terça-feira, 26 de agosto de 2008

Aos Retrógrados Cabeças de Fósforos Riscados




Aos Retrógrados
Cabeças de Fósforos
Riscados



Às mal amadas
- Digo sem ser vulgar! –
Deixo o meu riso de escárnio
Exemplar
Troçando dessas damas eunucas
Frustradas!
Mal amadas
- Digo sem ser vulgar! –

Um viva!
À liberdade dos gregos antigos
De Atenas
Berço dos poemas
Do teatro
Da Olimpíada
Da filosofia
E da boa vida!

Hedonistas
Sejam bem vindos
Aos meus versos
Alexandrinos

Um viva!

À Santíssima Virgem Mãe das Ex-Donzelas

Repudie do mundo as mazelas

E salve nossas messalinas

Pois delas

O ventre é bendito

A vida mais bela

Salveeeeeee!!!

Baco salve nossos bêbados bacantes!!!

Salveeeeeeee!!!

Homero, Aristófanes, Horácio
Cratino, Sólon
Epicarmo, Ésquilo...
Deuses Poetas nós te saudamos
Desde à Grécia à Atlântida e Parnaso!!!

Salveeeeeeee!!!

Salve, salve
Abençoado o Amor
E a falta
De pudor

Salve as estátuas de mármore
Grego-Clássicas
Estandartes
Da beleza do corpo
Humano

Salve as pinturas de Michelangelo
Da Vinci
Dalí e Picasso

Salve a Terra
Do Pensamento Livre
E enterra
O pecado
Da Idade Média

Salve Woodstock
Jimmi Hendrix
E Janis Joplin

Salve a beleza
Dos índios
Meninos de Deus
Vivendo
No paraíso
Sem o rubor
Que entorpece
E envergonha
A natureza
Humana

E tenha piedade daqueles
Eunucos e eunucas
Que não entendem
Nossa vasta cultura

Oh! Vossas feiúras
Nunca serão decantadas
Em meus versos

Nossas meninas
São Cinderelas
E aquelas vossas?
São abóboras!

Nossos meninos
São mais belos
E aqueles vossos?
O remelo
Nos olhos
Cegos

Salve minha bomba
Poética-Atômica
Que explode nas cabeças
Dos retrógrados e boçais
Derretendo seus miolos
De equívocos abissais



Rob Azevedo






Palhaços




Palhaços



O bumbo retumba na praça

Palhaços!

Grito...

E o bumbo retumba na praça...

Palhaços!

Palhaços!

Grito
E vomito
Rostos coloridos
Trajes espalhafatosos
Semblantes asquerosos

Piadas sem graça...
Despudoradas
Ah!

Que comédia malfadada
Hilária
Só a vida desses palhaços
Abrindo o riso
Amarelado

Palhaços!

Palhaços!

Palhaços!

Grito...

E o bumbo retumba na praça...



Rob Azevedo





Toda Nudez Será Castigada




_Toda Nudez Será Castigada_



O que me importa estar sem vestes
Quando estou despido da alma?

Refém
Entregue...

Não vedes
O perigo ao qual me exponho?

Uma alma nua
Causa muito mais pudor
A quem de sua roupagem
Se despe

Apague a luz, por favor!
Não quero que me veja
Como sou
Espiritualmente nu

Não que do lúmen interior de mim
Eu me envergonhe
Mas por medo
Que me abocanhe
Enxergando-me como sou
Indefeso, portador
Da inocência das crianças
Quando choram
Longe dos pais

No reservado do quarto
Sobre lençóis
Nossos corpos se acolhem
Nus
Como adultos que se amam
Sem nenhum castigo
Mas a nudez interior
Que desvendo
Aos teus olhos
Por si só
Me castiga

É o poder do Amor
Que me despe
Entregue
Em tuas mãos
Sem que eu saiba
Se o bem que devoto
Será inocentado
Ou julgado culpado

Clemência por meus pecados!
Dá-me um castigo menos amargo
Do que viver banido do teu sorriso
De que tanto preciso

Permita que eu sempre o vislumbre
Em minha vida
Pois nela trago
Da alma despida
A inocência das crianças
Quando choram
Longe dos pais



Rob Azevedo - Dedicado com todo carinho à uma poetisa MAIOR que o Sol...







segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Mercador de Ilusões




Mercador de Ilusões
- Dedicado à Megg, 25/08/2008 –





Poetisa não creia
Em tudo o que diz os poetas
Nós mentimos demais
Por tanto amarmos o Amor
E dele precisarmos em nossas vidas
A cada instante
O forjamos
Para que nosso coração se inflame
Transbordando em poesias

Ah! Vistosa quimera!
A paixão na verdade
É pela beleza estética
E sentimental
Do que escrevemos
E pela utopia
Do Amor em si

Todo poeta é um Narciso
Se mirando nas águas do lago
Onde o lago é a branca folha
O que vê seus versos

Abrigam lendas
E contos de fábulas
O mundo perfeito
Das terras de Platão

Passaram-se os tempos
Ainda vemos
Rainhas e princesas
Cavaleiros e reinos

Trovadores medievais apaixonados
Recitando seus escritos
Debaixo da sacada
D`alguma nobre dama
Da eterna Verona

Ah! Vistosa quimera!
Embebeda e vemos
O que ninguém enxerga!

Contudo, poetisa, não creia
Nessas miragens líricas...

São ilusões
Bailando no deserto...

Eu mesmo um dia cri em meus versos
Amanheci tão ébrio
Que em verdade amei
O que eu mesmo criei
Sem que sequer existisse

Eu, mercador de ilusões
Comprei
O que eu próprio vendi:

Uma garrafa verde pálida
De licor Absinto embriagante
Onde li no rótulo
Só após esvaziá-la:

DESENGANO!

Ah! Que bufão demente!

Continha a água
Do lago onde contemplei refletida
A beleza dos meus versos
Dela bebi
Cada gota
Sedento
E morri
Não afogado como Narciso
Mas embriagado
Do asco
Que me tornou fantasma...

Não creia, poetisa
Em tudo o que diz os poetas!

Pode haver alguma verdade escondida
Na entrelinha
Onde se abriga
A lâmina afiada
Da adaga
Que mata

Ó morte!
Que torne
Verdade mentirosa
No cálice da rosa
Aonde moribundo da treva
Encontre meu sepulcro
No derradeiro suspiro
Que encerra
Minha vida de poeta

Que então eu me transforme
Na metamorfose
Não num Narciso à margem do lago ilusão
Mas em alguém
Que ame
Outro alguém
De carne e osso
Tal qual é...


Rob Azevedo






domingo, 24 de agosto de 2008

Paz Dominical




Paz Dominical



Eu odiava tanto
Essas tardes de domingo
Agora estou amando
Um brinde ao ócio
Ao encontro consigo mesmo

Refugiar-me em meu quarto
Deitar na cama esparramado
De papo pro ar
Sentindo o perfume de Sândalo
Do incenso
Ouvindo um canto gregoriano

Um tempo pra pensar...
Um tempo só pra mim, me namorar
Relax, zen

No dia frio
Ler um livro
Ver na TV algum documentário
Escrever um poema
Ouvir música
Meditar

Esquecido do mundo:
- Eu dele e ele de mim -
Bem a sós comigo
Gozando despreocupado, as horas
Que passam lentas

Ir à cozinha
Comer uma fruta, tomar um sorvete
Um suco
E voltar
Pro refúgio do quarto
Nele trancado
Sem incômodo algum
Em plena paz
Imperturbável
Como se estivesse
Num templo
Sagrado
Encravado
No Tibet

Lá, bem longe, aonde ninguém sabe onde
Esquecido do mundo
- Eu dele e ele de mim –
Bem a sós comigo
No Horizonte Perdido
De férias de tudo
Em momentos de grande paz...

Introspecção
Pausa para meditar
Dedicar-se
Ao mundo intelectual
E espiritual

Assim descubro
- A melhor companhia que tenho
Sou eu! –

Que passem lentas as horas
Esparramado na cama
Espreguiço
Sem vontade
Como um gato no quintal
Numa tarde de Sol

Celebro o ócio
O descanso da mente e do corpo
Ouço
Uma sonata de Bach
Sinto
O perfume de Sândalo no ar
Leio um livro
Penso em alguém
Imagino mil coisas, em sonho desperto
E escrevo um poema

Gozo
Profundamente
A impressão
De estar inteiramente
Esquecido pelo mundo
Por todos

Têm horas na vida
Que esse esquecimento
É o que mais desejamos

Então podemos
Encontrarmo-nos com nós mesmos
E resolvermos
Nossas pendências íntimas
Acomodando as coisas
Recuperarmos
Nosso equilíbrio psicossomático
Anímico

Nenhuma chamada telefônica
Receberei
Nessa tarde vazia
Ninguém virá bater à minha porta
Nenhum vizinho
Com algum problema banal
Ou qualquer coisa que seja
Haverá de me importunar

Nem o cão
Latirá no quintal
Quebrando o silêncio
Dominical

Ajeito-me na cama
Reclino a cabeça no travesseiro
Enfurnado no edredom
Aconchegado
Aquecido
Eu esquecido do mundo
Ele de mim
Em perfeita paz
Celestial



Rob Azevedo





sábado, 23 de agosto de 2008

Ego Trip




Ego Trip



Antes do alvorecer
Hei de escrever
Algum poema...

Não tenho andado lá
Muito inspirado
Na verdade fatigado
Achando tudo banal
As palavras me fogem
Escorrendo entre os dedos
Como água

Será que meu mundo
Não será mais como outrora?

Em que minha pena
Deslizava
Tão fácil nas brancas folhas
Criando lendas e fábulas
Em metáforas
Encantadas

Ainda não veio a aurora
Que minha alma
Dê à luz
Na escuridão de agora

Talvez eu, peregrino
Tenha me perdido
No caminho que conduz a mim

Talvez isso e aquilo...
Tanta coisa
Que matou
Meu lirismo...

Passam horas
Cintilam estrelas lá fora
Um cigarro, um café
Acompanham meu drama
Riscando o último fósforo
Para que acenda a chama

Já não penso
Sou todo sentidos
Sinto frio
A sombra me envolvendo
O silêncio da noite
E o vazio

Quando menino
Queria ser o meu cão vira-lata
Achava aquela vida tão descomplicada
Dormindo o dia inteiro
Vez ou outra latindo
Bastava uma lata de água
Outra de comida que sobrava

Ou então uma coruja misteriosa
Piando na noite alta
Tendo o ninho ninguém sabe aonde

Imaginei também
Ser um fantasma
Um gnomo e um duende

Ainda quis
Ser um eremita
Vivendo numa cratera
D`algum planeta perdido

Por que eu
Tão misantropo
Nasci no seio
Desse formigueiro humano?

A mim, estou habituado
De tal forma
Que me é custoso
Habituar-me a outros

O espanto que me causo
Sendo estranho e incógnito
É ameno
Diante ao que me causam:

Puro estupor insólito!

Tenho a sina
De seguir minha trilha
Sozinho
Não quero ninguém
Que me acompanhe
Nem me amole

Vagueio de um pólo
Ao oposto
Sou grego e troiano
Desdigo o que disse
Sou lagarta
Crisálida
E borboleta

Metamorfose!

