quinta-feira, 5 de julho de 2007
As Brumas de Avalon
As Brumas de Avalon
-> Trilha sonora
Sei que sentes poesia
Transpirando de meus poros
E isso te fascina
Sei que sentes minh`alma
Inundando teu ser de encanto
E isso te ilumina
Sei que às vezes duvida
Do que dizem meus versos
E isso te agonia
Sei que têm horas na vida
Que a saudade o peito dilacera
E isso te martiriza
Nem todo dia
Se pode ser forte
E a Rainha acima do mundano
Em dores derrama o pranto
Sabes que sou Arte
Magia e Mistério
O Sol e a Lua
Águas caindo do céu
O rio seguindo seu curso
E o amor nos olhos de Romeu
Sou o vento que acaricia
Flores nos campos
E nuvens dispersa
Sou a escultura de Apolo
No templo de Vênus
E a paixão dos gregos
Por toda e qualquer sabedoria
Sou Narciso no Bosque
Das Ilusões Perdidas
Numa imagem no lago
Invertida
Eternamente esperando
A Ninfa Eco
Confessar Eu Te Amo!
Vindo dos povos pagãos
Celtas e Druidas
Sou cavaleiro da Távola Redonda
Meu nome é Lancelot
O servo fiel da Rainha
Do Reino Pós Moderno da França
Seu nome é Guinevere
Na ceia em que nos fartamos
Os manjares têm o gosto
Da maçã do pecado
E tudo que é proibido
Mas somos pagãos
Nossa deusa é Lilith
E o Amor
Desde os tempos do Caos
Ab Aeterno
Em camas onde florescem rosas
Ela sempre permite
Porque lá fora
A fogueira crepita
É alta a chama
Mas tão logo haverá de se apagar
E num pergaminho sagrado
No reino da Filosofia
Lemos ensinamentos epicuristas:
"Coroemo-nos de rosas
Enquanto não murcham"
Rob Azevedo
Lancelot & Guinevere
♥ ♥ ♥ Lancelot & Guinevere ♥ ♥ ♥
-> Trilha sonora
Da cauda do cometa
Nasceu o poeta
Lancelot
Galopando numa estrela cadente
Veio à Távola
Redonda do Planeta Terra
Na Poesia
Que Amor encerra
Consagrado cavaleiro
Conheceu a Musa
Guinevere
Sob os olhos da deusa
Lua Negra
Em viagem ao horizonte
Do infinito distante
Miramos as Brumas
De Avalon
Ó Divindade Impetuosa
Velai nosso Amor
Sou guerreiro ousado
Mestre das armas
Dos cavaleiros da Távola
Do Rei Arthur
Legiões bárbaras
Invadem o reino
Dizimando infantes
Em campos de batalha
A vida sangra
Na lâmina
De espada
Cai a sombra
Da guerra
Caem corpos
Ao relento
No corte da foice
Que desterra
Nas ante-salas
Do poder
Cobiçam a coroa
Cravando adaga
Nas costas
Nossa Lua é negra
Redonda como a Távola
E de mesma cor
Da treva se assemelha
No fel que guarda
Covardes envenena
Desertores da batalha
Por quem ama
Tempestuosa e insurgente
É deusa fêmea
Ardente
Contra Deus se rebela
Se poda o livre arbítrio
De seu instinto que clama
Igualdade
Da Távola
A cor ébano
Vem da infâmia
Que atraiçoa
Cobiçando
O poder do trono
Mestre das armas
Sou cavaleiro fiel
Do reino
Mas contra o Amor
Não existem escudos
Nem armaduras
Que protejam
Nem a lâmina da espada
Mata um Amor
Quando verdadeiro
Sou fiel cavaleiro
Em campo de batalha
De peito aberto
Guerreio
Impávido
A vida consagro
À causa
De meu reino
Mas armaduras
Nem escudos
Ou trincheiras
Protegem
Meu coração
Quando num olhar
Cruzo os olhos
De Guinevere
A paixão me açoita
O fogo arde
Nos recônditos do castelo
Num encontro
Acaricio
Negros cabelos
Ó Rainha
Do Meu Reino
Fez-te Rainha
Do Meu Desejo!
Dá-me tua boca
Silenciando meu clamor
Num beijo
De profundo ardor
Pega minha mão
Conduz-me do pátio
Deste palácio
À tua alcova
Descortinando o véu
Que recobre teu leito
Deitar-me-ei contigo
Serei cavaleiro
E amante perfeito
No Amor que faremos
Ó Minha Rainha
Guinevere
Rob Azevedo
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Sir Lancelot do Lago
Sir Lancelot do Lago
Pela glória do meu reino
Lanço-me aos campos de batalha
Que venham os arqueiros
Lanças e catapultas
Erguendo-se das trevas
Legiões de Íncubos
Desembainho a espada
Entoando meu brado guerreiro
Rugem em fúria mil leões
Por toda Bretanha
Debandam exércitos saxões
À frente de nossos infantes
Ergo a flâmula
Do Reino de Camelot
Guiando os bretões
Salve, Salve
Sir Lancelot do Lago!
Seguimos teu cavalgar destemidos
Pois jamais foi vencido!
Da Sagrada Terra
De Avalon
Que te fez audaz cavaleiro
Merlin vos guarda
O Grão-Druida
Mago Branco
A descendência dos celtas
Há de ungi-lo
Guardando tua vida
No poder da magia
Do paganismo Wicca
Vida longa à Lancelot!
Glória ao povo bretão!
Honra e vitória
Aos cavaleiros da Távola
Do Reino de Camelot!
Infantes enfileirados
A perderem-se de vista
Saúdam o temido guerreiro
Ao som das trombetas
E rugir dos tambores
Salve, Salve!
