu quarto
Rangendo a cama
Enfiando o parafuso
Na porca
E só a ti coube então
Contemplar o belo
Go-zan-do comigo
Daquelas senhoras
Mal amadas
Invejosas
Rob Azevedo
Ode ao Sol MAIOR
Ode ao Sol MAIOR
Mero sopro
De um Bufão Surrealista
VIS-CE-RAL
Inspirado por um Sol
MAIOR
Bem MAIOR
Que o poente sem arrebol
Dos cães doentios de cólera
Que ladram
No bosque florido
Da minha poesia...
E minha grandeza de espírito
Vive bem além
Da hipocrisia
E de tudo o que escandaliza...
Porque você é o meu Sol
MAIOR
Bem MAIOR
Que o poente sem arrebol
Dos cães doentios de cólera
Que ladram
No bosque florido
Da minha poesia...
Rob Azevedo
Carta aos Hipócritas
Carta aos Hipócritas
Deixa as coisas assentarem
A poeira baixar
O tempo mostrar
Quem somos de fato
Na verdade invejados
Porque damos Ibope
Se escabelam os loucos
Abandonados
Despontando
Para o anonimato
Blasfemam
Caluniam
Proliferando intrigas
Se dizendo cordeiros
Quando são víboras
O belo eu canto
Sou amante da perfeição estética
Não do lixo
Aonde vivem os ratos
Se os louros da fama
Me brindam
Reclamam os porcos
No escuro da sarjeta
Oh feiúra que abomina minha alma!
Encontre tua lápide lá fora
E deixe que eu viva
Porque nasci
Para brilhar
Ser estrela
E tu que me olhas de lado
Cochichando pelos cantos
Resmungando?
Nunca foste Cinderela
Já nasceste abóbora!
Abracadabra
Morre logo e vai embora
Encontrando tua lápide lá fora
No jazigo do esquecimento
E que eu viva feliz
Gozando meu talento
E as bênçãos
Que Deus me deu
Rob Azevedo
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Aos Retrógrados Cabeças de Fósforos Riscados
Aos Retrógrados
Cabeças de Fósforos
Riscados
Às mal amadas
- Digo sem ser vulgar! –
Deixo o meu riso de escárnio
Exemplar
Troçando dessas damas eunucas
Frustradas!
Mal amadas
- Digo sem ser vulgar! –
Um viva!
À liberdade dos gregos antigos
De Atenas
Berço dos poemas
Do teatro
Da Olimpíada
Da filosofia
E da boa vida!
Hedonistas
Sejam bem vindos
Aos meus versos
Alexandrinos
Um viva!
À Santíssima Virgem Mãe das Ex-Donzelas
Repudie do mundo as mazelas
E salve nossas messalinas
Pois delas
O ventre é bendito
A vida mais bela
Salveeeeeee!!!
Baco salve nossos bêbados bacantes!!!
Salveeeeeeee!!!
Homero, Aristófanes, Horácio
Cratino, Sólon
Epicarmo, Ésquilo...
Deuses Poetas nós te saudamos
Desde à Grécia à Atlântida e Parnaso!!!
Salveeeeeeee!!!
Salve, salve
Abençoado o Amor
E a falta
De pudor
Salve as estátuas de mármore
Grego-Clássicas
Estandartes
Da beleza do corpo
Humano
Salve as pinturas de Michelangelo
Da Vinci
Dalí e Picasso
Salve a Terra
Do Pensamento Livre
E enterra
O pecado
Da Idade Média
Salve Woodstock
Jimmi Hendrix
E Janis Joplin
Salve a beleza
Dos índios
Meninos de Deus
Vivendo
No paraíso
Sem o rubor
Que entorpece
E envergonha
A natureza
Humana
E tenha piedade daqueles
Eunucos e eunucas
Que não entendem
Nossa vasta cultura
Oh! Vossas feiúras
Nunca serão decantadas
Em meus versos
Nossas meninas
São Cinderelas
E aquelas vossas?
São abóboras!
Nossos meninos
São mais belos
E aqueles vossos?
O remelo
Nos olhos
Cegos
Salve minha bomba
Poética-Atômica
Que explode nas cabeças
Dos retrógrados e boçais
Derretendo seus miolos
De equívocos abissais
Rob Azevedo
Palhaços
Palhaços
O bumbo retumba na praça
Palhaços!
Grito...
E o bumbo retumba na praça...
Palhaços!
Palhaços!
Grito
E vomito
Rostos coloridos
Trajes espalhafatosos
Semblantes asquerosos
Piadas sem graça...
Despudoradas
Ah!
Que comédia malfadada
Hilária
Só a vida desses palhaços
Abrindo o riso
Amarelado
Palhaços!
Palhaços!
Palhaços!
Grito...
E o bumbo retumba na praça...
Rob Azevedo
Toda Nudez Será Castigada
_Toda Nudez Será Castigada_
O que me importa estar sem vestes
Quando estou despido da alma?
Refém
Entregue...
Não vedes
O perigo ao qual me exponho?
Uma alma nua
Causa muito mais pudor
A quem de sua roupagem
Se despe
Apague a luz, por favor!
Não quero que me veja
Como sou
Espiritualmente nu
Não que do lúmen interior de mim
Eu me envergonhe
Mas por medo
Que me abocanhe
Enxergando-me como sou
Indefeso, portador
Da inocência das crianças
Quando choram
Longe dos pais
No reservado do quarto
Sobre lençóis
Nossos corpos se acolhem
Nus
Como adultos que se amam
Sem nenhum castigo
Mas a nudez interior
Que desvendo
Aos teus olhos
Por si só
Me castiga
É o poder do Amor
Que me despe
Entregue
Em tuas mãos
Sem que eu saiba
Se o bem que devoto
Será inocentado
Ou julgado culpado
Clemência por meus pecados!
Dá-me um castigo menos amargo
Do que viver banido do teu sorriso
De que tanto preciso
Permita que eu sempre o vislumbre
Em minha vida
Pois nela trago
Da alma despida
A inocência das crianças
Quando choram
Longe dos pais
Rob Azevedo - Dedicado com todo carinho à uma poetisa MAIOR que o Sol...
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Mercador de Ilusões
Mercador de Ilusões
- Dedicado à Megg, 25/08/2008 –
Poetisa não creia
Em tudo o que diz os poetas
Nós mentimos demais
Por tanto amarmos o Amor
E dele precisarmos em nossas vidas
A cada instante
O forjamos
Para que nosso coração se inflame
Transbordando em poesias
Ah! Vistosa quimera!
A paixão na verdade
É pela beleza estética
E sentimental
Do que escrevemos
E pela utopia
Do Amor em si
Todo poeta é um Narciso
Se mirando nas águas do lago
Onde o lago é a branca folha
O que vê seus versos
Abrigam lendas
E contos de fábulas
O mundo perfeito
Das terras de Platão
Passaram-se os tempos
Ainda vemos
Rainhas e princesas
Cavaleiros e reinos
Trovadores medievais apaixonados
Recitando seus escritos
Debaixo da sacada
D`alguma nobre dama
Da eterna Verona
Ah! Vistosa quimera!
Embebeda e vemos
O que ninguém enxerga!
Contudo, poetisa, não creia
Nessas miragens líricas...
São ilusões
Bailando no deserto...
Eu mesmo um dia cri em meus versos
Amanheci tão ébrio
Que em verdade amei
O que eu mesmo criei
Sem que sequer existisse
Eu, mercador de ilusões
Comprei
O que eu próprio vendi:
Uma garrafa verde pálida
De licor Absinto embriagante
Onde li no rótulo
Só após esvaziá-la:
DESENGANO!
Ah! Que bufão demente!
Continha a água
Do lago onde contemplei refletida
A beleza dos meus versos
Dela bebi
Cada gota
Sedento
E morri
Não afogado como Narciso
Mas embriagado
Do asco
Que me tornou fantasma...