Apareço e sumo
Brilho e apago
Rio e choro
Vou e volto

Ninguém me entende!

Sou uma multidão interminável
De personagens
Em mim mesmo
Em constante batalha
Um contra o outro

É tão árdua a luta
Que me vejo deveras
Cansado e envelhecido
Parecendo ter nascido
Antes de Cristo

Quem sabe nada disso
Apenas eu, andarilho
Encontre-me
Nalgum pólo indefinido

Têm dias em que tudo desaba
O que era doce acaba
E encontrar o fio da meada
Num emaranhado tão intrincado
É pagar promessa
No Muro das Lamentações
E dando a sétima volta
Em torno do Kaaba

A senda de um poema
Filosofal
Quando inicio a jornada
Confuso
Para mim é tão longa e penosa
Que no transcurso da viagem
Ao fundo da alma
Perco-me de mim
Mil vezes
Encontrando-me fragmentado
Aos cacos
Lá embaixo
Reunindo meus pedaços

Nem tudo é tão mal
Minha sorte
É que no último verso
Sempre renasço
Num Girassol



Rob Azevedo






Chá de Boldo




Chá de Boldo



O passo torto
Na calçada escura
O mundo à penumbra
Sopra o vento uivando
Ao longe, cães ladrando

Fria madrugada, embriagada
Seguindo a estrada
Ruídos
De pegadas

Aonde vais?
Ó alma atormentada?

Nos becos
Ecoam
Seus ais

O corvo te espreita
Do telhado da igreja...

Tu caminhas sem destino
E se depara
Com a encruzilhada...

Aonde vais?
Volta pra casa?

Ah! Na embriagues dos sentidos
Esqueceste...
Já não tens morada!

E agora
Ó alma penada?
Nem a encruzilhada
Aonde a duvida paira
Te agonia
Qualquer caminho
Te leva ao nada

Já não tens escolha
Perdeste a morada
Só te resta
O chá de boldo
Que te cure
A ressaca



Rob Azevedo







quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Prats dels Cremats - Testemunho de uma vida passada




Prats dels Cremats

- Testemunho de uma vida passada –
"Als cathars, als martirs del pur amor crestian.”





16 de Março de 1244…

Os cruzados logram sucesso
No assalto à fortaleza de Montségur
E nós cátaros
Negociamos a rendição da praça forte...

- Heréticos! Heréticos! Heréticos! Esbravejam os cruzados...

Aqueles que renegarem à fé cátara serão poupados
Da fogueira inquisitória!

Nossas senhoras e crianças choram
O desespero aflora
É consumado o fim
Da resistência cátara em Montségur

Tudo em nome
Da Igreja que se arroga
A ser a voz de Deus

Ó cegos
Magistrados do Diabo!
Vil pecado
É abarrotar os cofres
Da Basílica
Com ouro roubado!

Ó cruzados!
Tua Santa Igreja latifundiária
É covil de endemoniados
A serviço dos monarcas
Tiranos
Que impõe armas

Papas, Bispos, Cardeais
Toda corja
De parasitas prepotentes
Espalhando ais
Pelos quatro cantos do mundo
Sangrando, morrendo, faminto
Em nome de reis, príncipes, duques, condes
Trupe infame de aristocratas empedernidos
Auto-intitulados nobres em arrotos de porco
Ostentando diademas
Cinzelados pela Besta

Nossas crianças e senhoras gritam e choram
Desoladas
Mirando desesperadas esposos, pais, filhos, irmãos, companheiros
Sangrarem pela espada,
Por arqueiros das trevas
E dilacerados
Por pedras lançadas
De catapultas malditas

Nosso lar arde incendiado
Sob as chamas do Diabo
Nos saqueiam os cruzados!

Sangrenta chacina
Em nome de Deus
Onde tudo é heresia
Abissal covardia!

Os últimos combatentes cátaros
São dizimados
Aos olhos
De nossas crianças e senhoras

Não há saída
Tudo está perdido
Negociamos a rendição da praça forte

- Heréticos! Heréticos! Heréticos! Esbravejam os cruzados saqueadores endiabrados...

Aqueles que renegarem à fé cátara serão poupados
Da fogueira inquisitória!

Abro o peito e grito:

- Não renego!
Nosso Deus seja louvado
Não o Diabo dos saqueadores cruzados!

Todos se emudecem temerosos
Espantados
Meus companheiros se calam
Crianças e senhoras choram

Silêncio e olhares aflitos
Diante à morte cruciante na fogueira
Queimado vivo...

Agarra-me o braço um cruzado
Esbofeteia-me, chuta-me
Insulta-me
Corta meu rosto
Com a lâmina da espada
E sangra

Preparam a pira crematória
Escarnecendo de nós cátaros
Em nome do Santo Deus-Diabo

Silêncio e olhares aflitos
Crianças e senhoras choram
Vou sozinho
Ser queimado vivo...

De súbito
Uma voz se levanta:

- Em nome do povo cátaro
Também não renego
Minha fé!

E mais outra e outra e outra
Se vai ouvindo
Vencendo bravamente o medo
A vida e a morte
Com um sorriso valente de orgulho no rosto...

E somos duzentas vozes destemidas
De homens e mulheres
A não renegarem a fé

Ó servidores das trevas
Mais trabalho a vós damos
A pira crematória
Há de ser grande
Imensamente grande
Tão grande o quanto
Nossa fé
Diante a vida e a morte

Aos cantos de louvores a Deus
Somos amarrados nos mastros
Sobre a palha e madeira seca

É ateado o fogo...

Agonizamos em êxtase queimados vivos
Nos Prats dels Cremats

É o fim da resistência cátara em Montségur...

E início de uma lenda
Que atravessando em vidas séculos
Não esquece dos campos
Neles semeando não a morte no fogo
Mas o Amor em Versos



Rob Azevedo






domingo, 17 de agosto de 2008

Confissão




Confissão




Não!
Esse não é mais um poema de amor
Entre tantos
Fujo da desculpa
De que tudo é eu lírico
Devaneio de poeta...

Entenda minhas palavras
Como uma confissão direta
De alguém apaixonado

Uma ou outra metáfora
Sempre existirá
Rimas e cuidados
Com a escrita
Dando ares
De literatura
Mas não é
Senão uma confissão
De alguém apaixonado
Abrindo o coração

Prato farto
Para a imaginação de tantos
Que se perguntam:

- Será verdade?

Meus versos
São verdadeiros
Afirmo e não minto
São vindos
Do mais profundo
Amor que sinto

Não se contentam e perguntam:

- A qual dama
É dedicada
Tão ardente chama
De paixão e encanto?


Àquela
Que meus olhos enxergam
Como a flor mais bela
Dentre açucenas
Rosas e camélias...

Àquela
Que nenhuma aquarela
Reproduz seus matizes
Inigualáveis
Contemplados
Pela benevolência do Sol
E transcendência das pedras
Preciosas

Suas longas madeixas
São delicados fios dourados
Pelo arrebol
Colorindo manhãs felizes
Em tons purpúreos

Seus olhos
São dois rubis
De valor sem igual

Sua boca
É oásis
A mim, sedento
Fonte
Da qual bebo
Diante
Qualquer outra
É veneno

Seu corpo
Meu templo
Sacratíssimo
Aonde adentro
De espírito
Limpo

Sua alma
A pureza que canto
Banhado em pranto

Seu nome
Traz em si
A perfeita rima
A quem se confessa
E pensam:

- Escreve poesia!

Não!
É tão somente
Uma confissão direta
De amor
Amor
Amor
Amor e mais amor
Por Olívia...



Rob Azevedo








sexta-feira, 15 de agosto de 2008

No Teu Colo




No Teu Colo




Eu, homem
Defronte você
Sou menino
Querendo abrigo
No teu colo

Indefeso, perdido
Choro ouvindo
As batidas
Do teu coração

Silencio o soluço
Tremo
Devagar me acalmo
Fecho os olhos
Ao canto
De uma canção
De ninar

Amar
É navegar em mar
De contentamento...

Menino, enxugue teu pranto
Passou o tormento
O Sol amanhece
Dourado a brilhar

Passa o dia e anoitece
De mãos dadas comigo
Será doce
Teu caminhar
Colhendo
Estrelas
Ao luar


Secou o pranto
Ao canto
De uma canção
De ninar

Sereno adormeço
Aninhado no seio
Entrelaçado nos braços
Da menina mulher
Que Deus queira
Mereço

O Amor baila
Magnífico no ar
Transmutando o inverno
Em primavera
Aonde floresce
No jardim
A flor
Mais bela
De um Jasmim

Sonhando desperto
Adentrando no Templo de Eros
Cresço
Num suspiro uníssono
Com a lua
Menina crescente
Endoideço
Brindando
O cálice transbordante
Do Amor
Toque de Midas
Que me torna
Homem feito

O orvalho das manhãs
Que atravessaram em suspiros a noite
Escorre
Sobre dois corpos
Encharcados
Lado a lado

De menino
Indefeso, perdido
Choramingando
Ao longo do caminho
Sou homem feito
Feliz, sorrindo
Com a lua
Outrora
Menina crescente
Agora
Mulher cheia
De Amor
Gratificante

Dá-me teu colo
Mais uma vez
Ó flor que eclipsa
A luz da aurora
E cante
Como antes
Uma canção
De ninar




Rob Azevedo







quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Não Tem Segredo - Nem pra você, nem pra ninguém -




Abaixo é uma letra de música no estilo MPB.






Não Tem Segredo
- Nem pra você

Nem pra ninguém -



Já nem sei
O que dizer
Pra você
Amor

Enfeitei
A Lua
Com uma flor

Inventei
O menino
Trovador
E andei
Sozinho
Pela rua
Do Ouvidor

Ah! Meu Amor
De mãos dadas contigo
O adeus
Pra Dona
Dor

Ah! Meu Amor
Contigo eu vou
Pra onde
For

No teu seio meu abrigo
No meio do Sol o esconderijo
Em teu espírito
O sonho mais bonito

Meu Amor não tem segredo
Nem pra você
Nem pra ninguém

Não sei se é meu ouvido
Mas o vaivém
Das ondas
Sussurram
Teu nome

Olívia

Olívia

Olívia




Rob Azevedo









domingo, 3 de agosto de 2008

No Caminho do Mar





A composição a seguir é uma letra de música no estilo MPB.






No Caminho do Mar

(Rob Azevedo)



No caminho do mar
Eu vou te encontrar, eu sei
Eu vou te encontrar, eu sei
No caminho do mar

Na beira do mar
Vou me afogar, eu sei
Vou me afogar, eu sei
De tanto te amar

Castelos de areia
As ondas não vão levar
As ondas não vão apagar
Corações desenhados na areia

Iemanjá
Mãe da sereia
Me dá certeza
Noite traiçoeira
Não virá

A Lua é cheia
Olívia a estrela
A me guiar

Vou sair pro mar...

Na senda prateada vou seguir
Até onde a Lua beija o mar

Vou te encontrar...