Impávido cavaleiro
Guardai o trono
E fiéis súditos
Do Rei de Camelot
Sob armadura de prata reluzente
Pulsa um coração
Consagrado ao reino
Traindo-se no Amor
Pela Rainha Guinevere
Rob Azevedo
AVALON
AVALON
-> Trilha sonora
Sacerdotisas da alta magia
Se reúnem em noite de lua
Nos bosques, envoltas em brumas
De Avalon
Elementais em torno do caldeirão
Fadas, Ninfas e Elfos
Saúdam a Senhora do Lago
Em rituais e cânticos
Cerimônias devotadas
Ao Sagrado Feminino
A Grande Mãe
Rubras tochas iluminam o breu noturno
Sacerdotes dançam
Ao redor de fogueiras
Ascendem aos céus
Fagulhas incandescentes
E preces de bem-aventurança
Do grau hierárquico mais alto
Desce o Mago Branco
Merlin
Erguendo o cajado
Dispersando na noite
Multicolorido feixe
De energia protetora
Nas sete cores
Do arco-íris
Saudado por todos
Com admirada reverência
Se une à Senhora do Lago
Em torno do caldeirão
D`onde nuvens violetas elevam-se
Formando imagens de rostos
De antepassados queridos
E sábios conselheiros
Do mundo espiritual
Guerreiros de Camelot convidados
Erguem suas espadas
E clamam às imagens
Glória em todas batalhas
No destemor de não cederem um palmo
Ao custo de cada gota do próprio sangue
Da terra amada do Reino
Ao Dragão da Escuridão
Inimigo abutre
Exército anglo-saxão
Sacerdotisas e magos
Dão as mãos
Numa poderosa corrente energética
Estremecendo a todos
Em torno do grande caldeirão
D`onde surgem espíritos
Bem-feitores
E lhes suplicam
Em suas divinas bênçãos
Que as antigas tradições celtas e druidas
Sejam preservadas
Por todo o sempre
No centro da abóbada celeste
A Lua Cheia paira
E torna-se Negra
Arrepiando cada pêlo
De toda mulher presente
Exaltando
O Sagrado Feminino
Se despem entoando cânticos pagãos
E bailam nuas
Mirando o fundo dos olhos
Dos guerreiros de Camelot
O balé da sedução se inicia
Formosa filha
Da Grande Mãe
Balouçando negras madeixas
E seios roliços
Em passes de pernas esbeltas
Sacolejando as ancas
Cruza o semblante
De Sir Lancelot
Seu nome:
Lady Guinevere
Em ambos
Tudo por dentro estremece
E aflora a libido
Na rapidez do luzir
Dos relâmpagos
A Feiticeira Mor
Num gesto sutil
Aponta uma barca
Pairada à margem dum lago
No seio da Ilha de Avalon
Sir Lancelot se desvencilha
D`outros guerreiros
De magos e bruxas
Da Magia Branca
E demais convivas
À passos largos caminha
Em direção a Guinevere
Enlaça sua mão e seguem
Rumo à barca que os leva
À uma ilhota onde se venera
O Amor Sagrado
Abençoado e eleito o perfeito par
Pela deusa fêmea
Que rege nas tradições celtas
Os segredos e deleites da Arte de Amar
Atravessando as águas prateadas pela Lua na barca
Lancelot e Guinevere
Outra vez em terra
Ele despido por ela
Com desejo ardente
Se deitam na relva
Macia e fresca
E se amam
Com infinito ardor
Clamando o nome um d`outro
Em tons imersos de paixão
Como só quem tem o coração
Posse de quem chama
Assim pode clamar
No decorrer do Amor a que se entregam
De corpo e alma
Misturando suores e desejos
Eleito pelos céus
O cavaleiro amante perfeito
Penetra o íntimo feminino
Que recebe com devoção seu homem
Num gozo profundo
Rob Azevedo
Por Amor
Por Amor
Olhe nos meus olhos
E veja que estou chorando
Por você
Porque agora preciso
De sua companhia
E meus sonhos
Vão de encontro
N`algum jardim além
Desse mundo descrente
No Amor verdadeiro
Aos seus braços
Seu calor
Porque a despeito de tudo
Sou apenas um rapaz
Indefeso
Que também chora
E ainda acredita no Amor
Preciso de você
De sua sinceridade
Seu ombro
De cada palavra
Que sare toda ferida
Sangrando em meu coração
Sou apenas um rapaz
Indefeso que também chora
Mas dessa vez
É por você...
As coisas vão acontecendo
A gente nem entende
Quando vê
Eu sei que te amo
E precisarei de você pra sempre
Ao meu lado
Apenas olhe em meus olhos
Veja o Amor no brilho
Que transcende a luz do Sol
Quando te vejo
Essas lágrimas
São por você
Porque te amo
E te peço somente
Em me doando seu Amor
Que nunca seja preciso
Pedir a mim
Com as mesmas lágrimas
Que agora rolam em minha face
Me dê uma segunda chance!
Rob Azevedo
A Espera I
Os oito poemas que seguem - desse poema - (A Espera I ao poema A Velha Cabana) - integram uma série de poemas meus intitulada Capuccino com Creme, a qual consta de catorze poemas. Esses poemas todos têm coerência entre si e compõem uma história.
A Espera I
Seis horas da tarde
Num mirante
Vista pra lagoa
Dourada pelo pôr do Sol
No Secret Garden
Um café com letras
Acendo um cigarro
Tomo um drink
De Scotch 12
On the rocks
Sozinho na mesa
Espero hesitante
Ao som ambiente
Marisa Monte
Em voz pungente
Canta EU TE AMO, TE AMO, TE AMO...
Ah! Os ponteiros do relógio
Torturam-me...
Por que esse calor no estômago
E a expectativa que me devora?
É só um café
Capuccinno com creme
Num mirante
Às margens da lagoa
Em fim de tarde
No mais
Lá no íntimo
O desejo secreto
De um beijo na boca
Daqueles
De tirar o fôlego...