Não creia, poetisa
Em tudo o que diz os poetas!
Pode haver alguma verdade escondida
Na entrelinha
Onde se abriga
A lâmina afiada
Da adaga
Que mata
Ó morte!
Que torne
Verdade mentirosa
No cálice da rosa
Aonde moribundo da treva
Encontre meu sepulcro
No derradeiro suspiro
Que encerra
Minha vida de poeta
Que então eu me transforme
Na metamorfose
Não num Narciso à margem do lago ilusão
Mas em alguém
Que ame
Outro alguém
De carne e osso
Tal qual é...
Rob Azevedo
domingo, 24 de agosto de 2008
Paz Dominical
Paz Dominical
Eu odiava tanto
Essas tardes de domingo
Agora estou amando
Um brinde ao ócio
Ao encontro consigo mesmo
Refugiar-me em meu quarto
Deitar na cama esparramado
De papo pro ar
Sentindo o perfume de Sândalo
Do incenso
Ouvindo um canto gregoriano
Um tempo pra pensar...
Um tempo só pra mim, me namorar
Relax, zen
No dia frio
Ler um livro
Ver na TV algum documentário
Escrever um poema
Ouvir música
Meditar
Esquecido do mundo:
- Eu dele e ele de mim -
Bem a sós comigo
Gozando despreocupado, as horas
Que passam lentas
Ir à cozinha
Comer uma fruta, tomar um sorvete
Um suco
E voltar
Pro refúgio do quarto
Nele trancado
Sem incômodo algum
Em plena paz
Imperturbável
Como se estivesse
Num templo
Sagrado
Encravado
No Tibet
Lá, bem longe, aonde ninguém sabe onde
Esquecido do mundo
- Eu dele e ele de mim –
Bem a sós comigo
No Horizonte Perdido
De férias de tudo
Em momentos de grande paz...
Introspecção
Pausa para meditar
Dedicar-se
Ao mundo intelectual
E espiritual
Assim descubro
- A melhor companhia que tenho
Sou eu! –
Que passem lentas as horas
Esparramado na cama
Espreguiço
Sem vontade
Como um gato no quintal
Numa tarde de Sol
Celebro o ócio
O descanso da mente e do corpo
Ouço
Uma sonata de Bach
Sinto
O perfume de Sândalo no ar
Leio um livro
Penso em alguém
Imagino mil coisas, em sonho desperto
E escrevo um poema
Gozo
Profundamente
A impressão
De estar inteiramente
Esquecido pelo mundo
Por todos
Têm horas na vida
Que esse esquecimento
É o que mais desejamos
Então podemos
Encontrarmo-nos com nós mesmos
E resolvermos
Nossas pendências íntimas
Acomodando as coisas
Recuperarmos
Nosso equilíbrio psicossomático
Anímico
Nenhuma chamada telefônica
Receberei
Nessa tarde vazia
Ninguém virá bater à minha porta
Nenhum vizinho
Com algum problema banal
Ou qualquer coisa que seja
Haverá de me importunar
Nem o cão
Latirá no quintal
Quebrando o silêncio
Dominical
Ajeito-me na cama
Reclino a cabeça no travesseiro
Enfurnado no edredom
Aconchegado
Aquecido
Eu esquecido do mundo
Ele de mim
Em perfeita paz
Celestial
Rob Azevedo
sábado, 23 de agosto de 2008
Ego Trip
Ego Trip
Antes do alvorecer
Hei de escrever
Algum poema...
Não tenho andado lá
Muito inspirado
Na verdade fatigado
Achando tudo banal
As palavras me fogem
Escorrendo entre os dedos
Como água
Será que meu mundo
Não será mais como outrora?
Em que minha pena
Deslizava
Tão fácil nas brancas folhas
Criando lendas e fábulas
Em metáforas
Encantadas
Ainda não veio a aurora
Que minha alma
Dê à luz
Na escuridão de agora
Talvez eu, peregrino
Tenha me perdido
No caminho que conduz a mim
Talvez isso e aquilo...
Tanta coisa
Que matou
Meu lirismo...
Passam horas
Cintilam estrelas lá fora
Um cigarro, um café
Acompanham meu drama
Riscando o último fósforo
Para que acenda a chama
Já não penso
Sou todo sentidos
Sinto frio
A sombra me envolvendo
O silêncio da noite
E o vazio
Quando menino
Queria ser o meu cão vira-lata
Achava aquela vida tão descomplicada
Dormindo o dia inteiro
Vez ou outra latindo
Bastava uma lata de água
Outra de comida que sobrava
Ou então uma coruja misteriosa
Piando na noite alta
Tendo o ninho ninguém sabe aonde
Imaginei também
Ser um fantasma
Um gnomo e um duende
Ainda quis
Ser um eremita
Vivendo numa cratera
D`algum planeta perdido
Por que eu
Tão misantropo
Nasci no seio
Desse formigueiro humano?
A mim, estou habituado
De tal forma
Que me é custoso
Habituar-me a outros
O espanto que me causo
Sendo estranho e incógnito
É ameno
Diante ao que me causam:
Puro estupor insólito!
Tenho a sina
De seguir minha trilha
Sozinho
Não quero ninguém
Que me acompanhe
Nem me amole
Vagueio de um pólo
Ao oposto
Sou grego e troiano
Desdigo o que disse
Sou lagarta
Crisálida
E borboleta
Metamorfose!
Apareço e sumo
Brilho e apago
Rio e choro
Vou e volto
Ninguém me entende!
Sou uma multidão interminável
De personagens
Em mim mesmo
Em constante batalha
Um contra o outro
É tão árdua a luta
Que me vejo deveras
Cansado e envelhecido
Parecendo ter nascido
Antes de Cristo
Quem sabe nada disso
Apenas eu, andarilho
Encontre-me
Nalgum pólo indefinido
Têm dias em que tudo desaba
O que era doce acaba
E encontrar o fio da meada
Num emaranhado tão intrincado
É pagar promessa
No Muro das Lamentações
E dando a sétima volta
Em torno do Kaaba
A senda de um poema
Filosofal
Quando inicio a jornada
Confuso
Para mim é tão longa e penosa
Que no transcurso da viagem
Ao fundo da alma
Perco-me de mim
Mil vezes
Encontrando-me fragmentado
Aos cacos
Lá embaixo
Reunindo meus pedaços
Nem tudo é tão mal
Minha sorte
É que no último verso
Sempre renasço
Num Girassol
Rob Azevedo
Chá de Boldo
Chá de Boldo
O passo torto
Na calçada escura
O mundo à penumbra
Sopra o vento uivando
Ao longe, cães ladrando
Fria madrugada, embriagada
Seguindo a estrada
Ruídos
De pegadas
Aonde vais?
Ó alma atormentada?
Nos becos
Ecoam
Seus ais
O corvo te espreita
Do telhado da igreja...
Tu caminhas sem destino
E se depara
Com a encruzilhada...
Aonde vais?
Volta pra casa?
Ah! Na embriagues dos sentidos
Esqueceste...
Já não tens morada!
E agora
Ó alma penada?
Nem a encruzilhada
Aonde a duvida paira
Te agonia
Qualquer caminho
Te leva ao nada
Já não tens escolha
Perdeste a morada
Só te resta
O chá de boldo
Que te cure
A ressaca
Rob Azevedo
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Prats dels Cremats - Testemunho de uma vida passada
Prats dels Cremats
- Testemunho de uma vida passada –
"Als cathars, als martirs del pur amor crestian.”
16 de Março de 1244…
Os cruzados logram sucesso
No assalto à fortaleza de Montségur
E nós cátaros
Negociamos a rendição da praça forte...
- Heréticos! Heréticos! Heréticos! Esbravejam os cruzados...