Olívia, Olívia
Sereia bonita
Filha de Iemanjá



***Em negrito repete 3 vezes.







segunda-feira, 28 de julho de 2008

Castelo de Montsegur




Castelo de Montségur



Nasci com dote
De ser fantasma
Atormentado
Por fantasmas

Minha casa
É na treva
Aonde a porta
Está fechada

Trancada!

O cadeado não se quebra

A canção que ecoa
Por lúgubres corredores e átrios
É o réquiem
Dos desenganados

Desalmados!

À noite saio
Deixo o castelo
De Montségur

Desço a íngreme colina
Perambulo pelas vielas
Da cidadela
Abandonada

Deparo comigo
Condenado
Não paramentado
Pelas vestes de um cavaleiro consagrado
Mas aos farrapos
Escondendo o corpo em chagas
Com a mortalha
Dos amaldiçoados

Como os ratos
Entre as ruínas
Busco o limbo
O chão pisado
Entrando
Nos canais
Subterrâneos

Há um tesouro
Emparedado
Lá embaixo
Pelos cátaros

A encontrá-lo
Estou fadado
Até que a vida
Me leve da morte

O Santo Cálice!

Depositário do sangue
Do Mestre de antes
Portal dos mundos
Única chance
Para que a vida
Rebelde e compungida
Me leve da morte
No luzir da aurora
E me torne
Como outrora
Cavaleiro
De luz irradiante



Rob Azevedo








terça-feira, 22 de julho de 2008

Dama da Noite




Dama da Noite



Ó Dama da Noite
Vem derramar em minha boca
O bálsamo da tua doçura
Vem, me beija, me incendeia
Por Deus seja feita
A alquimia!
Desata o laço
Das madeixas
Despe tuas vestes
De princesa
Em nosso leito se deita
Entrega o corpo casto
Ao teu nobre bardo

Por ti cantarei
Enquanto sinos badalam
Por ti morrerei
Jazendo em gotas de orvalho
No teu íntimo amado

Ó, sonho um sonho não sonhado
Tu dormes ao meu lado
Reinando
Em meu coração
Libertado

Se a ti
Coube a mim
Fazer-te mulher
Ser o primeiro
A desvendar
Teu segredo
Entrego-te
As chaves
Do meu reino

Tua fronte adornarei
Não por ouro
Nem quimeras
Mas por heras

Lá no alto
Aonde brilha
A prateada esfera
Erguerei
Nosso castelo
Cravejado
De pérolas

Símbolo ao eterno etéreo
Imaculado
Canto de um ébrio
Alvejado
Pelo Amor
Sem pecado



Rob Azevedo








Camelot




Camelot



Acende lá no fundo da alma
O archote
São as luzes
De Camelot
Na colina imponente
Em rosa brilhante
O Joyous Garde
Ao cair da tarde

Avante carruagem!
Sigamos viagem
Ao reino de Arthur
E seus cavaleiros
Estandartes de coragem
Na Round Table
Da igualdade

Da pedra
Tiraste água
Tornando-te rei
Erguendo a espada
De Excalibur

Ó Arthur
Tu és o escolhido
De Merlin
E abençoado
Pela Dama do Lago

Toda Bretanha
Enfim unida
Nas mãos merecidas
De um rei ungido
Pelo saber divino

É tempo
De uma nova ordem
Instaurada
Pela nobreza
Do teu caráter

Rangendo carruagens
Cruzamos o bosque
Arautos do reino
Saúdam à Guinevere
Ressoando trombetas

A eleita
A coroar-se rainha
De Camelot

Ah! Tudo tão perfeito
Não fosse o Amor
Articulado
Nos bastidores
Do reino
Em nome
Da dinastia

Pelo erro
Caem em chamas
Tua dama
E teu mais fiel
Guerreiro...

Ó Arthur!
Do coração não se escolhe
Dono, nem dona
Amanhece
Feito Sol no horizonte
Abre-se
Como um botão de rosa

Vem vindo a carruagem
Rangendo
Os cavalos relinchando
Trazendo
Lady Guinevere

O céu se nubla
Detrás das colinas
Sombrias
Troveja
Voam em círculos
Aves de rapina
Cintila
Sob a luz tênue do Pôr-do-Sol
O aço da adaga
Que atraiçoa

A serpente
Mira fixa
A maçã da ruína

A utopia
Foi derribada
Pelo que arde
Dentro da carne

Ó Arthur
Lendário rei da Bretanha
Eram grandes demais
Teus ideais
O dragão da cobiça
Rugiu
A mesa redonda se partiu
O reino ruiu
Teus cavaleiros
Mataram-se todos
Tornando-se carniça
Manjar de abutres
Famintos por poder
Ouro e prata

Ah! Nem ruínas
Do teu castelo
E cidadela
Restam...

Ao menos
Sobrevive a lenda:

King Arthur and the Knights of the Round Table

Vencendo o tempo
No cruzar dos séculos
Que se sucedem

Ó cavaleiros
Descansem em paz
No além
Envoltos em brumas
De Avalon


Rob Azevedo








terça-feira, 15 de julho de 2008

Dona Flor e Seus Dois Maridos




Dona Flor e Seus Dois Maridos

Com eu lírico feminino – Por Dona Flor




Quando me penetras
Ó meu amor vadio
Sinto que me despertas
Em pleno cio

Por ti rogo
Revirando olhos enquanto gozo
Com todos meus poros
Sou puro instinto
Felino
Eriçando pêlos

Despe com fúria minha roupa
Liberta a tempestade de desejos
Deixa-me louca

O amor com que me abençoa
Tudo perdoa
Minhas economias
Arrancadas a tapas no rosto
Gastas no jogo
Tuas mulheres da vida
Teus passos tortos
De tão ébrio
Ao voltares pra casa
No término da madrugada

Ó meu gigolô, confesso
Molhada de suores
Abrindo-te meu coração e as pernas
Por ti meu sexo arde
Em chamas que não se apagam
Os lençóis da cama incendeiam
Ao me possuíres
Como bem queres

Enlouquecida de vontade
Te trago da morte
Para que jorre
Dentro de mim teu gozo

Ó meu amor proibido
A aliança de agora
Não é nada
Quando tu me desfloras

É limbo
Sem graça, nem libido
É tempo perdido

Sou tua fêmea no cio
Que sacio
Somente contigo
Ó meu amor vadio!



Rob Azevedo





Princesa




Princesa




Minha princesa menina mulher
Tuas palavras são cantos
De pureza em meus ouvidos
Tua presença a leveza
Que alivia o fardo da minha alma
Tão cândida
És a castidade que outrora
Desencantado
Busquei na Lua...

O quão doce são teus sonhos de amor!
Concedem a mim a crença
Em lendas
Incólumes
Nascidas do coração
Santificando o puro sentimento
Do encantamento que há
Entre um homem e uma mulher
Devotados um ao outro
Em cada pensamento

Um amor assim de todos
Algum dia já foi sonho
Verdadeiro
Único
Leal
Inocente
Confiante e calmo

Desperto
O vejo em teus olhos
Amor digno
De romances que emocionam

Enfeitiçado
Contemplo
A mais bela imagem
Dos meus ideais de poeta...

Todas quimeras
Que cantei em devaneios em meus versos
As encontrei em tua alma
Isso me acalma, me embebeda

Transfigura o deserto
Em bosque florido
Onde se abriga um castelo
Às margens de um lago

Ó, se aquietem todos!
Teus olhos não vêem o que vejo
Deixem que eu contemple desperto
O sonho mais belo

Não vêem os cisnes no espelho das águas desfilando?

Os pássaros silvando pousados nos galhos dos arbustos?

Os íngremes montes ao fundo cobertos de neve?

As cabras pastando nos outeiros?

As gazelas correndo nos prados?

Ó, eu vejo até com os olhos cerrados!

Eu vejo minha princesa de pureza que vem
De seu castelo
Vestida de azul

Menina mulher de longas madeixas
Derramando-se sobre as espáduas nuas
Seus olhos me fitam e sorri
Eclipsando a luz do Sol

Sou seu príncipe
Chegando num cavalo branco

Sempre serei
Seu príncipe
Ela
Minha princesa

Desço da montaria
Tiro o chapéu
Ajoelho-me diante da deusa
Beijo-lhe a mão
Oferto-lhe um buquê de rosas

Ó, numa noite enluarada
Defronte a igreja
Em voz suave e calma
Confidenciou-me recatada
Que entregar-se na alcova
Há de ser
Unicamente
Por um amor
Que não se meça
Tudo transcenda
E que seja
Pra vida inteira
Pleno de pureza
E devoção

Ó, que sonho!

Assim foi o amor da minha mãe...
Por toda vida só do meu pai
Disse-me ainda

Ah! Que leveza
Minha alma flutua como pluma
O mundo torna-se
Um mar de rosas sem espinhos
Inocente
Tranqüilo
Celeste

Contemplando o íntimo
Dessa princesa menina mulher
Compreendo
Que o amor das lendas, ideal
Posto em pedestal
Declamado por trovadores medievais românticos
Ainda existe
E o tenho em minhas mãos
Que de coração e espírito asseguro
Com grande alegria e honra
Serão dignas de ti
Religiosamente
Por toda a vida
Como tu sonhas
Ó, minha princesa!



Rob Azevedo






quarta-feira, 9 de julho de 2008

4 U




4 U




Mesmo quando não te vejo
Te vejo, te beijo e contigo me deito
Tu dormes em meu peito
Amor-Perfeito!

O que são dias
Que contigo não estive?

Tua presença
Em meu pensamento
E em cada estrela
Que vejo no firmamento
E beijo sedento

O que são momentos
Sem ti ao meu lado?

Eternidade e sofrimento
Mas eu agüento
Contigo aqui dentro

Sentimento não se leva pelo vento
Nem o tempo
Distância ou qualquer padecimento

A saudade é o ungüento
Que sara as chagas
Em meu coração sangrento

Remédio amargo
Cicatriza toda ferida
Dando a exata medida
Do quanto te amo

Traz a certeza
Na dor sem tamanho
Banhada em pranto santo
Que é verdadeiro meu canto:

Mesmo quando não te vejo
Te vejo, te beijo e contigo me deito
Tu dormes em meu peito
Amor-Perfeito!



Rob Azevedo






O Alinhamento dos Planetas




O Alinhamento dos Planetas




Fêmea felina
Pecadora bendita
Bandida bem-quista
Banida e recebida
Além do Sétimo Céu

Messalina exclusiva
Do homem escolhido

Um nome se pronuncia...