Tão longa a espera
Do tamanho do meu querer
Estar ao lado dela
A cada dia imaginada
Quando me deito
Acariciando meu rosto
Confessando segredos
Fitando meus olhos
Roçando minha pele
Sentindo meu perfume
Ah, quantas noites insones
Em devaneios
Passei
Perambulando pela casa
Catando bingas de cigarro
Perdido de amores
Beijando a ombreira da porta
Do meu quarto
Cismando fosse
Seus doces lábios!
Ah, meu Deus!
E se ela me surpreende
De súbito, aqui no Secret Garden
Sonhando acordado
Esperando-a
Lê meus pensamentos
Cada linha que escrevi
Em meu diário
Imaginando, o dia inteiro
Repousando em seu colo
Sentindo seus cabelos
Deslizarem suaves em meu corpo
Nossas bocas se encaixando?
E se ela descobre
O coração desenhado
Na contra-capa
Do meu diário
A flecha atravessando
Dentro:
Yasmim EU TE AMO!
Ah, meu Deus!
Rob Azevedo
A Espera II
A Espera II
-> Trilha sonora
No Secret Garden sozinho
Vejo pedras transparentes
De gelo dissolvendo
A balouçar em meu drink
A tarde cai
Devagar anoitece
Um garçom
Limpa as mesas ao lado
Os acordes de Caruso
Banham meus ouvidos
Inundam minh`alma
Entre meus dedos
Uma luz crepita
Nuvens de nicotina
Elevam-se
Desvanecem no ar
Formando corações
Nela penso
Tão somente ela
Espero...
Que dor lacerante na música...
Dói inteiro meu ser
Mirando aqueles verdes olhos
Contemplados em miragem
Compreendo os tenores
Ao som do piano
Entendo seus versos:
"Escutava a dor da música
Se levantar do piano
Mas quando viu a lua
Sair de uma nuvem
Pareceu-lhe mais doce até a morte"
Ah... Entendo agora o profundo sentido
Das palavras que ouço
Não tê-la, havê-la perdido
Torna passeio a viagem
Nos braços do barqueiro sombrio
Todo amargo, o fel mais azedo
É favo de mel se ela não tenho
O caminho florido
Torna-se Via Crucis
Conduzindo a lugar nenhum
Diante do medo
Que haveria de senti-lo
Quedar-me-ia em silêncio
Resignado beijaria contente
A noite sem fim
Ó lua, trazei a mim redenção
Livrai-me das dores
Dos acordes dum piano!
Sou jovem demais pra sofrer
Agonizar e morrer
De amores...
Rob Azevedo
Um Bardo Ébrio e a Dona Esperança
Um Bardo Ébrio e a Dona Esperança
-> Trilha sonora
No Secret Garden
A noite arde
Aguardo a companhia
Prometida
No tampo da mesa
De bar
Gravo corações
No aço dum canivete
Florescem orquídeas
Na madeira ocre
A velha senhora
Dona Esperança
Senta-se ao meu lado
Iniciamos um diálogo:
- O Bardo Solitário –
- Ah, senhora
Tua companhia me cansa!
Viver de esperança
Que nunca se consuma
É tão dura pena
Quem nem mesmo Camões
Das terras de além mar
Infante lusitano nas colônias africanas
Soube cantar
De forma tão extensa
E dolorosa
Da adaga que lhe perfurou um olho
Seu frio corte
- Das traíções do Amor -
Cravou mais fundo em meu peito
Anseio a morte
Vir desposar-me
Em seu vestido negro
Aquela que o descanso concede
À alma dos jurados
De eternos padecimentos
Dos amores esperados
Em bem-aventurança
Ah, Dona Esperança!
Se ninfa tão formosa
Ainda na luz da aurora
Clareando o céu
Não há de minh`alma
Salvar dessa noite sem fim
Em cálice de Absinto
Brindarei
Num sorriso sereno
O ponto final de minha viagem
Neste vale de sombras que desterra
Dando boas vindas
Àquela que ceifa
A vida dos peregrinos
No Deserto do Amor
Tens compaixão de mim
Companheira de solidão
Meus lábios aguardam-na
A doce ninfa
Que vive na Torre de Concreto
- A Dona Esperança –
- Ah, Bardo sofredor
Estás embriagado!
Desaprendeste a lição
Daqueles que esperam
- Quando devem esperar -
Sempre alcançam
Lembrai dos verdes olhos
Que um dia cruzaram teu olhar
A vida vos trazendo
Nos ermos campos
Onde só havia solitude
Floresceram lavandas violetas
Colheste todas e muitas outras
Nos vasos de louça
Arranjos de flores multicoloridas
Ornam teus aposentos
O colar de pérolas
Que a ninfa joalheira
Compõe nos dedos delicados
Há de vê-lo
Adornando espáduas nuas
Reluzindo o vestido vermelho
Nem tudo está perdido
Abre vossa Caixa de Pandora
Bem lá no fundo
Encontrarás Esperança
Antes do luzir da aurora
Sorridente e graciosa
A vir beijar-lhe os lábios
Colorindo-os de carmim
- O Bardo Solitário –
- Senhora... Já passou da tua hora
Convido o Senhor Desencanto
A passearmos no Bosque
Das Ilusões Perdidas!
Irei ébrio
Quem sabe tenha sorte
Ao cruzar o rio
Despenque da ponte
Afogue-me nas águas turvas
Corredias
Desposando a Dona Morte
Livre serei
Dos desenganos dessa vida!
Rob Azevedo
O Bardo Sofredor e o Senhor Desencanto...
O Bardo Sofredor e o Senhor Desencanto
No Bosque das Ilusões Perdidas
-> Trilha sonora
O Relógio bate duas horas
Da madrugada
No Secret Garden
Da Esperança me despeço
Pago a conta
Troco os passos
Em companhia do Senhor Desencanto
Margeando a lagoa caminhamos
Nas amendoeiras, corujas cantam
Plácida a lua navega
No firmamento
Clareia nossa senda
Em tons prateados
Rumo ao Bosque das Ilusões Perdidas
Das luzes da cidade
Afastamo-nos
Envoltos num ar de mistério
Trilhamos estrada de terra
Sinuosa, sombreada ao luar
Pelas copas das árvores frondosas
Um riacho pedregoso murmura sereno seu canto
A voz da noite diz tanto...