Aqueles que renegarem à fé cátara serão poupados
Da fogueira inquisitória!
Nossas senhoras e crianças choram
O desespero aflora
É consumado o fim
Da resistência cátara em Montségur
Tudo em nome
Da Igreja que se arroga
A ser a voz de Deus
Ó cegos
Magistrados do Diabo!
Vil pecado
É abarrotar os cofres
Da Basílica
Com ouro roubado!
Ó cruzados!
Tua Santa Igreja latifundiária
É covil de endemoniados
A serviço dos monarcas
Tiranos
Que impõe armas
Papas, Bispos, Cardeais
Toda corja
De parasitas prepotentes
Espalhando ais
Pelos quatro cantos do mundo
Sangrando, morrendo, faminto
Em nome de reis, príncipes, duques, condes
Trupe infame de aristocratas empedernidos
Auto-intitulados nobres em arrotos de porco
Ostentando diademas
Cinzelados pela Besta
Nossas crianças e senhoras gritam e choram
Desoladas
Mirando desesperadas esposos, pais, filhos, irmãos, companheiros
Sangrarem pela espada,
Por arqueiros das trevas
E dilacerados
Por pedras lançadas
De catapultas malditas
Nosso lar arde incendiado
Sob as chamas do Diabo
Nos saqueiam os cruzados!
Sangrenta chacina
Em nome de Deus
Onde tudo é heresia
Abissal covardia!
Os últimos combatentes cátaros
São dizimados
Aos olhos
De nossas crianças e senhoras
Não há saída
Tudo está perdido
Negociamos a rendição da praça forte
- Heréticos! Heréticos! Heréticos! Esbravejam os cruzados saqueadores endiabrados...
Aqueles que renegarem à fé cátara serão poupados
Da fogueira inquisitória!
Abro o peito e grito:
- Não renego!
Nosso Deus seja louvado
Não o Diabo dos saqueadores cruzados!
Todos se emudecem temerosos
Espantados
Meus companheiros se calam
Crianças e senhoras choram
Silêncio e olhares aflitos
Diante à morte cruciante na fogueira
Queimado vivo...
Agarra-me o braço um cruzado
Esbofeteia-me, chuta-me
Insulta-me
Corta meu rosto
Com a lâmina da espada
E sangra
Preparam a pira crematória
Escarnecendo de nós cátaros
Em nome do Santo Deus-Diabo
Silêncio e olhares aflitos
Crianças e senhoras choram
Vou sozinho
Ser queimado vivo...
De súbito
Uma voz se levanta:
- Em nome do povo cátaro
Também não renego
Minha fé!
E mais outra e outra e outra
Se vai ouvindo
Vencendo bravamente o medo
A vida e a morte
Com um sorriso valente de orgulho no rosto...
E somos duzentas vozes destemidas
De homens e mulheres
A não renegarem a fé
Ó servidores das trevas
Mais trabalho a vós damos
A pira crematória
Há de ser grande
Imensamente grande
Tão grande o quanto
Nossa fé
Diante a vida e a morte
Aos cantos de louvores a Deus
Somos amarrados nos mastros
Sobre a palha e madeira seca
É ateado o fogo...
Agonizamos em êxtase queimados vivos
Nos Prats dels Cremats
É o fim da resistência cátara em Montségur...
E início de uma lenda
Que atravessando em vidas séculos
Não esquece dos campos
Neles semeando não a morte no fogo
Mas o Amor em Versos
Rob Azevedo
domingo, 17 de agosto de 2008
Confissão
Confissão
Não!
Esse não é mais um poema de amor
Entre tantos
Fujo da desculpa
De que tudo é eu lírico
Devaneio de poeta...
Entenda minhas palavras
Como uma confissão direta
De alguém apaixonado
Uma ou outra metáfora
Sempre existirá
Rimas e cuidados
Com a escrita
Dando ares
De literatura
Mas não é
Senão uma confissão
De alguém apaixonado
Abrindo o coração
Prato farto
Para a imaginação de tantos
Que se perguntam:
- Será verdade?
Meus versos
São verdadeiros
Afirmo e não minto
São vindos
Do mais profundo
Amor que sinto
Não se contentam e perguntam:
- A qual dama
É dedicada
Tão ardente chama
De paixão e encanto?
Àquela
Que meus olhos enxergam
Como a flor mais bela
Dentre açucenas
Rosas e camélias...
Àquela
Que nenhuma aquarela
Reproduz seus matizes
Inigualáveis
Contemplados
Pela benevolência do Sol
E transcendência das pedras
Preciosas
Suas longas madeixas
São delicados fios dourados
Pelo arrebol
Colorindo manhãs felizes
Em tons purpúreos
Seus olhos
São dois rubis
De valor sem igual
Sua boca
É oásis
A mim, sedento
Fonte
Da qual bebo
Diante
Qualquer outra
É veneno
Seu corpo
Meu templo
Sacratíssimo
Aonde adentro
De espírito
Limpo
Sua alma
A pureza que canto
Banhado em pranto
Seu nome
Traz em si
A perfeita rima
A quem se confessa
E pensam:
- Escreve poesia!
Não!
É tão somente
Uma confissão direta
De amor
Amor
Amor
Amor e mais amor
Por Olívia...
Rob Azevedo
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
No Teu Colo
No Teu Colo
Eu, homem
Defronte você
Sou menino
Querendo abrigo
No teu colo
Indefeso, perdido
Choro ouvindo
As batidas
Do teu coração
Silencio o soluço
Tremo
Devagar me acalmo
Fecho os olhos
Ao canto
De uma canção
De ninar
Amar
É navegar em mar
De contentamento...
Menino, enxugue teu pranto
Passou o tormento
O Sol amanhece
Dourado a brilhar
Passa o dia e anoitece
De mãos dadas comigo
Será doce
Teu caminhar
Colhendo
Estrelas
Ao luar
Secou o pranto
Ao canto
De uma canção
De ninar
Sereno adormeço
Aninhado no seio
Entrelaçado nos braços
Da menina mulher
Que Deus queira
Mereço
O Amor baila
Magnífico no ar
Transmutando o inverno
Em primavera
Aonde floresce
No jardim
A flor
Mais bela
De um Jasmim
Sonhando desperto
Adentrando no Templo de Eros
Cresço
Num suspiro uníssono
Com a lua
Menina crescente
Endoideço
Brindando
O cálice transbordante
Do Amor
Toque de Midas
Que me torna
Homem feito
O orvalho das manhãs
Que atravessaram em suspiros a noite
Escorre
Sobre dois corpos
Encharcados
Lado a lado
De menino
Indefeso, perdido
Choramingando
Ao longo do caminho
Sou homem feito
Feliz, sorrindo
Com a lua
Outrora
Menina crescente
Agora
Mulher cheia
De Amor
Gratificante
Dá-me teu colo
Mais uma vez
Ó flor que eclipsa
A luz da aurora
E cante
Como antes
Uma canção
De ninar
Rob Azevedo
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Não Tem Segredo - Nem pra você, nem pra ninguém -
Abaixo é uma letra de música no estilo MPB.
Não Tem Segredo
- Nem pra você
Nem pra ninguém -
Já nem sei
O que dizer
Pra você
Amor
Enfeitei
A Lua
Com uma flor
Inventei
O menino
Trovador
E andei
Sozinho
Pela rua
Do Ouvidor
Ah! Meu Amor
De mãos dadas contigo
O adeus
Pra Dona
Dor
Ah! Meu Amor
Contigo eu vou
Pra onde
For
No teu seio meu abrigo
No meio do Sol o esconderijo
Em teu espírito
O sonho mais bonito
Meu Amor não tem segredo
Nem pra você
Nem pra ninguém
Não sei se é meu ouvido
Mas o vaivém
Das ondas
Sussurram
Teu nome
Olívia
Olívia
Olívia
Rob Azevedo
domingo, 3 de agosto de 2008
No Caminho do Mar
A composição a seguir é uma letra de música no estilo MPB.