Convento, catedral
Confessionário, sacristia


.........................................Hare Krishna
............................................Muladhara
..........................................Mantra Sham
..........................................Píngala Ida
.........................................Chakra Swadhisthana


Arrebol

Se põe o Sol
Em Si Bemol




Rob Azevedo








quinta-feira, 26 de junho de 2008

O Caminho das Rosas




O Caminho das Rosas

- Um poema ensaio sobre o mito Don Juan –



Não, o Don Juan da minha história
Não era
Um conquistador
Conquistador é aquele
Que parte em busca
Do que deseja conquistar
Luta
E o conquista

Ao Don Juan de quem contam meus versos
Não era preciso
Partir em busca dos seus objetos de desejo
Tampouco por eles lutar
D`alguma forma
Para que os tivesse

Ele não procurava
Era procurado
Não ia ao que desejava
Vinham até ele o desejando

Não era preciso “luta”
A “batalha” de pronto
Já estava vencida
E se rendiam aos seus pés
Amando-o

Entre as flores tantas
Que espontaneamente se ofertavam
Colhia aquelas
Que lhe apeteciam a carne e a alma
E pudesse
Atendê-las
Na medida do possível
De acordo com a demanda

Interminável...

As não contempladas
Que lhe fossem somente
Admiradoras
Sonhando algum dia detentoras
De seus favores

Este Don Juan
Às mulheres
Era fonte de água
Em meio ao deserto
Aonde todas vinham beber
Era Meca, cidade sagrada
Para aonde todas peregrinavam
Em romaria

Poder-se-ia então dizer
Que ele era um conquistador
Sem que nenhum passo
Ou medido ato
De sua parte fosse necessário?

Nada fazia
Vinham até ele por livre e espontânea vontade
E se entregavam...

Que o definam então
Com outro adjetivo
Conquistador
É inexato...

Era um deus adorado
Contemplado a cada instante
Com oferendas incontáveis:

Corpos femininos

Devassá-los
A quem se doava
Bênção e honra
Pela carne e alma desejada
Na consumação consagrada
Como Amor entre deuses
Pois de simples mortal
A mulher que se entregava
Em deusa se tornava

Este Don Juan
Um patrimônio intocável de toda mulher
Como um monumento histórico da humanidade tombado
Era perfeito encaixe
Dos mais ardentes e sonhados desejos femininos

Aquele que todas
- Bem-aventuradas –
Mereciam

Tê-lo redenção
De todos pecados
Tudo era perdoado

Não era tão somente ser humano
Mas em cada detalhe
O desejo feminino
Mais puro, ardente e genuíno
Personificado
Em homem transformado
Da matéria ao espírito
No ser e no ato

Era tudo o que a mulher desejava
Em sua feminilidade liberta
Inteiramente aflorada

Assim o reconheciam
Com os cinco sentidos
E mesmo
Com o sexto-sentido
Intuitivamente

Tão logo nenhum pudor
Nenhuma divisão eu e tu
Nenhuma fronteira intransponível
Nenhum receio
Nem peso na consciência ou segredo

Com ele
Tudo de-li-ci-o-so...

O mais inconfessável desejo
A sete chaves trancado
Tão natural
Dito sem rubor ou medo
Inteiramente satisfeito
Com a inocência
De crianças brincando
Embora se ardendo
Como homem e mulher
Adultos e libertos
Devotados
Num ritual sagrado

Não se viam diante dele
Mas frente a frente aos próprios desejos
Cada um deles
Sem censura alguma
Na certeza
De realizá-los
Plenamente

Não conversavam nem lhe davam com ele
Mas consigo mesmas
Não faziam amor com ele
Mas com seus anseios libidinosos mais íntimos
Daí se sentiam
Inteiramente à vontade
Livres na totalidade
Da liberdade
De consciência livre
De qualquer senso
Que o prazer julga e reprime

Nas mãos de Don Juan
Abençoada liberdade
De ser mulher inteira
Sem fronteira
Nem erro

Eternizado no tempo
Vive aqui dentro
E diz:

- Eu sou aquele que é...

Don Juan
O desejo feminino
Em homem personificado...

Saciá-lo
Com esmerada perfeição
Meu prazer impagável
Canção
Que ressoa nos sonhos
De todas mulheres


E dizem estas:

- Bem-aventuradas aquelas
Que o têm
Porque delas
É o Reino das mulheres que em verdade
Gozam...

O Amor




Rob Azevedo







domingo, 15 de junho de 2008

Tudo O Que A Vida Nos Permitiu




Tudo O Que A Vida Nos Permitiu




Se não houver amanhã
Haverá o ontem
O tempo vivido
Que passei contigo

Não o pesar
Pelo trem que se foi
Sem que tenhamos nele embarcado

Porque embarcamos!
Viajamos!
Conhecemos lugares
Que só o coração daqueles que amam de verdade
Pode visitar

Se o acaso da vida quis
Que houvesse uma estação de desembarque
Um ponto final pra nós dois
E tu seguisses teu caminho
Eu o meu...

Vivemos o que foi
Nalgum tempo hoje...

Não apenas deixamos
Que se tornasse ontem
Sem o termos vivido

Tenho lembranças
Para recordar
Histórias
Para contar
Que me engrandeceram
Tenha certeza!

Tornaram-me maior
Ser o que sou
Construído tijolo por tijolo
Com ajuda
Das tuas mãos

Aquela tarde
Serena e leda
Em que sentaste comigo na relva macia
A ouvir dos pássaros a melodia
Sentindo o vento
Acariciando nossos rostos
Colados um no outro

Há algo que a pague?

Pergunto...

Há algo que a apague?

Aquele momento mágico
Eternamente na alma gravado
Em que me disseste
Tudo o que sentias por mim
Eu, exultante, muito ouvi
Até que anoiteceu
E retribuí
Dizendo-lhe tudo o que sentia por ti
Encabulado, no entanto
Tu bem sabes
E eu confesso

Porque tudo
Dá-nos a impressão de um mundo de coisas
Que não cabem ser ditas em horas e horas sem fim...

Tudo é imenso
Uma enormidade deveras grande
Constelações
Os peixes do mar
O infinito...

Então encabulei
Aflito...

Porque tudo o que sentia por ti
E tinha pra lhe dizer
Sabendo que era tudo
O que podia lhe dar
Se resumia
Numa única coisa
Somente uma
Abstrata ainda
Como são todos os sentimentos
Que não se podem tocar
Nem ver...

E nem me veio à cabeça mais nada... Só aquela única palavra...

Vasculhei do porão da minha alma
Ao sótão
Cada cômodo
Parte por parte
Minuciosamente
Sem nada mais encontrar...

De mim para ti
O tudo
Esse tão abrangente tudo
Que nele cabe o mundo
Era uma coisa apenas
Ainda abstrata
Intangível
Invisível...

Senti-me pobre
De sentimentos, sei lá!

Mas valeu a confissão
Pois o meu tudo
Sendo uma única coisa
Era TUDO...

AMOR

Refletido nos olhos
Um do outro
Éramos espelhos

E viajamos juntos
No trem da vida
Até aonde deu:

O Adeus

Mas o ontem
Foi um hoje
Que vivemos
Não agora um remorso
Por tudo que poderíamos ter vivido
Sem tê-lo...

Assim seguindo meu caminho
Levei-te comigo
Serena e leve
Seguindo o teu
Levaste a mim
Gravado no peito
Leve e sereno

Porque tudo
Tudo o que sentíamos
Um pelo outro
Nos dizemos
E vivemos

Agradeçamos
E rezemos
Aquela prece
De outrora
Lado a lado
Ainda que o hoje
Nos tenha distantes

E nos elevemos aos céus
Juntos mais uma vez
Pelos elos inquebrantáveis da gratidão
Por sabermos que vivemos
Tudo o que a vida um dia nos permitiu



Rob Azevedo





sábado, 14 de junho de 2008

Flora




Flora




Senhora e rainha
Da minha trova
Do verso que aflora
Na paixão implora:

Se tens olhos
Os volte pra mim
Aos meus que choram

Se tens coração
Guarde nele
Minha canção

Se tens alma
Alva como a neve
Cobrindo os campos
Ouve com ela
Minha querela:

O belo
Tornou-se feio
O contente
Lastimoso

Nada mais me apetece
Nem as estrelas
No céu que anoitece

Porque não me viste
Minha vida leda
Tornou-se triste

Meu canto
Mar de pranto
Porque partiste
Ainda antes
De chegares a mim

Desaventurado, nalgum instante
Ao acaso te feri?

Perdoa-me, senhora e rainha
Se as rosas
Abrigam espinhos

Haverei de podar
Das roseiras
De aqui e acolá
O que possa tuas mãos
Sangrar

Se meu pecado
Nos presentes que te trago
Foi carecer de mérito
Devotado em cada gesto
Ser indigno...

Perdoa-me, ó deusa
Senhora e rainha
Da minha trova
Que te implora:

Volta!

Com flores te presenteio
Aquém do teu merecimento
Compreendo:

Não és nenhuma delas...

És flora!

Todas elas...



Rob Azevedo





Conjecturas Poéticas




Conjecturas Poéticas



Todas as cartas de amor são ridículas
Disse Pessoa...
Ai de mim!
Que vivo a escrever
Cartas de amor sem fim

À Maria,
Antônia,
Joaquina...

A todas
E a ninguém...

A este pobre poeta
Tal devaneio
Convém
O Amor é a tinta
Da minha pena

A folha branca, a linha
O berço do poema

O dedico a quem?

A alguma senhora nobre e distinta
De certo...

Mas por que lhe escrevo?

Por que a amo?

Ou tão somente
Há de haver algum pretexto
E me engano?

Pessoa reescrevo:

Todas as conjecturas dos poetas
São ridículas.


Rob Azevedo






quarta-feira, 11 de junho de 2008

Navio Fantasma




Navio Fantasma




Do tombadilho vejo vagas
Açoitando o navio
Estouram brancas espumantes
Em rompantes de ira
Vindo e voltando
Subindo e descendo
Seguimos perdidos
Adernando a deriva

A noite escura nos toma
Nenhum farol nos guia
Sem Norte na bússola
Não se vê estrelas acima

Ruge o trovão do céu encoberto
Como o dragão das trevas rosnando
Sobre águas balouçamos
Do alto águas desabando

Em meio à tempestade
O estrondo das vagas estourando
O uivar do vento furioso soprando
A chuva, o relâmpago
São réquiens
Fúnebres canções malditas
Vindas do além

Range a madeira
Range o ferro
Nos espreita o rochedo

Breu profundo...
Só as vagas espumantes são brancas
São mortalhas tremendas
Castigando o navio
Impiedosamente
Envolvendo-o

Uma noite apenas
Na extensão da eternidade
Quiçá desaguando na morte

Importa-nos?

O que somos?
Senão mortos
Na treva funda amaldiçoados
Do descanse em paz desterrados
Como tripulantes degredados do navio fantasma
Navegando sem leme
Por mais uma noite
Na extensão da eternidade...


Rob Azevedo





terça-feira, 10 de junho de 2008

芸者




芸者



Aonde o Sol nasce
No Leste
O mundo se reveste
Do encanto da flor
Do Salgueiro

Fina na Arte
Da pétala ao cálice
Artífice
Do enleio sedutor
Mestra
Na dança e canto

Penteado em forma
De pêssego
Maquiada de branco
Rosto de boneca
De porcelana
Vestida de quimono

Elegante
Culta
Delicada
Como um tesouro guarda
Milenar tradição

Insondáveis mistérios
Nos olhos riscados
Baixos
Na voz velada
Suave
Afinada em gestos
Graciosos

Do outro lado do mundo
Buscando absorto
A Gueixa dos meus sonhos
Cruzei arrozais
Cheguei à cidade
Orei no pagode
Perambulei taciturno
Pelas ruas de Quioto

À luz de lamparinas
Névoas se esfumam
E caem
Finos flocos de neve

A noite é fria
A rua vazia
Toda palavra dita ou escrita
Um enigma...