Folhas dos matos farfalhando ao vento
Pássaros noturnos
Pirilampos luzindo
Estrelas cadentes riscam o céu
Ruídos de passos
No chão de terra batida
Sons de respiração
Aguçando os ouvidos
Mesmo o som do coração
Em seu trabalho incansável enquanto há vida
Escuto no silêncio madrigal
Cruzamos longa alameda de Ipês-Roxos
Abundantemente floridos
Iluminados à lua cheia
Chegamos ao Bosque
Onde vive o Senhor Desencanto
- O Senhor Desencanto –
- Vedes Bardo sofredor
Aqui é meu refúgio
Nele vivo, ainda se mourro
Uma vida a cada dia
Nem mesmo a Senhora Solidão
Habita nesse ermo bosque
Animais silvestres, o verde
O regato, a lua, as estrelas
Companheiros únicos
Respeitosamente mudos
Testemunham
A dor do meu infortúnio
No silêncio em que se quedam
Aprendo as lições
Da vida sem queixar-se
Palavras de dores a outrem ditas
Lastimando
Aprofundam o abismo
Laceram alma e carne
Não cicatrizam a ferida
Nesse ermo bosque
Sepulto a vida morta
Em pranto seco de amores
Pela Senhora Encanto
Jazem lágrimas e lástimas
Ó, caro Bardo sofredor
Na mesma cova funda
Do meu peito
A ninguém me queixo
Andarilho nos vales malditos
Povoados de corvos, abutres, víboras
Morcegos e ratos
Tornei-me mestre
Nas mãos do Cuteleiro Impiedoso
Em suportar a ira do fogo
O Ferreiro amolda minh`alma
Na fúria de seu martelo sob a bigorna
E calor das chamas
Reveste meu corpo de armadura
Polindo-a nas tribulações
Não tornei-me um Titã
Ó, companheiro de infortúnio
As dores padeço
Sentindo cada uma delas lancinante
No entanto suporto sem alarde
Quedando-me emudecido em ermo bosque
Sobrevivo à severa morte
Dos sonhos que um dia acalentei
Seguindo sem queixar-me
Meu caminho tristonho
- O Bardo Sofredor –
- Ó, Senhor Desencanto!
Compreendo vosso padecimento
Emudecido na dor abrandada
Mas cada dor tem sua diferença
Seus tons pincelados
Em cores próprias
Aqueles que encobrem o quadro de minh`alma
São cinza bem escurecidos e negros
Da videira malquista
O vinho que bebo é amargo
Fel azedo em cântaro de ocre
Vinagre e sabor de ferrugem
Clamando o beijo da morte
No breu silenciando os murmúrios
Visceralmente enraízados
Num morto-vivo desafortunado
Tão grande Amor um dia senti
Naquela voz de veludo
Na noite contando causos
Generosa em risos
Doce e profunda
Menina e mulher
Imperativa na realeza majestosa
Atenciosa em cumprir caprichos
Não e sim
Claridade desnuda e mistério
Luz e bruma
Fortuita e gratuito presente
Paixão e fuga
Enlevo dos sentidos e prendas
Na perfeição santificada
Ainda que tão puramente
Mulher que sente
Amor e desejo
Empreendi tão longa jornada
Em tortuosas trilhas
Cruzando desertos e vales sombrios
Atravessei os mares
Subi os píncaros dos montes
Contemplando a imagem mais bela
Na humana forma
De ninfa graciosa
Olhos cor de mares
Madeixas cor de noite
Sob espáduas nuas alvas
Deslumbramento dum Bardo inebriado
Diante a Musa Majestosa
Em miragem
O espelho da Perfeição
Promessas de amores
E Noites com Sol
Refulgindo Paixão
No alto do píncaro mais alto
De todas as montanhas do mundo
Minha vida reencontrada
Em infindas existências de busca
Num feitiço de Áquila
Abre asas e bate vôo
Em direção contrária
Atada a antigos laços
Nós intrincados feitos
Pelas mãos malevolentes de Merlin
Em pergaminhos amarelados
Desmanchando em pedaços
Laços e nós emaranhados
Que nem mesmo o Amor Soberbo
Foi capaz de rompê-los
Ainda não sabendo a ninfa
Se algum dia
Nessa ou noutra vida
Haverá outro Amor
Maior
Mais forte
Belo
E Verdadeiro
O Bardo Sofredor abandona o Senhor Desencanto no Bosque das Ilusões Perdidas e segue seu caminho solitário, rumo à cidade deserta num madrigal derradeiro.
Rob Azevedo
Je T´ Aime! - Une Leçon d´ Amour
..♡ ♡ ♡ Je T´ Aime! ♡ ♡ ♡
♡ Une Leçon d´ Amour ♡
”O Amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece”.
(Versículos do apóstolo João)
-> Trilha sonora
Sombria a senda que sigo
De volta à cidade vazia
Encontrar quem move minh`andança
É pálida esperança
Falácia, dor, agonia
Meu passo é cansado
No coração o desejo
Haver morrido em tempos idos
Quando o sonho era vivo
E poesia, aquela que hoje me amargura
Atravessa em mim a lança do sofrer
Ao meu lado aprendia
Num sussurro declarando:
- Bardo alentejano
Sois o Amor em Versos
E os mil sóis
Que iluminam minha noite!