No Caminho do Mar
(Rob Azevedo)
No caminho do mar
Eu vou te encontrar, eu sei
Eu vou te encontrar, eu sei
No caminho do mar
Na beira do mar
Vou me afogar, eu sei
Vou me afogar, eu sei
De tanto te amar
Castelos de areia
As ondas não vão levar
As ondas não vão apagar
Corações desenhados na areia
Iemanjá
Mãe da sereia
Me dá certeza
Noite traiçoeira
Não virá
A Lua é cheia
Olívia a estrela
A me guiar
Vou sair pro mar...
Na senda prateada vou seguir
Até onde a Lua beija o mar
Vou te encontrar...
Olívia, Olívia
Sereia bonita
Filha de Iemanjá
***Em negrito repete 3 vezes.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Castelo de Montsegur
Castelo de Montségur
Nasci com dote
De ser fantasma
Atormentado
Por fantasmas
Minha casa
É na treva
Aonde a porta
Está fechada
Trancada!
O cadeado não se quebra
A canção que ecoa
Por lúgubres corredores e átrios
É o réquiem
Dos desenganados
Desalmados!
À noite saio
Deixo o castelo
De Montségur
Desço a íngreme colina
Perambulo pelas vielas
Da cidadela
Abandonada
Deparo comigo
Condenado
Não paramentado
Pelas vestes de um cavaleiro consagrado
Mas aos farrapos
Escondendo o corpo em chagas
Com a mortalha
Dos amaldiçoados
Como os ratos
Entre as ruínas
Busco o limbo
O chão pisado
Entrando
Nos canais
Subterrâneos
Há um tesouro
Emparedado
Lá embaixo
Pelos cátaros
A encontrá-lo
Estou fadado
Até que a vida
Me leve da morte
O Santo Cálice!
Depositário do sangue
Do Mestre de antes
Portal dos mundos
Única chance
Para que a vida
Rebelde e compungida
Me leve da morte
No luzir da aurora
E me torne
Como outrora
Cavaleiro
De luz irradiante
Rob Azevedo
terça-feira, 22 de julho de 2008
Dama da Noite
Dama da Noite
Ó Dama da Noite
Vem derramar em minha boca
O bálsamo da tua doçura
Vem, me beija, me incendeia
Por Deus seja feita
A alquimia!
Desata o laço
Das madeixas
Despe tuas vestes
De princesa
Em nosso leito se deita
Entrega o corpo casto
Ao teu nobre bardo
Por ti cantarei
Enquanto sinos badalam
Por ti morrerei
Jazendo em gotas de orvalho
No teu íntimo amado
Ó, sonho um sonho não sonhado
Tu dormes ao meu lado
Reinando
Em meu coração
Libertado
Se a ti
Coube a mim
Fazer-te mulher
Ser o primeiro
A desvendar
Teu segredo
Entrego-te
As chaves
Do meu reino
Tua fronte adornarei
Não por ouro
Nem quimeras
Mas por heras
Lá no alto
Aonde brilha
A prateada esfera
Erguerei
Nosso castelo
Cravejado
De pérolas
Símbolo ao eterno etéreo
Imaculado
Canto de um ébrio
Alvejado
Pelo Amor
Sem pecado
Rob Azevedo
Camelot
Camelot
Acende lá no fundo da alma
O archote
São as luzes
De Camelot
Na colina imponente
Em rosa brilhante
O Joyous Garde
Ao cair da tarde
Avante carruagem!
Sigamos viagem
Ao reino de Arthur
E seus cavaleiros
Estandartes de coragem
Na Round Table
Da igualdade
Da pedra
Tiraste água
Tornando-te rei
Erguendo a espada
De Excalibur
Ó Arthur
Tu és o escolhido
De Merlin
E abençoado
Pela Dama do Lago
Toda Bretanha
Enfim unida
Nas mãos merecidas
De um rei ungido
Pelo saber divino
É tempo
De uma nova ordem
Instaurada
Pela nobreza
Do teu caráter
Rangendo carruagens
Cruzamos o bosque
Arautos do reino
Saúdam à Guinevere
Ressoando trombetas
A eleita
A coroar-se rainha
De Camelot
Ah! Tudo tão perfeito
Não fosse o Amor
Articulado
Nos bastidores
Do reino
Em nome
Da dinastia
Pelo erro
Caem em chamas
Tua dama
E teu mais fiel
Guerreiro...
Ó Arthur!
Do coração não se escolhe
Dono, nem dona
Amanhece
Feito Sol no horizonte
Abre-se
Como um botão de rosa
Vem vindo a carruagem
Rangendo
Os cavalos relinchando
Trazendo
Lady Guinevere
O céu se nubla
Detrás das colinas
Sombrias
Troveja
Voam em círculos
Aves de rapina
Cintila
Sob a luz tênue do Pôr-do-Sol
O aço da adaga
Que atraiçoa
A serpente
Mira fixa
A maçã da ruína
A utopia
Foi derribada
Pelo que arde
Dentro da carne
Ó Arthur
Lendário rei da Bretanha
Eram grandes demais
Teus ideais
O dragão da cobiça
Rugiu
A mesa redonda se partiu
O reino ruiu
Teus cavaleiros
Mataram-se todos
Tornando-se carniça
Manjar de abutres
Famintos por poder
Ouro e prata
Ah! Nem ruínas
Do teu castelo
E cidadela
Restam...
Ao menos
Sobrevive a lenda:
King Arthur and the Knights of the Round Table
Vencendo o tempo
No cruzar dos séculos
Que se sucedem
Ó cavaleiros
Descansem em paz
No além
Envoltos em brumas
De Avalon
Rob Azevedo
terça-feira, 15 de julho de 2008
Dona Flor e Seus Dois Maridos
Dona Flor e Seus Dois Maridos
Com eu lírico feminino – Por Dona Flor
Quando me penetras
Ó meu amor vadio
Sinto que me despertas
Em pleno cio
Por ti rogo
Revirando olhos enquanto gozo
Com todos meus poros
Sou puro instinto
Felino
Eriçando pêlos
Despe com fúria minha roupa
Liberta a tempestade de desejos
Deixa-me louca
O amor com que me abençoa
Tudo perdoa
Minhas economias
Arrancadas a tapas no rosto
Gastas no jogo
Tuas mulheres da vida
Teus passos tortos
De tão ébrio
Ao voltares pra casa
No término da madrugada
Ó meu gigolô, confesso
Molhada de suores
Abrindo-te meu coração e as pernas
Por ti meu sexo arde
Em chamas que não se apagam
Os lençóis da cama incendeiam
Ao me possuíres
Como bem queres
Enlouquecida de vontade
Te trago da morte
Para que jorre
Dentro de mim teu gozo
Ó meu amor proibido
A aliança de agora
Não é nada
Quando tu me desfloras
É limbo
Sem graça, nem libido
É tempo perdido
Sou tua fêmea no cio
Que sacio
Somente contigo
Ó meu amor vadio!
Rob Azevedo
Princesa
Princesa
Minha princesa menina mulher
Tuas palavras são cantos
De pureza em meus ouvidos
Tua presença a leveza
Que alivia o fardo da minha alma
Tão cândida
És a castidade que outrora
Desencantado
Busquei na Lua...
O quão doce são teus sonhos de amor!
Concedem a mim a crença
Em lendas
Incólumes
Nascidas do coração
Santificando o puro sentimento
Do encantamento que há
Entre um homem e uma mulher
Devotados um ao outro
Em cada pensamento
Um amor assim de todos
Algum dia já foi sonho
Verdadeiro
Único
Leal
Inocente
Confiante e calmo
Desperto
O vejo em teus olhos
Amor digno
De romances que emocionam
Enfeitiçado
Contemplo
A mais bela imagem
Dos meus ideais de poeta...