芸者

Ó Gueixa!
Dama de polidez
Valorosa e tão assídua
Em meus sonhos...

Numa casa de chá
Imersa na penumbra
Vinda de velas em castiçais
Encontrei-te
Incomunicável nas palavras
Compreensível nos sentidos e alma

O encantamento
A sedução
Tem sua linguagem
Silenciosa

Que se parta a ilusão!
De amante por prata
Dolente engano
Veneno na água

Que se separe
O trigo do jôio
Nos ampare
O Iluminado

Nem da terra se perca
Vossa imagem soberba...

Que minhas mãos a toquem
A envolvam
Deslizem na pele nua
Não por prata
Como dizem outros
Mas pela simples e pura
Beleza da Lua

Ó Amor!
Vinde sereno
Límpido
Derramar seu bálsamo
Sobre nós
Nessa noite em Quioto
A sós
Numa casa de chá

Lá fora
As ruas são vazias
A noite desolada e fria
Arranha-céus desertos
De solidão e agonia

Descansam do dia após dia
De árdua labuta

Ao nascedouro do Sol
Oferto meu canto
Que seja o lenço
A lhe enxugar o pranto

Esse que enxugo dos meus olhos
Porque eu peregrino mundo afora
Sabedor que ainda há
O que virá no luzir da aurora
Encontrei
A Gueixa dos meus sonhos


Rob Azevedo





Lilases




Lilases




O arrebol
Colore o céu
De lilás
A geada de fins de Outono
Os pampas
De branco
Entre brumas
Divina formosura
Se vislumbra

Uma menina
Vem vindo
Balouçando
O negro manto
De seu cabelo

Traz consigo
No rosto a suavidade do sorriso
Na mão tremente de frio
Um poema
Pequenino

O mais bonito!

Amar é ter casa na Lua
Pátria no Sol


Só isso!
Dois versos
Sob a luz lilás
Do arrebol

O resto
Não é preciso
Nem mesmo navegar
Nenhum mar
Nos separa

Agora eu vivo
Nada mais é preciso


Rob Azevedo





Quisera Tu Soubesses...




Quisera Tu Soubesses...
- O infinito é ínfimo diante –




Não sabes ainda, Jasmim
O que é passar a noite insone
Perdido de amores
Imaginando estar
Com quem amamos?

Ah! Nada sabes então
Das armadilhas do coração...

Eu que andei do nascer ao pôr do Sol
Cismando solitário pelos cantos
Lhe direi:

É o Amor que nos toma
De repente
Sem que escolhamos

É só ter olhos
Para um único alguém

É inebriar-se de encantos
Imaginando
Quando não podemos
Estar ao lado de quem amamos

É um pranto mudo
Com a cabeça posta no travesseiro
O peito doendo
O coração ardendo
Por tanto sentimento
Não caber em si

É suspirar a todo instante
Absorto em devaneios
Ter a cabeça ao léu
Os pés andarilhando
Nas nuvens

É escrever poemas sem que pare
Desenhar corações na branca folha
Atravessados por setas

É declarar-se a cada vez que encontramos
Quem dia e noite procuramos
Por este alguém
Sentir Amor sem tamanho

É estar sempre no confessionário
Mil vezes
Como em penitência a um pecado impagável
Confessando paixão

É crer que alguém é perfeito
Do início ao fim e meio
E a pessoa mais linda do mundo
Sem rival
Nem no monte Olimpo

Daquela beleza estonteante
Da alma ao corpo
Que nos estremece
Endoidece
Incendeia

Ainda que ninguém mais a veja
Nós a vemos
Em plenitude

É acreditar que o humano sentimento
Pode se estender no tempo
Da eternidade

É felicidade transbordante
Por uma palavra singela
Uma lembrança
E zelo demonstrado

Alegria que não se mede
Pela visão do objeto amado
Ao longe chegando

A voz desse enlevo tão desejado
Um cântico
Melodia
Sinfonia
Bálsamo
Poesia

Um olhar
Por ventura brilhante
A luz que ilumina o mundo
O nosso mundo interior

Três palavras
- Eu te amo –
Quando ditas em verdade
E o coração sabe quando
A liberdade
De voar à felicidade
Inundado de encanto

É dizer muito
E não dizer o tanto
Do que é o Amor
Que não se abrange
Nem no infinito

É transbordar-se
Transportar-se
Ao lúmen do universo
Casar-se com Deus!

É olhar a quem amamos
Ver um anjo
E desejarmos
Também sermos
Luz e pureza
Honrando
O Amor imaculado

É a vida tornar-se sonho
Acordado
E a vida que foi outrora
Tão somente sono
Profundo
Vazio
Sem sentido
Frio
Sem cor
Pálido

É termos cuidados
Exagerados
Com quem amamos

É saudade agonizante
Esperança que não se rende
Bem querer que não morre
Tudo o que ninguém entende

É fazer casa na Lua
Pátria no Sol

É mesmo ser demente
De lucidez radiante

É dor também...
Dor pra quem
É doce a passagem
Pro além
Quando viver já não convém
Se não se tem
O bem
Maior
Do Amor

Que tudo se acalme
Abrande o fogo e se apague
Carne torne-se pó
Alma tão só
Claridade

E a paixão se cale...

Que o Onipotente nos redima na morte...

Do Amor
Dizemos muito
Sem dizer o tanto
Do que mesmo o infinito diante
É pequeno
Ínfimo
Sopro do vento



Rob Azevedo






sexta-feira, 30 de maio de 2008

Os Versos Que Te Faço




Os Versos Que Te Faço
- Se cala e sente a dor porque é Amor -



Eu canto a lucidez do lado avesso
Aquela sem fim nem começo
Eu canto o dia que passei inteiro
Perdido em devaneio
Perguntando ao espelho:

- Ela me ama?

Cantando ateio a chama
Que incendeia minha cama
Fogo que me consome
Lembrando seu nome

Passo noite insone
Perco a fome
A Margarida do jardim
Despetalada
Ainda não me respondeu:

Bem me quer?
Mal me quer?

Entro em bar
Saio bêbado
Chorando dor de cotovelo
Transbordo o cinzeiro
Ascendem nuvens de nicotina
Abro a cortina
Respiro um ar

Por que eu amo se me dói
Se me mata
O que sinto?

Por que eu conto
Horas que me devoram
Quando não estou contigo?

Horas tão lentas
Vagarosas
Pesarosas
Que parecem anos
De vazio
Sem tamanho

Diante delas
Que uma vaga me trague
Me afogue
No mar

Que nem um vaga-lume
Ilumine
O breu
Que eu mergulhe

Desposarei a Morte
Se avara a Fortuna sequer me consola
Impiedosa tortura
Molha minha boca e mata de sede
Uma alma que chora

Quisera cegassem meus olhos
Antes de conhecer-te
A ver-me agora
Desejando a negra Sorte

Envolto no betume da noite
Minha veste é mortalha
Meu companheiro de lástima
Um Corvo

A bebida que me embriaga
Balouçando no copo entre pedras de gelo
É lágrima!

Dos Campos Elíseos
Cerraram-se as portas
O murmúrio das águas
O silvar dos colibris
Já não ouço
Somente o lamento
Eterno tormento
Vindo das sombras do calabouço
Do Inferno de Dante

Fantasmas rangem os dentes
Arrastam correntes

Regresso ao cárcere
Que me empareda
Do outro lado a liberdade
Já não me espera

Num olhar ígneo
Com coração de pedra
Desafia minha entranha
Num tropel de perguntas
Enigmáticas
Contraditas
Dilacerantes
Como adaga afiada
Que desfia
O fio da meada

Por que morro de secura
Se nem sequer tenho boca?

Por que tamanha alvura
Diante minha alma escura?

Por que comparo
Meu Amor
Ao infinito
E dele cai
Uma estrela
Cadente?

Ninguém responde...

O vento sopra
O Sol se põe
A noite vem
Saudade...

Eu conto horas...

Endoideço
Ainda ontem
Jurei por ti
Eternidade...

Contarei sem que acabe!

Grãos de areia
- No deserto -

Gotas de água
- No oceano -

Folhas de árvore
- Nas florestas -

Estrelas
- No céu –

Pecados que não cometi
- Ainda assim pago -

E nas contas do terço
O mais penoso de se contar:

O Amor que padeço
Nos versos
Que te faço




Rob Azevedo






terça-feira, 27 de maio de 2008

Brancas Noites




Brancas Noites



Luz que brilha na noite
Doce como o mel do Éden
Transbordando nos cântaros
O bálsamo dos anjos

É tão bem que te quero
De um Amor tão puro
Que por ti eu rego
Todas as flores
Dos jardins suspensos
Da Babilônia

Para que passes
Na alameda feliz
Emoldurada por encantos
Divinais de pétalas se abrindo
Nas sete cores
Do arco-íris
E eu aqui, humilde
Te veja sorrindo

É tão bem que te quero...
Que te quero além
Da vida que Deus me deu
Te quero no tempo
Da eternidade
Te quero de um Amor
Imortal

Diante aquela
A quem eu canto
Nenhuma dama
De conto de fadas
É mais cândida
Ou bela

De nenhuma aquarela
Se pinta suas cores
De olhos de Rubi
E madeixas de Cobre

Diante o Amor
Que sinto por ela
A vastidão do oceano é pequena
A duração da vida efêmera
As estrelas do céu são poucas

Um só poema
Não conta
O que minha alma toma
E eu canto
Porque amo

Não é a sina de todos os poetas?

Amar...

De um Amor tão grande
Que transpira na pele
Na folha nua escorre
E se transforma em versos

É feito pérola na concha
Que nasce da ferida...

Em mim
É meu coração que sangra
Cicatrizando
Em poesia

É noite que vira dia
Distância agonia
Sua boca itinerário
Dos meus lábios

Meu coração naufrago
Abandona a nau das ilusões
Atravessa mil mares a nado
Em busca do porto seguro
Nalguma enseada
Do seu corpo

Receba-me como te escrevo
Em cada um dos meus versos
Seja do meu espírito o enlevo
Que comigo te levo
Galopando num cavalo alado
Ao sonho que declamo
Rasgando o peito
Amor por ti perfeito

Em brancas noites
Vou seguindo meu caminho
E tudo o que vejo
É uma estrada
Que me conduz
Ao seu beijo

Além
Refletidos nos seus olhos
Crisântemos
Lírios
Girassóis...