Acanhada, às minhas lições se dedicava
Atenta e zelosa
Mas eu que ensinava
Era aquele que aprendia
Uma Lição de Amor
Que germinou em meu peito
Vingou e floresceu
Num Narciso solitário
Mirando a própria dor refletida
Derramada em lágrimas
Nas águas dum lago
Clamei teus beijos
Compor sonetos
À ninfa Eco ensinei
Retribuindo ao Bardo peregrino
Lições de idioma d`outro reino:
- Je T´ Aime!
Ah, que dor cruciante!
Os versos que te fiz
Não eram fantasia
Tão somente confissões
E tuas aulas de língua forasteira
Essas sim, eram mentira!
Por que doce ninfa
Teus primeiros traços em poesia
Que de delicados dedos nasciam
Prometiam ao rosário de minha boca
Beijar os lábios dum poeta
Cujas palavras brotam n`alma
Para que nasçam lindos versos?
Ora pois, cumpra a promessa!
Sorverei de teus lábios
O cálice sagrado
De licor Absinto
Com tamanho encanto
De tal forma rendido
Que compreenderás o quanto
É grande o teu engano
Julgando devaneio
Cada verso que te faço
Ora pois... outra vez...
Eu te amo!
O que importa
Se estando contigo
Emudeço e nada digo
Na própria pessoa?
Em poesia revelo
O que outrora sacramento
Guardado em meu peito
Trancado a cinco chaves
Cada uma delas
Têm uma letra de teu nome
Os cadeados ao abrirem
Ouve-se o Mantra
Da Cura pelo Amor Maior
Sarando as feridas
Que fizeste sem cuidados
Em meu triste coração
Rob Azevedo
Un Bardo Apasionado
Un Bardo Apasionado
Madrugada que não clareia
Sem o Sol de minha vida
Na cidade deserta
Pálidas luzes de lamparinas
Tênues, consomem o azeite
Em cortiças e pavios
O tépido lampejo derradeiro
Na promessa da aurora que viria
Envolto em brumas os vitrais
Lacrimejam o orvalho noturno
Refletindo comovidos olhos d`água
Daquele que clama nas trevas
O luzir da alvorada
Vencidas muitas batalhas
Gigantes temíveis derribados
Em estilhaços exércitos inteiros
Jazem em túmulos sem glória
Os tambores inimigos silenciados
Aquietam meu espírito no silêncio da noite
Instante absoluto do eu que sou
Indefeso diante mim
Esse dragão voraz...
A dor cai n`alma em sombras abissais
Do enigma da esfinge
A resposta ainda não encontrei...
E agora, o que faço?
Lanço garrafas ao mar contendo mensagens?
Escrevo cartas amarguradas e mando nas asas do pombo correio?
Por que Eurídice sempre me pergunta
Após cada poema de amor:
- Está tudo bem?
Meus atos causam mesmo espanto
A quem não vê-los por meus olhos
Abertos até que retorne a lucidez
... !Y considerado que soy un apasionado!
Rob Azevedo
Quit et Veritas?
Quit et Veritas?...............( Latim: O que é a verdade?)
Conceituação Filosófica do Absurdo
"Existem mais mistérios entre o céu e a terra
Do que supõe nossa vã filosofia".
(Shakespeare – Em Hamlet, incluída a palavra vã na tradução para a língua portuguesa.)
-> Trilha sonora
Ainda na estrada reta
Caminho Pleno da Perfeição
Existem as curvas
Pedras
Campos alagados
Desertos
Às vezes a trilha
Segue por caminhos tortuosos
Íngremes
E nuvens sombrias
Obscurecem a luz do dia
Para que não nos descuidemos
A luta
Sempre persiste
Em dialéticas contraditas
A paz estagna
Arrefece desejos
Quebra a vontade
Ainda que opostos
Só existam n`alma
Os gregos
Discutiram longamente
A respeito do Nada
Por muitas primaveras
Exauridos de profundos debates
Esgotando todas possibilidades
Já não podiam pensar
E veio o alvorecer
Duma certa manhã
Nos primeiros raios de Sol
Em tons multicoloridos
Despertam os filósofos
E a verdade reluz
Incompreensível
Ambígua
Sem sentido...
Reunidos, solenes
Chegam ao consenso
Unânimes:
O Nada é o Tudo!
E desde aquele dia
Diógenes era visto
Pelas vielas de Atenas
Diante dos templos e oráculos
Arenas
Perambulando sem destino
Numa das mãos
Levava uma vela
Acesa
Ao meio-dia
Se lhe perguntavam
O por quê de seus atos
Sereno dizia
Procurar um Homem
Dormia num barril
Passava outras horas
Sentado nas praças
E Zenão de Eléa em quarenta paradoxos
Seu maior legado à humanidade:
Entre duas mônadas
Pode-se intercalar uma terceira mônada
Fundamentando teses
Contra a possibilidade do movimento real...
Quit et veritas?
Existe interrogativa maior
Que tais palavras
Em toda filosofia?
Há quem a responda?
Nem os loucos!
Tampouco os sãos...
Insondável mistério
Isso é Tudo
E o Nada...
Nos campos ermos da vida
Caminho sem você
Meu Amor
Só eu sei
O tamanho dessa dor
Rob Azevedo
A Velha Cabana
'ﺅﺊﺋჱﺅﺊﺋ''ﺅﺊﺋჱﺅﺊﺋ' A Velha Cabana 'ﺅﺊﺋჱﺅﺊﺋ''ﺅﺊﺋჱﺅﺊﺋ'
-> Trilha sonora
Vieste numa noite
E se deparaste com um trovador provocante
A despertar sorrisos
Em ti
Aos borbotões
Tirei da manga
Tantos casos engraçados...