Todas quimeras
Que cantei em devaneios em meus versos
As encontrei em tua alma
Isso me acalma, me embebeda
Transfigura o deserto
Em bosque florido
Onde se abriga um castelo
Às margens de um lago
Ó, se aquietem todos!
Teus olhos não vêem o que vejo
Deixem que eu contemple desperto
O sonho mais belo
Não vêem os cisnes no espelho das águas desfilando?
Os pássaros silvando pousados nos galhos dos arbustos?
Os íngremes montes ao fundo cobertos de neve?
As cabras pastando nos outeiros?
As gazelas correndo nos prados?
Ó, eu vejo até com os olhos cerrados!
Eu vejo minha princesa de pureza que vem
De seu castelo
Vestida de azul
Menina mulher de longas madeixas
Derramando-se sobre as espáduas nuas
Seus olhos me fitam e sorri
Eclipsando a luz do Sol
Sou seu príncipe
Chegando num cavalo branco
Sempre serei
Seu príncipe
Ela
Minha princesa
Desço da montaria
Tiro o chapéu
Ajoelho-me diante da deusa
Beijo-lhe a mão
Oferto-lhe um buquê de rosas
Ó, numa noite enluarada
Defronte a igreja
Em voz suave e calma
Confidenciou-me recatada
Que entregar-se na alcova
Há de ser
Unicamente
Por um amor
Que não se meça
Tudo transcenda
E que seja
Pra vida inteira
Pleno de pureza
E devoção
Ó, que sonho!
Assim foi o amor da minha mãe...
Por toda vida só do meu pai
Disse-me ainda
Ah! Que leveza
Minha alma flutua como pluma
O mundo torna-se
Um mar de rosas sem espinhos
Inocente
Tranqüilo
Celeste
Contemplando o íntimo
Dessa princesa menina mulher
Compreendo
Que o amor das lendas, ideal
Posto em pedestal
Declamado por trovadores medievais românticos
Ainda existe
E o tenho em minhas mãos
Que de coração e espírito asseguro
Com grande alegria e honra
Serão dignas de ti
Religiosamente
Por toda a vida
Como tu sonhas
Ó, minha princesa!
Rob Azevedo
quarta-feira, 9 de julho de 2008
4 U
4 U
Mesmo quando não te vejo
Te vejo, te beijo e contigo me deito
Tu dormes em meu peito
Amor-Perfeito!
O que são dias
Que contigo não estive?
Tua presença
Em meu pensamento
E em cada estrela
Que vejo no firmamento
E beijo sedento
O que são momentos
Sem ti ao meu lado?
Eternidade e sofrimento
Mas eu agüento
Contigo aqui dentro
Sentimento não se leva pelo vento
Nem o tempo
Distância ou qualquer padecimento
A saudade é o ungüento
Que sara as chagas
Em meu coração sangrento
Remédio amargo
Cicatriza toda ferida
Dando a exata medida
Do quanto te amo
Traz a certeza
Na dor sem tamanho
Banhada em pranto santo
Que é verdadeiro meu canto:
Mesmo quando não te vejo
Te vejo, te beijo e contigo me deito
Tu dormes em meu peito
Amor-Perfeito!
Rob Azevedo
O Alinhamento dos Planetas
O Alinhamento dos Planetas
Fêmea felina
Pecadora bendita
Bandida bem-quista
Banida e recebida
Além do Sétimo Céu
Messalina exclusiva
Do homem escolhido
Um nome se pronuncia...
Convento, catedral
Confessionário, sacristia
.........................................Hare Krishna
............................................Muladhara
..........................................Mantra Sham
..........................................Píngala Ida
.........................................Chakra Swadhisthana
Arrebol
Se põe o Sol
Em Si Bemol
Rob Azevedo
quinta-feira, 26 de junho de 2008
O Caminho das Rosas
O Caminho das Rosas
- Um poema ensaio sobre o mito Don Juan –
Não, o Don Juan da minha história
Não era
Um conquistador
Conquistador é aquele
Que parte em busca
Do que deseja conquistar
Luta
E o conquista
Ao Don Juan de quem contam meus versos
Não era preciso
Partir em busca dos seus objetos de desejo
Tampouco por eles lutar
D`alguma forma
Para que os tivesse
Ele não procurava
Era procurado
Não ia ao que desejava
Vinham até ele o desejando
Não era preciso “luta”
A “batalha” de pronto
Já estava vencida
E se rendiam aos seus pés
Amando-o
Entre as flores tantas
Que espontaneamente se ofertavam
Colhia aquelas
Que lhe apeteciam a carne e a alma
E pudesse
Atendê-las
Na medida do possível
De acordo com a demanda
Interminável...
As não contempladas
Que lhe fossem somente
Admiradoras
Sonhando algum dia detentoras
De seus favores
Este Don Juan
Às mulheres
Era fonte de água
Em meio ao deserto
Aonde todas vinham beber
Era Meca, cidade sagrada
Para aonde todas peregrinavam
Em romaria
Poder-se-ia então dizer
Que ele era um conquistador
Sem que nenhum passo
Ou medido ato
De sua parte fosse necessário?
Nada fazia
Vinham até ele por livre e espontânea vontade
E se entregavam...
Que o definam então
Com outro adjetivo
Conquistador
É inexato...
Era um deus adorado
Contemplado a cada instante
Com oferendas incontáveis:
Corpos femininos
Devassá-los
A quem se doava
Bênção e honra
Pela carne e alma desejada
Na consumação consagrada
Como Amor entre deuses
Pois de simples mortal
A mulher que se entregava
Em deusa se tornava
Este Don Juan
Um patrimônio intocável de toda mulher
Como um monumento histórico da humanidade tombado
Era perfeito encaixe
Dos mais ardentes e sonhados desejos femininos
Aquele que todas
- Bem-aventuradas –
Mereciam
Tê-lo redenção
De todos pecados
Tudo era perdoado
Não era tão somente ser humano
Mas em cada detalhe
O desejo feminino
Mais puro, ardente e genuíno
Personificado
Em homem transformado
Da matéria ao espírito
No ser e no ato
Era tudo o que a mulher desejava
Em sua feminilidade liberta
Inteiramente aflorada
Assim o reconheciam
Com os cinco sentidos
E mesmo
Com o sexto-sentido
Intuitivamente
Tão logo nenhum pudor
Nenhuma divisão eu e tu
Nenhuma fronteira intransponível
Nenhum receio
Nem peso na consciência ou segredo
Com ele
Tudo de-li-ci-o-so...
O mais inconfessável desejo
A sete chaves trancado
Tão natural
Dito sem rubor ou medo
Inteiramente satisfeito
Com a inocência
De crianças brincando
Embora se ardendo
Como homem e mulher
Adultos e libertos
Devotados
Num ritual sagrado
Não se viam diante dele
Mas frente a frente aos próprios desejos
Cada um deles
Sem censura alguma
Na certeza
De realizá-los
Plenamente
Não conversavam nem lhe davam com ele
Mas consigo mesmas
Não faziam amor com ele
Mas com seus anseios libidinosos mais íntimos
Daí se sentiam
Inteiramente à vontade
Livres na totalidade
Da liberdade
De consciência livre
De qualquer senso
Que o prazer julga e reprime
Nas mãos de Don Juan
Abençoada liberdade
De ser mulher inteira
Sem fronteira
Nem erro
Eternizado no tempo
Vive aqui dentro
E diz:
- Eu sou aquele que é...
Don Juan
O desejo feminino
Em homem personificado...