Os filhos
Que ainda não tive



Rob Azevedo






domingo, 25 de maio de 2008

Flor dos Meus Sonhos




Flor dos Meus Sonhos




Como um botão de rosa se abrindo ao Sol da manhã
Desponta teu Amor
Ó Flor dos Mil Sonhos!
À Fonte da Juventude
Que jorra da tua boca
Cantarei odes

Por ti
Ó doce castidade
Sem pressa desato o laço
Peregrino por sendas
Quiçá
Penitente e sozinho
Porque sei
No fim do caminho
Encontrar-te-ei

Jaz o ontem
Em sepulcro maldito
Sobre a lápide nasce
Um botão de rosa
Sob o Sol
Sob o Sol da manhã

Metamorfose
O hoje, o amanhã
É fruto bendito
Do teu ventre
Ó Flor
Ó Flor dos Meus Sonhos!

Incólume
Menina-moça
Se abrindo em pétala-mulher
Desabrocha
Por Amor

Ó delicadeza virginal
Ainda há pudor
A face que se enrubesce
O recatamento na alcova
O prazer que é Amor

Ainda há
Mil sonhos
Em teu coração

Minhas mãos
Tocarão o címbalo dos anjos
A harpa dos Querubins
Minha voz tão suave
Será o canto do Serafim

Meu corpo teu jardim
Aonde sob o Sol da manhã
Acordarás se abrindo em pétala-mulher
No peito de quem
Do humano fez etéreo
Do prazer Amor
Voando contigo ao céu

A transcendência eu canto
Não aquelas flores que apodrecem
Antes da hora

Minha trova é composta
De versos da alma
E luminescência da aurora

Reflete na Lua
Minha inocência e a tua
Doada
Em cada lágrima orvalhada
No botão de rosa

Aquieto mesmo o espírito
Para que durmas
Serenamente
Enquanto velo teu sono e rezo
A Deus eu peço
Ser digno e merecedor
Da Flor
Dos Meus Sonhos



Rob Azevedo








Camélia de Prata




Camélia de Prata



Paira tão distante, acima dos montes
Por sobre as nuvens, além da esfera
Intocável silenciosa quimera
Transcende tempos, acalenta amantes

Tua luz eclipsa o cintilar das estrelas
Agonia matilhas, inebria trovadores
Desprende mil suspiros de amores
Provoca dores, não se pode entendê-las

Ó Camélia de Prata que flutua
Quisera eu houvesse a rua
De encontro à tua castidade nua

Partiria elos, deixaria meu castelo
Enfim chegando lá no etéreo
Quem me dera desposar a Lua!


Rob Azevedo





domingo, 18 de maio de 2008

Refugiados na Serra




Refugiados na Serra




Nem uma hora que tu partes
Eu aqui, morrendo de saudades
Nossos lençóis ainda se vêem
Desalinhados
Teu perfume no ar
O coração que fizeste pra mim
Em batom no espelho do toalete

Ah! Que noite!
Refugiados nesse oásis de paz
Distante do mundo
Em meio ao verde

O murmúrio do regato
Bem em frente da janela
Cantarolando suas melodias serenas

O Bem-Te-Vi assoviando pousado no galho
Do pé de laranjeira
O cocoricar dos galos

O gramado, os arbustos, as flores
Colinas ao redor
Cobertas de mata nativa
Virgem, incólume
Envoltas
Pelas névoas da serra

O coreto na pracinha
A igrejinha no alto de um monte
As ruazinhas
Com seus barzinhos e vendas
Onde bem devagar passam carros
E também
Cavalos, carroças

Todo mundo tão simples
Da roça
Inocente e puro
Eu vindo das cidades
Diante
A ingenuidade perdida

Ah! Que humildade!
Com todo respeito
Nos tratam como se fossemos doutores
Muito importantes
Forasteiros

São coisas de um vilarejo pequeno
Aonde vivem as pessoas simples

Um convite para um café
Que cheira forte da cozinha
Uma prosa na varanda
Contando aqueles “causos” antigos
- Se quiserem aqui pernoitem
Somos teus anfitriões

Nos dizem
Em tom amável

Essa hospitalidade
Proximidade sem barreiras
Cordialidade desinteressada
É que me toca
Profundamente
Porque não se vê mais
No mundo em que vivemos
Aonde todos se cercam de muros
E nada é gratuito

Respiro o ar fresco da serra
Volto pro meu quarto de pousada
Tu ali
Ainda tão presente
Impregnada em cada coisa

Esqueceste teu pingente
Sobre a cômoda
O pego e guardo em meu bolso
É tua lembrança e meu amuleto fervoroso

Viro as costas
Agora me vou eu
Rumo ao pôr-do-Sol
Colorindo o céu detrás das colinas
Entre frias brumas

Em mim o gosto
Do teu corpo
A lembrança de cada jura de Amor
No meu ouvido sussurrando
Quando como duas crianças nuas
Dormíamos um no colo do outro

Isso é Amor tão puro
Quanto puro é o mundo
Em que peregrinando ao infinito
Sem vontade vou deixando

Mas lembro
Nosso Amor sacramentando
Que tu existes
É real
E vou feliz



Rob Azevedo





sexta-feira, 25 de abril de 2008

Tratado Filosófico Poético...




Tratado Filosófico Poético

E Bíblicopelo tamanho
Em muitos ângulos
Até Concluir:
Eu Não Sabia!




Quando eu me for
Desta vida
Direi comigo:

Não foi feia nem bonita
Não foi doce nem amarga
Não foi leve nem pesada
Não foi cinza nem colorida

Direi essas coisas comigo
Quando me for
Para que tenha consolo
E pareça brando o tempo
Em que estive no mundo

Não tão boa
Nem tão ruim
Uma garoa à toa
Caindo
O dia inteiro

Não foi festa em circo
Nem irreparável castigo

Não fiz
Quase nada do que quis
Engavetei sonhos
Rasguei a planta do castelo
Que imaginei um dia
Sorrindo diria:

Eu construí!

Não fui triste de morrer
Nem feliz
Por mais de uma semana
Ainda que tão pouco refrigério
Fosse aquela felicidade
Feita de ilusão
No fim das contas se conta
Subtraindo na soma
Do pesar

Foi um viver por aqui estar...
Que jeito há
Senão viver?

Uma nuvem branca passando no céu despercebida
Um caminhar sem ter aonde ir
Uma pergunta no ar:

Qual razão de existir?

Fosse uma estação
Diria Outono...

Fosse uma canção
Diria uma Bossa-Nova
Daquelas melancólicas
De fossa, nostalgia
Lembrando tardes vazias
Depois de um carnaval que se finda

Fosse uma partida de futebol
Diria um zero a zero
Sem perigos de gol

Fosse uma nota
Diria um cinco

Se me perguntassem o que achei
Diria mais ou menos

Caso fosse a pergunta
Valeu a pena ter vindo?
Diria não sei

Decerto
Não foi a vida que queria
Foi como um famigerado ruminante
Apenas mais um
No imenso rebanho
Ruminando um naco de capim
Filosofando
Com os olhos postos
No pasto cercado
Um pouco detrás
Do matadouro

Aquelas questões filosóficas
Lugares-comuns
Clichês
Vindo à tona:

O Nada
O Sem Sentido
O Absurdo

Qual razão
De toda essa grande droga?

No entanto
Minha sina
Ainda deu pra ser vivida
E não havia mesmo
Outra saída...

Como um cacto vicejando no deserto
Mas por bem pensante
Adaptei-me ao estéril
Cri no etéreo
E sorri quando pude
Sem graça, confesso

A tudo fui levando
Tão somente porque existo

Algo ao meu gosto
Aqui e ali
Garimpando encontrei...

Um bom livro...
E outro...
E outro...
Uma biblioteca inteira...

Virando páginas
Vi tanta coisa
Que me deu alívio
Nessa vida sem colorido!

A história da humanidade
Sempre foi uma árdua luta
De dor
Pouca felicidade
E muita loucura

Tudo tão no superlativo absoluto extravagante
Espantoso aos olhos gritante
Vomitado por bufões dementes
Entremeado por espasmos de cavaleiros andantes
Que ainda com aquela pontada de dor conseqüente
Encontrei um manancial de alento
Entricheirado no passatempo ao meu grado

Afinal, um mundo interessante...

O que seria de mim
Sem os livros
Sem a cultura?

Essa deusa que me concedeu
Ao desprezo que a vida me deu
O poder
Desprezar um tanto a vida

Deu as costas para mim
Eu para ela
Estamos de mal

Viver eu posso sem a vida
Há o mundo intelectual
Do qual
Sou afeito

Trilhando tortuosa senda
Margeada de árvores ressequidas
Sob o Sol causticante
Cruzei a campina
Avistei pomares
Onde colhi maduros frutos
De exuberante Literatura

Deparei-me num bosque
De solitude e rigores, é vero
Mas de cenário ameno
Existindo no intelecto

Nele fiz morada
E tão cheio de viver a sós comigo
Compreendi que me era fundamental da alma
Ser bem rico
De modo que eu me bastasse
Fosse meu próprio abrigo
Água, alimento
E válvula de escape
Pro instinto

Assim
Em mim
Ajuntei tesouros
Invisíveis

A vida continuou
Sem ser boa nem má
Não foi das melhores
Nem das piores

É fato:
Não foi a vida que quis
Não fui feliz...
Mas sabe de uma coisa?

Dos males o menor
Também não fui tão triste
Daqueles que o diabo sente dó
Poderia ser pior

Sentei-me à mesa
Meu manjar veio frio e insosso
Sem sabor
Com gosto de isopor

Ao lado um copo de água
Da torneira

Mas tive meu prato
E o que beber...

É nefasto
Mas sempre
Meditar sobre a miséria alheia
Num mundo de mazelas tão colossais
Nos faz um certo bem
E temos consolo
Rindo sem tino
De piadas
De humor negro

Então
Dei meu jeito
Cacei com gato
Comi pedra e areia
Encontrei água no lodo

Adaptei-me ao deserto
Procurei algo ao meu gosto
Encontrando me entretive
Passando o tempo
E a vida fui vivendo...

No fundo
Não nego
Entranhou-se em mim
Aquela sensação
De desperdício, lástima
Pelas coisas – ah! Tão belas! Ah! - que poderia ter vivido
Da forma como sonhei
E não as vivi
Somente as sonhei
Enquanto passavam por mim
Ao alcance das mãos
Desejosas em serem colhidas
No entanto
Não pude sequer tocá-las

Esse pesar dói, sangra...
Mas não mata
E estou vivo...

E o destino de todos
Não importa
É o mesmo...

Tão logo as flores murcham
E seremos pó
Esquecidos
Havendo a passagem
Sido malquista
Ou de bem-aventurança

Ao menos
Para quem tem
Olhos
Ouvidos
Ou ainda algum sentido
Pode-se ver o Sol nascer sobre o mar
Sobre os campos
Ou por detrás das montanhas
Num dia límpido

Pode-se ouvir os pássaros silvestres cantando
Em algazarra nos pomares carregados
Ou o canto das ondas marinhas
Lambendo a praia

Pode-se sentir o ar matutino
Das serras verdejantes
Entrando no corpo humano
Tomando os pulmões

Pode-se sentir a textura das pétalas de rosas
Ou do pêlo dos dóceis animais domésticos

Pode-se sentir o repouso benéfico do sono
Quando dormimos

Pode-se sentir o perfume
Das primaveras

Pode-se sentir na pele
O calor do Sol aquecendo
E o frescor da brisa
Dando alento

Pode-se sentir o gosto
Das frutas maduras
E sentir mesmo prazer
Na água límpida
Escorrendo na garganta
Ou banhando nosso corpo

Pode-se sentir
O Amor de alguém – ou de algum cão ou gato
Por nós...