Quis dar-te tudo que podia
O bem mais precioso que tinha:
No riso espontâneo
A docilidade dum menino
Em quem pudesse confiar
Ser puro contigo
Gentil e cavaleiro
Embora sempre nos perdêssemos em risos
Os palhaços – fazendo jus à lenda
São tristes
De uma dor que não se entende
Embora também
Tantos poemas de amor
Nunca soube
Dizer eu te amo
De forma convincente
Minhas palavras soam
Em tom carinhoso
Lúdico
Refletindo a criança grande que sou
Essa
Que não haverei de deixar
Que se perca em mim
Jamais perecerá
Somente assim
Foste tantas em minha vida
Vinda de lendas infantis
E acreditamos
Em contos de fadas
Princesas e cavaleiros
Castelos e reinos
E fui teu herói
Salvando-te, em minha perspicácia
De bruxas madrastas
Contei a história
De minha cabana na árvore
Ouvi contar-me
Que caçava borboletas
Quando menina
Andando descalça
Como bem queria
Outro dia
Enveredei-me nos pomares
De minha casa
Procurei o local exato
E encontrei
O pé de cajueiro
No tronco largo
Ainda as madeiras
Pregadas transversais
Fui subindo a escada
Transpondo galhos
Cheguei à velha cabana
De meus tempos de menino
Abandonada
Parecia as ruínas
D`algum templo da Grécia Antiga
A melancolia caiu n`alma
Numa dor
Que não tenho como medi-la
Tantos anos se passaram
Tantos...
Amigos que seguiram outros caminhos
Entes queridos que perdi
Tanta água que correu
E desaguou no mar
Longe
Longe demais
E lá estava minha cabana
Dos tempos
Em que eu não era somente
Esse palhaço triste
Que o riso que provoca
Nem sente
E a felicidade que me traz
É vê-lo se abrindo
Em outros rostos
Sem que em verdade
O compartilhe
Em sonhos de criança
Pedi a Deus
Um caminho feliz
Procurei sempre
Ser um bom samaritano
De acordo com as lições
Do catecismo na paróquia
Mas fui sempre triste
Passada minha terna infância
Os amores que almejei
Ainda desejando-os
Num ardor sem tamanho
Por mim mesmo
Vi todos
Escorrerem entre meus dedos
Desculpas por isso...
Pois agora olho no tronco do cajueiro
E vejo um coração nele gravado
Recordando meu primeiro amor
Dos tempos em que no rosto do menino
As primeiras penugens de barba surgiam
Senti aquele fantasma invadir-me em lembranças
No pátio da escola fitando-me com olhos brilhantes
E tudo tão puro
Naquele amor
Que nunca vivi
Desde aqueles tempos
Nas dores que me foram causadas
Num coração de menino
O pranto que derramei
Desaprendi a vertê-lo
Porque não queria me ver novamente
Derramando lágrimas
E desejando deixar de viver
É...
Embora nunca acreditasses realmente
Em cada segundo
Cada instante ao teu lado
Cada verso dedicado
Eu te amei
Nunca menti
Por favor, não pense assim
Porque é pecado
Em face dum sentimento tão grande
Imaginei contigo
Histórias que nem ouso contar
De amor pra vida inteira
E conhecer Luxor ao teu lado
Mirando as esfinges no deserto
Tendo a resposta do enigma:
- Eu te amo e agora... O que faço?
Se minha história é sempre triste
De amores perdidos...
E quando declarei o que sentia
De forma mais crível
Ouvi somente:
- Estou sem palavras
Não sei o que dizer
Perdoa-me por tudo isso...
Sou eu o culpado
Minha sina é lastimosa
E Deus não ouviu minhas preces de criança
Ensinei-te o riso
Voltar a ser menina
Na pureza que contagia
Agora, em minha velha cabana de menino
Que se perdeu no tempo
Mirando o coração gravado no tronco do cajueiro
Vejo ao lado, num galho
Um pequeno cajuzinho
E choro...
Ensinaste a mim
Derramar novamente
O pranto
Porque estava certa:
Seremos sempre
- Tão somente -
Amigos
Embora continuarei te amando
E eu sei
I `ll stand by you FOREVER
Além, o que te prometo
Até a noite de meus dias
É que serás eternamente
Minha
Adorada
Musa
Rob Azevedo
Tristão & Isolda - Lendas da Paixão -
♥ Tristão & Isolda ♥
- Lendas da Paixão -
-> Trilha sonora
Onde está Meu Amor
Que felicita minh`alma triste?
Isolda
Algum dia, alguma noite
No breu ou claridade
Na vida ou na morte
Haverá de me encontrar?
Coisa alguma temerei
Na fé que me move
À Luz de Meus Olhos
Nem a espada que rasga a carne
Maldade dos homens
Traidor açoite
Vale das Sombras
Rugir atroz
Do Dragão Devorador...