Saciá-lo
Com esmerada perfeição
Meu prazer impagável
Canção
Que ressoa nos sonhos
De todas mulheres
E dizem estas:
- Bem-aventuradas aquelas
Que o têm
Porque delas
É o Reino das mulheres que em verdade
Gozam...
O Amor
Rob Azevedo
domingo, 15 de junho de 2008
Tudo O Que A Vida Nos Permitiu
Tudo O Que A Vida Nos Permitiu
Se não houver amanhã
Haverá o ontem
O tempo vivido
Que passei contigo
Não o pesar
Pelo trem que se foi
Sem que tenhamos nele embarcado
Porque embarcamos!
Viajamos!
Conhecemos lugares
Que só o coração daqueles que amam de verdade
Pode visitar
Se o acaso da vida quis
Que houvesse uma estação de desembarque
Um ponto final pra nós dois
E tu seguisses teu caminho
Eu o meu...
Vivemos o que foi
Nalgum tempo hoje...
Não apenas deixamos
Que se tornasse ontem
Sem o termos vivido
Tenho lembranças
Para recordar
Histórias
Para contar
Que me engrandeceram
Tenha certeza!
Tornaram-me maior
Ser o que sou
Construído tijolo por tijolo
Com ajuda
Das tuas mãos
Aquela tarde
Serena e leda
Em que sentaste comigo na relva macia
A ouvir dos pássaros a melodia
Sentindo o vento
Acariciando nossos rostos
Colados um no outro
Há algo que a pague?
Pergunto...
Há algo que a apague?
Aquele momento mágico
Eternamente na alma gravado
Em que me disseste
Tudo o que sentias por mim
Eu, exultante, muito ouvi
Até que anoiteceu
E retribuí
Dizendo-lhe tudo o que sentia por ti
Encabulado, no entanto
Tu bem sabes
E eu confesso
Porque tudo
Dá-nos a impressão de um mundo de coisas
Que não cabem ser ditas em horas e horas sem fim...
Tudo é imenso
Uma enormidade deveras grande
Constelações
Os peixes do mar
O infinito...
Então encabulei
Aflito...
Porque tudo o que sentia por ti
E tinha pra lhe dizer
Sabendo que era tudo
O que podia lhe dar
Se resumia
Numa única coisa
Somente uma
Abstrata ainda
Como são todos os sentimentos
Que não se podem tocar
Nem ver...
E nem me veio à cabeça mais nada... Só aquela única palavra...
Vasculhei do porão da minha alma
Ao sótão
Cada cômodo
Parte por parte
Minuciosamente
Sem nada mais encontrar...
De mim para ti
O tudo
Esse tão abrangente tudo
Que nele cabe o mundo
Era uma coisa apenas
Ainda abstrata
Intangível
Invisível...
Senti-me pobre
De sentimentos, sei lá!
Mas valeu a confissão
Pois o meu tudo
Sendo uma única coisa
Era TUDO...
AMOR
Refletido nos olhos
Um do outro
Éramos espelhos
E viajamos juntos
No trem da vida
Até aonde deu:
O Adeus
Mas o ontem
Foi um hoje
Que vivemos
Não agora um remorso
Por tudo que poderíamos ter vivido
Sem tê-lo...
Assim seguindo meu caminho
Levei-te comigo
Serena e leve
Seguindo o teu
Levaste a mim
Gravado no peito
Leve e sereno
Porque tudo
Tudo o que sentíamos
Um pelo outro
Nos dizemos
E vivemos
Agradeçamos
E rezemos
Aquela prece
De outrora
Lado a lado
Ainda que o hoje
Nos tenha distantes
E nos elevemos aos céus
Juntos mais uma vez
Pelos elos inquebrantáveis da gratidão
Por sabermos que vivemos
Tudo o que a vida um dia nos permitiu
Rob Azevedo
sábado, 14 de junho de 2008
Flora
Flora
Senhora e rainha
Da minha trova
Do verso que aflora
Na paixão implora:
Se tens olhos
Os volte pra mim
Aos meus que choram
Se tens coração
Guarde nele
Minha canção
Se tens alma
Alva como a neve
Cobrindo os campos
Ouve com ela
Minha querela:
O belo
Tornou-se feio
O contente
Lastimoso
Nada mais me apetece
Nem as estrelas
No céu que anoitece
Porque não me viste
Minha vida leda
Tornou-se triste
Meu canto
Mar de pranto
Porque partiste
Ainda antes
De chegares a mim
Desaventurado, nalgum instante
Ao acaso te feri?
Perdoa-me, senhora e rainha
Se as rosas
Abrigam espinhos
Haverei de podar
Das roseiras
De aqui e acolá
O que possa tuas mãos
Sangrar
Se meu pecado
Nos presentes que te trago
Foi carecer de mérito
Devotado em cada gesto
Ser indigno...
Perdoa-me, ó deusa
Senhora e rainha
Da minha trova
Que te implora:
Volta!
Com flores te presenteio
Aquém do teu merecimento
Compreendo:
Não és nenhuma delas...
És flora!
Todas elas...
Rob Azevedo
Conjecturas Poéticas
Conjecturas Poéticas
Todas as cartas de amor são ridículas
Disse Pessoa...
Ai de mim!
Que vivo a escrever
Cartas de amor sem fim
À Maria,
Antônia,
Joaquina...
A todas
E a ninguém...
A este pobre poeta
Tal devaneio
Convém
O Amor é a tinta
Da minha pena
A folha branca, a linha
O berço do poema
O dedico a quem?
A alguma senhora nobre e distinta
De certo...
Mas por que lhe escrevo?
Por que a amo?
Ou tão somente
Há de haver algum pretexto
E me engano?
Pessoa reescrevo:
Todas as conjecturas dos poetas
São ridículas.
Rob Azevedo
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Navio Fantasma
Navio Fantasma
Do tombadilho vejo vagas
Açoitando o navio
Estouram brancas espumantes
Em rompantes de ira
Vindo e voltando
Subindo e descendo
Seguimos perdidos
Adernando a deriva
A noite escura nos toma
Nenhum farol nos guia
Sem Norte na bússola
Não se vê estrelas acima
Ruge o trovão do céu encoberto
Como o dragão das trevas rosnando
Sobre águas balouçamos
Do alto águas desabando
Em meio à tempestade
O estrondo das vagas estourando
O uivar do vento furioso soprando
A chuva, o relâmpago
São réquiens
Fúnebres canções malditas
Vindas do além
Range a madeira
Range o ferro
Nos espreita o rochedo
Breu profundo...
Só as vagas espumantes são brancas
São mortalhas tremendas
Castigando o navio
Impiedosamente
Envolvendo-o
Uma noite apenas
Na extensão da eternidade
Quiçá desaguando na morte
Importa-nos?
O que somos?
Senão mortos
Na treva funda amaldiçoados
Do descanse em paz desterrados
Como tripulantes degredados do navio fantasma
Navegando sem leme
Por mais uma noite
Na extensão da eternidade...
Rob Azevedo
terça-feira, 10 de junho de 2008
芸者
芸者
Aonde o Sol nasce
No Leste
O mundo se reveste
Do encanto da flor
Do Salgueiro
Fina na Arte
Da pétala ao cálice
Artífice
Do enleio sedutor
Mestra
Na dança e canto
Penteado em forma
De pêssego
Maquiada de branco
Rosto de boneca
De porcelana
Vestida de quimono
Elegante
Culta
Delicada
Como um tesouro guarda
Milenar tradição
Insondáveis mistérios
Nos olhos riscados
Baixos
Na voz velada
Suave
Afinada em gestos
Graciosos
Do outro lado do mundo
Buscando absorto
A Gueixa dos meus sonhos
Cruzei arrozais
Cheguei à cidade
Orei no pagode
Perambulei taciturno
Pelas ruas de Quioto
À luz de lamparinas
Névoas se esfumam
E caem
Finos flocos de neve
A noite é fria
A rua vazia
Toda palavra dita ou escrita
Um enigma...