Isso tudo é a vida!

Não só a conta bancária...
Aquela moça bonita...
Aquele Amor que não deu...
Viagens não sei pra aonde...
Noitadas...
Festas...
Farras...

Não só aqueles sonhos
Que não podemos realizar
São a vida...

O Sol é a vida!
A ar puro das manhãs é a vida!
A Lua é a vida!
As estrelas são a vida!
As flores são a vida!
Todo o verde é a vida!
A chuva é a vida!
O mar, os lagos, os rios são a vida!
Os animais das florestas e das águas são a vida!
A música e os sons da natureza são a vida!

Tudo é vida!

O que se dirá então
Ainda temos a Arte
A cultura...

O pesar depende
De onde fixamos nossos olhos...

De um lado tudo é cinza
Do outro dourado
De um lado desterro
Do outro refúgio

Se nalgum ponto não se encontra a felicidade
Ande mais um bocado
Procure além
Abrindo bem os olhos
Aguçando os ouvidos

Tão somente partir em busca dela
Já é um grande bem
É a jornada
Enquanto o parar
É a morte, o nada

Talvez não a encontre
Como eu que tanto digo...

Mas saiba
Felicidade não é isso ou aquilo
É um estado de espírito
De quem
Dá valor no que tem

A grande lição:

O que temos vale bem mais
Do que tudo o que não temos

- Sem comparações, nem de longe! -

Por que então tanto se lastimar
Pelo que não se tem?

Reflita...

Talvez ainda assim
Embora não seja triste
A felicidade não encontre
Nem realize aqueles sonhos tão acalentados
Como eu
Que tanto digo

Mas tenho convicção
Encontrarás a paz
O equilíbrio
A compreensão da vida
E algo que para ti
Seja bom

Sempre dizem:
Isso é sabedoria!
É pé no chão!

O resto é quimera
Que vendem
Os mercadores de ilusão

Queira
Pense positivo
Peça
E consiga
Isso...
Vende na banca da esquina!

Não tem segredo
O Segredo
É enganação!

Não existem tábuas de Moisés
Com os dez mandamentos da felicidade
Nem tampouco eu sou o profeta
Pregando a salvação

Mas a vida, compreenda
É TUDO
Não meia-dúzia de coisas definidas
Se não tem isso
Há aquilo
Se não se encontra aqui
O que se busca
Há de se encontrar lá
Ou em algum lugar

Se algo é ruim
Outra coisa é boa
Se algo nos entristece
Outra coisa nos alegra

Procure e faça o que goste
Dentro do que se pode...

Pense um bocado!

Cada pessoa é única
Não existem fórmulas
Nem receitas

Uma caminhada ao amanhecer ou cair da tarde
Pela cidade
Ou num belo parque
Ou areia da praia...

Um passeio de fim de semana
Eco-turístico
Numa cidadezinha próxima
Daquela bucólica
Na zona rural...

O verde faz tão bem!

Filmes, TV, música, livros
Um jogo de xadrez...

Um punhado de bons amigos
Gente interessante...

Artesanato, pintura, escultura, escrever
Algum esporte
Ginástica ou hobby

Espiritualidade!
Em casa consigo
Ou nos recônditos
D`alguma igrejinha por perto...

Tanta coisa boa nesses meios...
Fraternidade, lições, cantos...

Ter sempre em casa
Na medida do possível
O que se goste:

Flores em jarros...
Alguma fruta que muito apreciamos...
As músicas que gostamos
Bem à mão

Nosso lar e, principalmente, refúgio no quarto
Sagrado
Bem do nosso jeito
Como podemos

Mesmo decorar a casa
Pô-la com a nossa cara
É algo que pode nos dar
Muito prazer

É nosso castelo
Que construímos...

Comprando num mês um quadro
Noutro uma estatueta pra estante
Além mudando o lustre da sala
Depois comprando um tapete com belos desenhos bordados...
Um móvel novo...
Um artigo qualquer de decoração...
Repintando a casa...

Uma saída à rua na noite...
Pra ver nova gente
Buscar diversão
Uma paquera
Um namoro

Se algumas dessas coisas
Não se encaixam
Não dão certo
Há muitas outras mais
No âmbito da simplicidade
Das coisas bem simples

Pense!

Encontre o que goste, o que lhe entretém agradavelmente
O que lhe faz bem e lhe é possível

Se empenhe nisso
Porque é importante!

Quanto mais coisas que gostamos fazemos
Mais gosto pela vida temos
Mais ela nos prende

Assim surgiram
Os grandes artistas
Os grandes desportistas
Os grande alguma coisa...

Tamanho gosto tomaram por algo
E nele se encontraram
Que se tornaram
Gênios no ofício

Menos, menos...
O apenas lhe entreter em seu tempo
Agradavelmente
Enchendo a vida
É um bem pra saúde
Mas se dedique!
Leve a sério o que gosta!

Não vendo fórmulas
Mágicas
Do pense positivo e conquiste
Nem sou feliz, feliz...
Já o disse!

Também não sou triste!

Sou alguém
Que viu uma multidão de sonhos
Tomarem o bonde sem mim
Partirem

Pra quem a vida não foi
Um pálido facho
Do que desejava

O que poderia ter sido é um martírio
Já o disse, me confessei

Sou alguém comum
Como tanta gente
Nesse mundo estranho

Se não sou feliz
A tristeza em mim não dura
Não cria raízes
Nem me rouba o riso
Por alguma coisa à toa
Mesmo que me venha no rosto
Amarelo, sem graça
Vem
É o meu jeito
Rir ainda com meu riso
Faz bem
Rir sempre faz bem

Do bom humor eu digo:
Não abro mão
Sou divertido
Piadista de improviso
Espirituoso
Palhaço de picadeiro
Invisível

O mais intrigante:

Zombeteiro
Do mundo inteiro
E de mim mesmo...

O que somos senão
Abelhas zunindo?

Bufões embriagados
Pela ilusão do carnaval momentâneo?

Afinal...
Do que tanto falei...
Felicidade existe
Ou é mero entorpecimento?

Há que se discernir bem as coisas...

Paz no sentido amplo
Não é momento
Não é maré cheia ou baixa
Não é bonança nem vaca magra
A paz independe de tudo
Do que nos dá o mundo

A felicidade
Sempre depende de alguma coisa
Ou coisas
Daí o perigo
A incerteza
A inconstância

É feito uma colheita
Se não vem a chuva
O plantio estraga

A felicidade é um ópio
Atraente, desejado
Todos querem, eu também
Mas a paz
Vale mais
Não é questão
De se escolher uma coisa ou outra
Que se tenha as duas
Mas o que levo em conta
É a solidez do bem

Há um milhão de coisas na vida
Que não deram certo pra mim
Coisas que não vivi, nem viverei
Sonhos que não realizei e sei
Não realizarei

Mas o pouco que tenho vale bem mais
Do que todas essas coisas juntas...
E não me custaram nada
São de graça
Ou me vieram do esforço aonde vinguei

No fim, me amoldei, me adaptei
A história da vida na Terra
Sempre foi assim

Há vida na floresta
Há vida na água
Há vida no deserto
Há vida no alto
Há vida no baixo
Há vida dentro
Há vida fora
Há vida no frio
Há vida no quente
Cada qual adaptada
Ao seu ambiente

Resistir, sobreviver
É a lei da vida
A nós que temos mente
Nos adaptando
A façamos atraente
No melhor que podemos

Assim não seremos tão somente
Uma bactéria resistente
Um cacto vicejando na rocha estéril
Não pensante
Nem tampouco
Seres lamuriantes

Queixumes não mudam as coisas em nada
Para melhor
Sequer as deixam como estão
Somente pioram
São boomerangs
Que se voltam contra nós

Sempre há algo bom
Ao alcance das mãos
Se estas não estiverem tão empenhadas
Em se auto-flagelarem
Por não haverem alcançado
O que não deu

Enquanto o menino chorava o leite derramado
Todas vacas leiteiras que haviam no pasto
Morreram
Ele chorou e chorou
Enquanto o suco de laranja que havia
Estragava
Quando se pôs a chorar a perda do suco
E se demorou
Todas laranjas da dispensa
Apodreceram
Ele chorou de novo
Enquanto as laranjeiras dos campos definharam ressequidas

Chorando enquanto
A última gota de água do regato secava
Morreu de sede o coitado
Bebendo as derradeiras lágrimas

Não cuidou do que ainda tinha
Embaçados os olhos pelo pranto inútil
Não viu o que poderia...

Como tudo muda
Após refletirmos profundamente
Em frente e verso
Prosa e poesia
Quando eu me for
Desta vida
Direi comigo:

Não foi feia nem bonita
Não foi doce nem amarga
Não foi leve nem pesada
Não foi cinza nem colorida

Afinal...

Eu era feliz e não sabia!



Rob Azevedo







quarta-feira, 23 de abril de 2008

Miserabilis




Miserabilis




Fiquei sentado
Na beira do caminho
Esperando o bonde...

Ele não veio
Fodeu!

Mil planos desfiz
De sonhos dourados
Juvenis

Adiei tudo
Para o futuro
Bem distante...
Quem sabe Deus
Um dia virá...

Olhei pro céu...
Nuvens encobriram o Sol
Trovejou
E choveu...

Eu na estrada
Começando o caminho
Sozinho
No meio do lamaçal

Parei
Sob a chuva caindo
Num descampado no fim do mundo
E vi
Meus sonhos passarem
Sem mim
Troçando
Rindo

Passaram-se anos também
E cadê o bonde
Que tanto esperei
Em vão
Será que não veio
Ou cheguei atrasado
E se foi?

Fiquei pra trás...

A lama era tanta
A cada passo mais me afundava
De corpo inteiro no nada

Quando o bonde se vai sem a gente
Tudo morreu
Sem enterro nem vela

Um morto-vivo
Esperando
Passar o tempo
Dar a hora
De ir embora
Pro além mundo
Sem glória
Nem história
Feliz
Na pele sentida

Frus
tra
ção

Maldito mundo cão!

Por que não se abriu o chão
Tragando esse amontoado
De carnes
E ossos
Sem alma
Nem coração?

Ah! Meu Réquiem
Queria eu antes
Que naqueles tempos
Houvesse sido ouvido

Melhor, melhor...

Do que viver
Fazendo hora
Até que badalem os sinos
E eu vá embora

Quisera eu
Nunca ter nascido...

Melhor, melhor...

Do que entender este mundo
Como um lugar
De expiação...

Frus
tra
ção

Meus sonhos se vão
Sem mim
Troçando
Rindo



Rob Azevedo





quinta-feira, 17 de abril de 2008

Dá-me Alívio




Dá-me Alívio
(É uma letra de música no estilo Bossa-Nova - Tom Jobim e cia - para ser acompanhado o canto por um piano.)



Ela é tão linda
Tão linda
Não há poesia que diga
O quanto
O poeta de Amor suspira
Ó vida!
Encanto!