Nossas almas entrelaçadas
Não poderão ser separadas
Sempre te esperarei
Rainha dos Meus Sonhos
Eclipse do Sol e Luar
Em mil e uma noites
De eternidades sem tempo
Por ti morrerei
E até diante a morte
Meu Amor por ti
Sempre será mais forte
Mais profundo que os mares
Nascidos das lágrimas
Que escorrem dos meus olhos
Quando dilacera a saudade
O peito onde vives
Porque meu coração
Será sempre teu
Se me deixares que toque
Tua alma fiel
E à minha se entrelace
N`alguma estrela
Além do infinito
Rob Azevedo
Queen Of My Dreams
๑۩▒♥▒۩๑ Queen Of My Dreams ๑۩▒♥▒۩๑
-> Trilha sonora
Ó cama tão vasta e vazia
Testemunha muda e cega de tanto lamento
Sequer tem ouvidos e contigo converso
Lastimando as dores que levo no peito
Da chama que incendeia de meu corpo cada pêlo
Sem aquela por quem clamam meus versos
Cada palmo de ti um deserto
Meia hora nefasta agonia
Quem dera
A culpada de tanto tormento
Deitada estivesse ao meu lado
De ti o menor pedaço
Metade da ponta duma agulha
Seria maior que o infinito
E meia hora gozo eterno
Ó cama tão vasta e vazia
Inclemente sem dó dilacera
Rogo a Deus da Princesa companhia
Agonizando dolorosa espera
Vinde ao teu cavaleiro
Que somente em teu seio
Do Amor que antecede o descanso
Minh`alma saciada se aninha
Aquece meu corpo do frio mais duro que o inverno
Chamado Tua Ausência
Essa tortura que devagar me mata
Definhando cada rosa que nasce em meus lábios
Caindo do céu toda estrela prometida
Perdendo as asas Serafim e Arcanjo
Ó Princesa por quem em versos clamo
Vinde ao teu Real Trovador
Que mesmo o sangue de minhas veias
E lúmen de meu espírito
A ti agradecido dôo
Jurada lealdade a minha Majestade
Haverei de proteger-te noite e dia
Da secura de teus doces lábios
Por meus beijos inebriados de ardor
Neles, a umidade que suaviza nunca te faltará
Da solidão noturna que à noite arrefece
Serei teu manto em nosso leito de rosas coberto
Em vigília constante a velar teu sono
Ofertarei em meu peito o travesseiro para que descanse
Ao canto das batidas dum coração apaixonado
Que cantem as cotovias
E venha resplandecendo a alvorada
Enquanto dormes atento teu repouso guardo
Derramando d`alma o pranto que em versos lêem
Agradeço Àquele que a tudo do alto governa
Companhia de tão venerada divindade
Meu coração devotado servo
Consagrado trovador e cavaleiro da Princesa Mor
Destemido guerreiro em campos de batalha
Rendeu-se alvejado pelas setas de Cupido
Por força do Soberano Amor
Honrando cada voto de lealdade
Cumpro o Real dever que me cabe
Ofertando à Majestade em meu peito descanso
Do Amor que antecede o sono
Rompendo o alvorecer em tons incandescentes
Serenamente espero o abrir de tuas pálpebras
E que nossos olhos se mirem amorosos
Brindando em sorrisos um novo amanhecer
Até que se torne dia pleno de Paixão
Rob Azevedo
Sherwood Forest - Robin Hood & Lady Marian
Sherwood Forest
♥ Robin Hood & Lady Marian ♥
Nas florestas de Sherwood
Vivia um bandido
Príncipe dos Ladrões
Pelo poder perseguido
Posta à prêmio a cabeça
WANTED, LIVE OR DEAD!
Entre os pobres
Conhecido
Como o bom herói
Idolatrado por todos
Honra dos ingleses
De Nottingham
A qualquer parte do reino
Temido pelos abastados
Venerado pelos carentes
Do socialismo autêntico
O precursor
Distribuindo renda
Entre aqueles que muito tem
E os famintos
Desfavorecidos
Pelo mundo cão
Ideais de liberdade e igualdade
Ódio contra as injustiças sociais
Do reino em guerra civil mergulhado
Nas mãos do poder tirano
Tornaram Robin Hood herói
Aclamado até a noite dos tempos
Um arco e flecha
Seu bando de seguidores fiéis
E a Floresta de Sherwood
Bastavam
Ao fora-da-lei herói
Que roubava dos ricos
Para dar aos pobres
Do reino o ícone
Pela causa da liberdade e igualdade
Morta nas mãos da tirania
Nos bastidores de todas as lendas
Além das aventuras contra a monarquia
Usurpadora do trono por direito
Sempre se escondem amores
Endeusados heróis
São de carne e osso
Como cada um de nós
Nas contradições da paixão
O bom ladrão
De uma nobre abastada
Rouba-lhe o coração
- Lady Marian, hi, come here!
Escudeira fiel
De suas tramas
No covil do poder
Entre os nobres
Que a Robin Hood temiam
Vivia Lady Marian
Ironias da paixão
Entre tantas...
Das vitórias que teve
Em mil peripécias
Contra o xerife de Nottingham
O mais precioso dos tesouros:
- A chave do cinto de castidade de Lady Marian -
Robin Hood não encontra!
Ah, que dores!
O Amor tão esperado
Com a nobre apaixonada
De quem lhe roubou o coração
Impedido pela chave
Dum cadeado dourado!
- Lady Marian
Viveremos a morrer em suspiros
Esperando nossa primeira noite...
Rob Azevedo
Me Amas Que Será Também
Esse poema que segue tem um segredo...
O nome da Musa Inspiradora dele consta ao longo de todo o poema de forma dissimulada... Consta sonoramente falando...
Nesse poema eu repito inúmeras vezes a junção das palavras "vi" e "que" no início de muitos versos.
"Vi" posto junto com "que", soa exatamente igual à "Vick", que é o nome da Musa desse poema.
E no penúltimo verso do poema - que é esse o verso: "Vi que furtado" - o nome da Musa consta - sonoramente - completo, sendo que o nome dela é exatamente Vick Furtado.
E o título do poema é uma jogada que fiz com a inscrição que consta na bandeira do estado de Minas Gerais - Libertas Quae Sera Tamen (Liberdade ainda que tardia), sendo que a Musa do poema é mineira.