芸者
Ó Gueixa!
Dama de polidez
Valorosa e tão assídua
Em meus sonhos...
Numa casa de chá
Imersa na penumbra
Vinda de velas em castiçais
Encontrei-te
Incomunicável nas palavras
Compreensível nos sentidos e alma
O encantamento
A sedução
Tem sua linguagem
Silenciosa
Que se parta a ilusão!
De amante por prata
Dolente engano
Veneno na água
Que se separe
O trigo do jôio
Nos ampare
O Iluminado
Nem da terra se perca
Vossa imagem soberba...
Que minhas mãos a toquem
A envolvam
Deslizem na pele nua
Não por prata
Como dizem outros
Mas pela simples e pura
Beleza da Lua
Ó Amor!
Vinde sereno
Límpido
Derramar seu bálsamo
Sobre nós
Nessa noite em Quioto
A sós
Numa casa de chá
Lá fora
As ruas são vazias
A noite desolada e fria
Arranha-céus desertos
De solidão e agonia
Descansam do dia após dia
De árdua labuta
Ao nascedouro do Sol
Oferto meu canto
Que seja o lenço
A lhe enxugar o pranto
Esse que enxugo dos meus olhos
Porque eu peregrino mundo afora
Sabedor que ainda há
O que virá no luzir da aurora
Encontrei
A Gueixa dos meus sonhos
Rob Azevedo
Lilases
Lilases
O arrebol
Colore o céu
De lilás
A geada de fins de Outono
Os pampas
De branco
Entre brumas
Divina formosura
Se vislumbra
Uma menina
Vem vindo
Balouçando
O negro manto
De seu cabelo
Traz consigo
No rosto a suavidade do sorriso
Na mão tremente de frio
Um poema
Pequenino
O mais bonito!
Amar é ter casa na Lua
Pátria no Sol
Só isso!
Dois versos
Sob a luz lilás
Do arrebol
O resto
Não é preciso
Nem mesmo navegar
Nenhum mar
Nos separa
Agora eu vivo
Nada mais é preciso
Rob Azevedo
Quisera Tu Soubesses...
Quisera Tu Soubesses...
- O infinito é ínfimo diante –
Não sabes ainda, Jasmim
O que é passar a noite insone
Perdido de amores
Imaginando estar
Com quem amamos?
Ah! Nada sabes então
Das armadilhas do coração...
Eu que andei do nascer ao pôr do Sol
Cismando solitário pelos cantos
Lhe direi:
É o Amor que nos toma
De repente
Sem que escolhamos
É só ter olhos
Para um único alguém
É inebriar-se de encantos
Imaginando
Quando não podemos
Estar ao lado de quem amamos
É um pranto mudo
Com a cabeça posta no travesseiro
O peito doendo
O coração ardendo
Por tanto sentimento
Não caber em si
É suspirar a todo instante
Absorto em devaneios
Ter a cabeça ao léu
Os pés andarilhando
Nas nuvens
É escrever poemas sem que pare
Desenhar corações na branca folha
Atravessados por setas
É declarar-se a cada vez que encontramos
Quem dia e noite procuramos
Por este alguém
Sentir Amor sem tamanho
É estar sempre no confessionário
Mil vezes
Como em penitência a um pecado impagável
Confessando paixão
É crer que alguém é perfeito
Do início ao fim e meio
E a pessoa mais linda do mundo
Sem rival
Nem no monte Olimpo
Daquela beleza estonteante
Da alma ao corpo
Que nos estremece
Endoidece
Incendeia
Ainda que ninguém mais a veja
Nós a vemos
Em plenitude
É acreditar que o humano sentimento
Pode se estender no tempo
Da eternidade
É felicidade transbordante
Por uma palavra singela
Uma lembrança
E zelo demonstrado
Alegria que não se mede
Pela visão do objeto amado
Ao longe chegando
A voz desse enlevo tão desejado
Um cântico
Melodia
Sinfonia
Bálsamo
Poesia
Um olhar
Por ventura brilhante
A luz que ilumina o mundo
O nosso mundo interior
Três palavras
- Eu te amo –
Quando ditas em verdade
E o coração sabe quando
A liberdade
De voar à felicidade
Inundado de encanto
É dizer muito
E não dizer o tanto
Do que é o Amor
Que não se abrange
Nem no infinito
É transbordar-se
Transportar-se
Ao lúmen do universo
Casar-se com Deus!
É olhar a quem amamos
Ver um anjo
E desejarmos
Também sermos
Luz e pureza
Honrando
O Amor imaculado
É a vida tornar-se sonho
Acordado
E a vida que foi outrora
Tão somente sono
Profundo
Vazio
Sem sentido
Frio
Sem cor
Pálido
É termos cuidados
Exagerados
Com quem amamos
É saudade agonizante
Esperança que não se rende
Bem querer que não morre
Tudo o que ninguém entende
É fazer casa na Lua
Pátria no Sol
É mesmo ser demente
De lucidez radiante
É dor também...
Dor pra quem
É doce a passagem
Pro além
Quando viver já não convém
Se não se tem
O bem
Maior
Do Amor
Que tudo se acalme
Abrande o fogo e se apague
Carne torne-se pó
Alma tão só
Claridade
E a paixão se cale...
Que o Onipotente nos redima na morte...
Do Amor
Dizemos muito
Sem dizer o tanto
Do que mesmo o infinito diante
É pequeno
Ínfimo
Sopro do vento
Rob Azevedo
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Os Versos Que Te Faço
Os Versos Que Te Faço
- Se cala e sente a dor porque é Amor -
Eu canto a lucidez do lado avesso
Aquela sem fim nem começo
Eu canto o dia que passei inteiro
Perdido em devaneio
Perguntando ao espelho:
- Ela me ama?
Cantando ateio a chama
Que incendeia minha cama
Fogo que me consome
Lembrando seu nome
Passo noite insone
Perco a fome
A Margarida do jardim
Despetalada
Ainda não me respondeu:
Bem me quer?
Mal me quer?
Entro em bar
Saio bêbado
Chorando dor de cotovelo
Transbordo o cinzeiro
Ascendem nuvens de nicotina
Abro a cortina
Respiro um ar
Por que eu amo se me dói
Se me mata
O que sinto?
Por que eu conto
Horas que me devoram
Quando não estou contigo?
Horas tão lentas
Vagarosas
Pesarosas
Que parecem anos
De vazio
Sem tamanho
Diante delas
Que uma vaga me trague
Me afogue
No mar
Que nem um vaga-lume
Ilumine
O breu
Que eu mergulhe
Desposarei a Morte
Se avara a Fortuna sequer me consola
Impiedosa tortura
Molha minha boca e mata de sede
Uma alma que chora
Quisera cegassem meus olhos
Antes de conhecer-te
A ver-me agora
Desejando a negra Sorte
Envolto no betume da noite
Minha veste é mortalha
Meu companheiro de lástima
Um Corvo
A bebida que me embriaga
Balouçando no copo entre pedras de gelo
É lágrima!
Dos Campos Elíseos
Cerraram-se as portas
O murmúrio das águas
O silvar dos colibris
Já não ouço
Somente o lamento
Eterno tormento
Vindo das sombras do calabouço
Do Inferno de Dante
Fantasmas rangem os dentes
Arrastam correntes
Regresso ao cárcere
Que me empareda
Do outro lado a liberdade
Já não me espera
Num olhar ígneo
Com coração de pedra
Desafia minha entranha
Num tropel de perguntas
Enigmáticas
Contraditas
Dilacerantes
Como adaga afiada
Que desfia
O fio da meada
Por que morro de secura
Se nem sequer tenho boca?
Por que tamanha alvura
Diante minha alma escura?
Por que comparo
Meu Amor
Ao infinito
E dele cai
Uma estrela
Cadente?