Ela é tão linda
Menina
Tão linda
Em noite de luar na orla marinha
Do Rio
Seu riso
É minha falta de siso
Eu perdido, menino

Ó Meu Cristo
De braços abertos
Desce do alto
Do Corcovado
Vem e me socorre
Corro perigo
Meu coração tão aflito
Morre em suspiro

Vem Meu Cristo
Me socorre
Corro perigo
Meu coração aflito
Morre em suspiro

Ela é tão linda
Quanto o Sol
Amanhecendo
Sobre o mar
No meu Rio

Montanhas, o verde
Palmeiras
Eu canto
Delírio

Ela é linda demais
Tão linda
Não há poesia que diga
O quanto
O poeta de Amor suspira
Ó vida!
Encanto!

Dá-me alívio
Olívia
Dá-me alívio
Olívia
Dá-me alívio
Olívia

Dá-me alívio
Olívia
Olívia
Olívia



Rob Azevedo






domingo, 13 de abril de 2008

Um Canto Para O Tibet




Um Canto Para O Tibet



Om Mani Padme Hum
Ahum
Som
De armas de fogo
Disparando no topo
Das cordilheiras íngremes
Do Himalaia

As neves caem
Brancas
Pombas voam
Brancas
Nuvens cobrem o céu
Brancas
Lírios se abrem
Em pétalas brancas
E ninguém vê
O alvo sinal da Paz

O vermelho sangue
Vem do leste
Inundando o Tibet
Na força
De um bilhão de habitantes

Ordens são dadas
Soldados marcham
Disparam armas

Na bandeira o emblema
Que move a marcha
Rumo à cordilheira:

A cor do sangue

Vindos das entranhas
Da intolerância
De séculos e milênios
Que não se apagam
Soldados marcham

Ó infame tirania
Imperadores
Samurais das trevas
Tanques de guerra
Fuzis e baionetas!

Nossa cidade
Não é proibida
É Flor de Lótus concebida
No Jardim da Paz

Nem muralhas de pedra a cercam
Porque não somos guerreiros
Que dilaceram peitos
E seguem marchando
Sobre cadáveres de irmãos

Renegamos trincheiras, barreiras
Contra inimigos
Semeando a Paz
Estendendo a mão

Toda alma
Seja bem vinda
Quando em si não abriga
Dragões
Da maldade e discórdia

Vinde serena
Límpida
Como água cristalina
E sente-se à mesa
Repartiremos contigo nosso pão

Ofertaremos de bom coração
O humilde teto
De todo e qualquer monastério

Cale-se fuzil!
Torna-te branca da Paz
Vil bandeira sangrenta!

Tornem-se fardas
Mantos
Soldados
Monges

Brados de guerra
Nosso mantra:

Om Mani Padme Hum
Ahum
Mestre Iluminado
Ensinando a compaixão
Por todos seres vivos

Om Mani Padme Hum
Ahum
Lugar sagrado
Sangrando
No teto do mundo
Chamado Tibet



Rob Azevedo







Foi o Vento




Foi o Vento




Quem foi que levou Meu Amor?

Foi o Vento!
Foi o Vento!

Quem foi que me trouxe a Dor?

Foi o Vento!
Foi o Vento!

Ó deus Éolo uivante
Os ramos das árvores se pedem
Esvoaçando verdes folhas
Ondas do mar se levantam
Estouram na praia e rochedos

Fogem velozes as nuvens do céu
Ao léu distante depois do horizonte
Bem além do farol

No cais do porto alvoroço e medo
Uma menina chora
A mãe ora nas contas do terço

- Ó Pescador de Almas!
Velai por nossos marinheiros
Singrando mares em veleiros
Buscam o alimento dos filhos


Arredio o Vento não ouve
Enfurecendo as águas
Açoitando matas
Destelhando casas
Cruza vales e montes

Poeira das estradas
Barulhentas latas
Velhas páginas
De jornais
Seguem caminho
Aonde o Vento vai

E ninguém
Ninguém sabe aonde
Vai o Vento
Com tanta pressa...

No alto da igreja
Uma portinhola aberta
Bate e o Vento leva
Hinários do Nosso Senhor

Noutras janelas
De casas de paredes caiadas
Cortinas caramelo
Esvoaçam onduladas

Derrubam vasos de plantas
Voam papéis

Quando vem o Vento
Em vendaval
Tudo sem dó devassa
Sem destino, afoito, ligeiro
Uivando
No matagal
Sob a força curvando
Com medo e respeito

Roupas quarando no varal
Bandeiras na praça central
Moinhos às margens da ribeira
Bambuzal
Arrozal
Canavial

Sob o Vento
Todos tremem tementes
Se atiçam
Curvam, giram, voam

O Vento uivando
Num rompante de ira
Uma canção me inspira:

Quem foi que levou Meu Amor?

Foi o Vento!
Foi o Vento!

Quem foi que me trouxe a Dor?

Foi o Vento!
Foi o Vento!

Ó deus que esvoaça
Minha cabeleira enquanto canto
Se tudo que há levas
E levaste, também, de mim Meu Amor
Trazendo-me a Dor
Arremessa em tua força meu corpo
Ao mar bravio
Cinza, sem cor
De encontro ao rochedo

Se viver desalmado
Me é por demais pesaroso
Que se partam meus ossos
E sejam tragados
Por redemoinho assombroso

Quero antes
O destino nefasto
Ao ver em vida meu canto
Espalhando lamento
Calando mesmo
O uivo do Vento




Rob Azevedo





quinta-feira, 10 de abril de 2008

Meu Ar




Meu Ar




Eu preciso, por favor
De um balão
De oxigênio
Porque essa mulher quando passa
Me deixa sem ar
Ai, não respiro!
Viro pedra
Estátua de mármore
Estática
Pálida

O mundo pára...

Por fora, é assim
Dentro de mim
Meu coração
Bate
Bate
Bate
Feito um tambor

Bate coração
Bate coração
Bate...

Por causa do Amor...

De tanto bater
Estremece
A estátua de mármore
E bambeiam as pernas...

Mãos tremulam
Feito bandeirolas ao vento...

Ao ouvido o canto
D`algum anjo
Enviado por Eros...

O peito arde...

A visão se embaça...

A vida se enche de graça...

Mas por que
Meu Deus
Roubaram-me o ar?

Se tão docemente
Em prece confesso
Tudo o que quero
É te amar...

Afinal...
O que me importa o ar?
Esse elemento sem o qual
Ninguém vive...

Levem-no de mim
Tu jamais...

És minha vida
O ar que respiro
Sem ti não vivo
Meu Jasmim
Caminho dourado
Rumo ao infinito



Rob Azevedo





segunda-feira, 7 de abril de 2008

Olhos do Amor




Olhos do Amor




Toda vez que te vejo
É com outros olhos
Aqueles que não miram ninguém
Além de você
São os olhos do Amor

Toda vez que te vejo
Percorre em meu corpo
Do início ao fim
Um arrepio

Respiro, suspiro, transpiro
Poesia

Meu dia
Se inunda de alegria
Vem em meu rosto
O sorriso

Meu coração
Canta feliz
Cheio, transbordante
A canção que fiz
Pra outro coração
O teu

É tão simples
Só diz
Três palavras:

Eu Te Amo!

Tenho olhos
Que só olham
Através do Amor
Estes
São teus
Não enxergam mais ninguém

O que acontece
Quando te vejo
Se você soubesse...

A graça
Que vem de ti
E me endoidece

O encantamento
Que me inunda
Em cada pêlo

Amanhece
E acordo
Pensando em nós

Entardece
Sem eu e você
A sós
Tudo entristece

Anoitece
Faço uma prece
Por teu nome
E passo a noite insone

Há um lugar vazio
Ao meu lado
Que só pode ser ocupado
Por Olívia Sampaio

Conversar com as paredes do quarto
É tão chato!
Coisa de poeta apaixonado...

Hipnotizado
Da ponta do cabelo
À raiz da alma
Miro teu retrato
Enfeitiçado

Pego uma folha branca
E escrevo um pouco
Do que sinto
E me deixa louco

Só te quero bem
E a mais ninguém
Nem coisa alguma
Você me basta
Não desejo
Mais nada

Porque só você
Enxergo
Com os olhos do Amor
De resto
O mundo é folha branca
Sem nenhum verso

Com o travesseiro converso!

Nas palavras tropeço...

Da noite me despeço...

Vem amanhecendo o dia
Na rotina
Da minha sina:

Amar
Suspirar
Sonhar
Do nascer ao pôr do Sol
Atravessando madrugadas
Compondo poesia
Inspirado em Olívia



Rob Azevedo








Jasminum Polyanthum




Jasminum Polyanthum




Teu sorriso
É a coisa mais linda do mundo
Muito além do que pode ser dito
Em mil poesias
Sou eu sem tino
É o meu suspiro
O coração batendo fora de ritmo
E esse brilho que trago no olhar
É algo que me rouba o ar
E me dá felicidade

É a pureza
A inocência
A boa criação dos pais
Numa vida cheia de valores
Elevados
E sonhos altruístas

Teu sorriso é alento aos meus dias
É você menina
Linda
Como Deus te fez

E sou eu assim
Esquecido de mim
Bebendo dos teus lábios que sorriem
O gosto por viver

Ah! Quem me dera!
Embriagar-me da tua boca
Sem ar, sem ar, sem ar
De Amor perdido
Beijando o infinito

Ah! Quem me dera
Meu Jasmim!
Tomar num gole
O cálice do teu sorriso

É tão bem que te quero
De um Amor tão puro
Gratuito
Nessas horas vazias
Contemplativo

Um quadro com teu retrato na parede
É o meu portal dos mundos
Desse em que sou um errante sonhador
Para aquele
Onde sei que você existe
E me faz trovador
Por força do Amor

Só queria
Que soubesse
Ao menos um verso
De toda poesia que tenho escrita
No profundo de mim
Pra você Meu Jasmim

Esse verso
Dito por minha alma em teu ouvido sussurrando
É Eu Te Amo!

Eu Te Amo!

Eu Te Amo!




Rob Azevedo





Jasmim




Jasmim




És a flor
Mais bela do jardim
Aquela por quem
Não paro
De compor poesias
Se me calo
Quando contigo me deparo
Bem mais alto falo
Com a voz do coração
Esse que é teu
Se o quiseres...

Amor, te amo
Não importa o tempo
Poesias vou escrevendo
O que sinto confessando
Que não se leva pelo vento
Nem escorre pelos dedos
Feito água
É paixão gravada
Na alma
Espontâneo sentimento
Gratuito
Sem contrapartida

Em contemplação
Naturalmente te amo
Te quero, se me quiseres
Caso não
Te amo ainda assim
Meu Jasmim
Só não te preocupes com nada
Meu Amor é de graça
É semente que brota
Aqui dentro
No encantamento
Que vem
Em sonho cor de rosa

Ao Sol da tua companhia
Floresce noite e dia
Enraizado à beira do regato
Alegria
Por amar alguém tão bela
Tanto quanto
Um Jasmim



Rob Azevedo