Ninguém responde...
O vento sopra
O Sol se põe
A noite vem
Saudade...
Eu conto horas...
Endoideço
Ainda ontem
Jurei por ti
Eternidade...
Contarei sem que acabe!
Grãos de areia
- No deserto -
Gotas de água
- No oceano -
Folhas de árvore
- Nas florestas -
Estrelas
- No céu –
Pecados que não cometi
- Ainda assim pago -
E nas contas do terço
O mais penoso de se contar:
O Amor que padeço
Nos versos
Que te faço
Rob Azevedo
terça-feira, 27 de maio de 2008
Brancas Noites
Brancas Noites
Luz que brilha na noite
Doce como o mel do Éden
Transbordando nos cântaros
O bálsamo dos anjos
É tão bem que te quero
De um Amor tão puro
Que por ti eu rego
Todas as flores
Dos jardins suspensos
Da Babilônia
Para que passes
Na alameda feliz
Emoldurada por encantos
Divinais de pétalas se abrindo
Nas sete cores
Do arco-íris
E eu aqui, humilde
Te veja sorrindo
É tão bem que te quero...
Que te quero além
Da vida que Deus me deu
Te quero no tempo
Da eternidade
Te quero de um Amor
Imortal
Diante aquela
A quem eu canto
Nenhuma dama
De conto de fadas
É mais cândida
Ou bela
De nenhuma aquarela
Se pinta suas cores
De olhos de Rubi
E madeixas de Cobre
Diante o Amor
Que sinto por ela
A vastidão do oceano é pequena
A duração da vida efêmera
As estrelas do céu são poucas
Um só poema
Não conta
O que minha alma toma
E eu canto
Porque amo
Não é a sina de todos os poetas?
Amar...
De um Amor tão grande
Que transpira na pele
Na folha nua escorre
E se transforma em versos
É feito pérola na concha
Que nasce da ferida...
Em mim
É meu coração que sangra
Cicatrizando
Em poesia
É noite que vira dia
Distância agonia
Sua boca itinerário
Dos meus lábios
Meu coração naufrago
Abandona a nau das ilusões
Atravessa mil mares a nado
Em busca do porto seguro
Nalguma enseada
Do seu corpo
Receba-me como te escrevo
Em cada um dos meus versos
Seja do meu espírito o enlevo
Que comigo te levo
Galopando num cavalo alado
Ao sonho que declamo
Rasgando o peito
Amor por ti perfeito
Em brancas noites
Vou seguindo meu caminho
E tudo o que vejo
É uma estrada
Que me conduz
Ao seu beijo
Além
Refletidos nos seus olhos
Crisântemos
Lírios
Girassóis...
Os filhos
Que ainda não tive
Rob Azevedo
domingo, 25 de maio de 2008
Flor dos Meus Sonhos
Flor dos Meus Sonhos
Como um botão de rosa se abrindo ao Sol da manhã
Desponta teu Amor
Ó Flor dos Mil Sonhos!
À Fonte da Juventude
Que jorra da tua boca
Cantarei odes
Por ti
Ó doce castidade
Sem pressa desato o laço
Peregrino por sendas
Quiçá
Penitente e sozinho
Porque sei
No fim do caminho
Encontrar-te-ei
Jaz o ontem
Em sepulcro maldito
Sobre a lápide nasce
Um botão de rosa
Sob o Sol
Sob o Sol da manhã
Metamorfose
O hoje, o amanhã
É fruto bendito
Do teu ventre
Ó Flor
Ó Flor dos Meus Sonhos!
Incólume
Menina-moça
Se abrindo em pétala-mulher
Desabrocha
Por Amor
Ó delicadeza virginal
Ainda há pudor
A face que se enrubesce
O recatamento na alcova
O prazer que é Amor
Ainda há
Mil sonhos
Em teu coração
Minhas mãos
Tocarão o címbalo dos anjos
A harpa dos Querubins
Minha voz tão suave
Será o canto do Serafim
Meu corpo teu jardim
Aonde sob o Sol da manhã
Acordarás se abrindo em pétala-mulher
No peito de quem
Do humano fez etéreo
Do prazer Amor
Voando contigo ao céu
A transcendência eu canto
Não aquelas flores que apodrecem
Antes da hora
Minha trova é composta
De versos da alma
E luminescência da aurora
Reflete na Lua
Minha inocência e a tua
Doada
Em cada lágrima orvalhada
No botão de rosa
Aquieto mesmo o espírito
Para que durmas
Serenamente
Enquanto velo teu sono e rezo
A Deus eu peço
Ser digno e merecedor
Da Flor
Dos Meus Sonhos
Rob Azevedo
Camélia de Prata
Camélia de Prata
Paira tão distante, acima dos montes
Por sobre as nuvens, além da esfera
Intocável silenciosa quimera
Transcende tempos, acalenta amantes
Tua luz eclipsa o cintilar das estrelas
Agonia matilhas, inebria trovadores
Desprende mil suspiros de amores
Provoca dores, não se pode entendê-las
Ó Camélia de Prata que flutua
Quisera eu houvesse a rua
De encontro à tua castidade nua
Partiria elos, deixaria meu castelo
Enfim chegando lá no etéreo
Quem me dera desposar a Lua!
Rob Azevedo
domingo, 18 de maio de 2008
Refugiados na Serra
Refugiados na Serra
Nem uma hora que tu partes
Eu aqui, morrendo de saudades
Nossos lençóis ainda se vêem
Desalinhados
Teu perfume no ar
O coração que fizeste pra mim
Em batom no espelho do toalete
Ah! Que noite!
Refugiados nesse oásis de paz
Distante do mundo
Em meio ao verde
O murmúrio do regato
Bem em frente da janela
Cantarolando suas melodias serenas
O Bem-Te-Vi assoviando pousado no galho
Do pé de laranjeira
O cocoricar dos galos
O gramado, os arbustos, as flores
Colinas ao redor
Cobertas de mata nativa
Virgem, incólume
Envoltas
Pelas névoas da serra
O coreto na pracinha
A igrejinha no alto de um monte
As ruazinhas
Com seus barzinhos e vendas
Onde bem devagar passam carros
E também
Cavalos, carroças
Todo mundo tão simples
Da roça
Inocente e puro
Eu vindo das cidades
Diante
A ingenuidade perdida
Ah! Que humildade!
Com todo respeito
Nos tratam como se fossemos doutores
Muito importantes
Forasteiros
São coisas de um vilarejo pequeno
Aonde vivem as pessoas simples
Um convite para um café
Que cheira forte da cozinha
Uma prosa na varanda
Contando aqueles “causos” antigos
- Se quiserem aqui pernoitem
Somos teus anfitriões
Nos dizem
Em tom amável
Essa hospitalidade
Proximidade sem barreiras
Cordialidade desinteressada
É que me toca
Profundamente
Porque não se vê mais
No mundo em que vivemos
Aonde todos se cercam de muros
E nada é gratuito
Respiro o ar fresco da serra
Volto pro meu quarto de pousada
Tu ali
Ainda tão presente
Impregnada em cada coisa
Esqueceste teu pingente
Sobre a cômoda
O pego e guardo em meu bolso
É tua lembrança e meu amuleto fervoroso
Viro as costas
Agora me vou eu
Rumo ao pôr-do-Sol
Colorindo o céu detrás das colinas
Entre frias brumas
Em mim o gosto
Do teu corpo
A lembrança de cada jura de Amor
No meu ouvido sussurrando
Quando como duas crianças nuas
Dormíamos um no colo do outro
Isso é Amor tão puro
Quanto puro é o mundo
Em que peregrinando ao infinito
Sem vontade vou deixando
Mas lembro
Nosso Amor sacramentando
Que tu existes
É real
E vou feliz
Rob Azevedo
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