Me Amas Que Será Também
-> Trilha sonora
As coisas que vi
No teu olhar
Quando disse adeus
Deixaram a mim perdido
Feito menino
Sem chão nem direção
Diante do abismo
No final da linha do trem
As coisas que vi
Olhando meu caminho
Minha vida sem você
Somente espero que entenda
Compreendas no meu canto
Em cada verso que te conto
As coisas que vi
Não aprendi nos livros
Ninguém me ensinou
Nem existe remédio
Que alivie a dor
Quando se fala em amor
Vi que sem você à noite eu choro
Vi que sem você não durmo
Vi que sem você acordo
Feito Lua Minguante
Faltando mais que a metade
Vi que sem você não vivo
Vi que só você eu amo
Me Amas Que Será Também
Me amas que te amarei
Como nunca amei ninguém
Me amas que será amada
Eternamente
Me ames somente
Não me perguntes nada
Me amas que terá alguém
Me amas que serei teu bem
Apenas me ame
Sem medir palavras
Amarei a ti também
Seja fim de tarde
Noite escura que dá medo
Haverei de esperar
As manhãs de Sol
Que haverão de chegar
Repletas de alegria
Saciando o desejo
Enlouquecendo a alma
Que jamais se cala
Seja noite ou seja dia
De mãos enlaçadas
Caminharei contigo descalço
N`alguma deserta praia
Do meu Rio
Distante de mim
Encontrarei a ti
Em minha poesia
Na tua Minas tardia
Liberto serei
Agora entendo
As coisas são simples
Não tem mistérios
Basta contar
Tudo que vi
Sem nenhum segredo
Vi que eu ando
Em madrugadas insones
Beijando poste
Imaginando você
Vi que perdi o tino
Desde que te conheci
Ando feito cão vadio
Revirando o lixo da esquina
Procurando algum soneto perdido
Que nunca te mandei
Vi que me tornei um intelectual insano
Debatendo com os vira-latas
Companheiros da madrugada
Questões da existência
Nunca respondem nada
Diferente de latidos
No entanto a cada dia
Resta-me a certeza:
São mais sábios que eu
Amam e não se queixam
Venerando a Lua
Uivam sem por quê
Vi que eu não entendo
Por que um poeta
Quando escreve
No ímpeto da inspiração
Se parece tanto com um bêbado
Que bebendo conta a verdade
Talvez os cães tão sábios
Saibam
Eu não sei...
Vi que eu me lembro
Todas as tardes
Quando o telefone toca
Meu coração bate mais forte
Quase explode
Imaginando você
Vi que nem sei o que dizer
Sou todo fogo que me consome
Cantando em versos
Nascidos em madrugada insone
Tudo o que vi
Vi que sem você à noite eu choro
Vi que sem você não durmo
Vi que sem você acordo
Feito Lua Minguante
Faltando mais que a metade
Vi que sem você não vivo
Vi que só você eu amo
Vi que sem você
Sou um corpo vazio
Levaram de mim
O cerne vital onde Amor sinto
Vi que furtado
É meu coração...
Rob Azevedo
Sete Notas da Poesia
Sete Notas
Da Poesia
Tem o certo
Tem o errado
O dia de Sol
A pedra no sapato
Tem a vontade
Tem o medo
O tapa na cara
O beijo
O palhaço no picadeiro
A menina na arquibancada
Comendo pipoca
Dando risada
Tem a rosa que encanta
Presente de quem ama
Tem o espinho que se oculta
Ferindo quem recebe
Tem a abelha fazendo mel
Adoçando a vida
Tem o ferrão que incha
Onde atinge
Mata de dor
Tem a cruz
A espada
O céu
O inferno
Livre escolha
De cada um...
A coragem
A covardia
Tem a acomodação
A rebeldia
Tem a vitória
Tem a derrota
Tem o heroísmo
De haver lutado
A vergonha de haver fugido
Tem o orgulho
De haver conquistado
Tem o arrependimento
De haver sequer tentado
Tem a ação
A reação
A causa
O efeito
Tem a solidão
O estar junto
Tem o ímpar
Tem eu querendo
Ser seu par...
Tem o distante
Tem o perto
O céu estrelado
A noite sombria
Tem o mar
Tem o verbo amar
Tem a certeza
Tem a angústia
Tem essa dor no peito
Que me esmaga
Sentindo quem desejo
Tão longe
Além do horizonte
Tem a razão
Tem o coração
Tem a indiferença
Tem a paixão
Já ouvi também
Tem o amor verdadeiro...
Dei azar
Só conheci o amor
Feito de ilusão...
Mas tem o Dó!
A falta de pena também
Têm pessoas que não tem
Ressentimento de nada
Tem o Ré!
Viver no passado
Chorar o leite derramado
Tomando café
Fumando um cigarro
Mas têm aqueles que avançam
Enterram seus mortos
Em campo de batalha
Tem o Mi!
Mas tem o ti também
Que bom!
Se tenho a ti
Não sei
Basta a Mi
Sou feliz assim...
Ah... Como eu minto!
Tem o Fá!
O que faremos agora?
Não importa
Viveremos ao Deus dará...
Tem o Sol!
Tem a lua
O dia
A noite
Tenho tua companhia
Na falta dela
Só agonia...
Tem o Lá!
E tem eu aqui
Onde não estás...
Mas tem o pássaro de ferro
Pode me levar até Lá!
No entanto tem o Si...
O que é mais triste de tudo
Sempre tem o Si!
E Si ela não me quiser?
Pois é...
Tem de tudo nessa vida
Dizem que tem coisas
Que até Deus duvida...
Rob Azevedo
Velha Banguela
Velha Banguela
Velha, velha banguela
Já são duas da tarde
Limpa ao menos a remela
Nos teus olhos de maça
Seqüela!
Tua poema é senil
Cabelos de neve
Feito espigas de milho
Nos desertos de Marte
Delira, confessa!
Tua boca banguela
Resmunga coisas sem nexo
O feijão tá na panela
A velha senhora
Pensando em sexo
Vão bora!
O tempo passou na tua vida
Sem que tivesse beijado
Quantas bocas queria
Velha senhora
E agora?
Crepúsculo no teu caminho
Tua boca mendiga esmola
Com dois dentes somente
Mente!
Diz que parte contente
Acaso viveu tudo que podia?
Pisou em toda terra existente?
Leu tudo que há em poesia?
Mergulhou sempre no rio
Em dia de Sol escaldante?
Não poupou teu riso e tua alegria
Quando felicidade havia?
De amor se embriagou
Em cálice transbordante
Quando sua presença
Despontou em tua vida?
Confessou esse amor ao menos
Quando em teu peito ardia?
Somente fingia...
Ah, velha demente!
Jamais compreenderá os poetas
Nem recitará versos à luz da lua
Dos sentimentos
Faz economia
A vida não vive
Mendiga...
Resmunga a cada dia
Feito estivesse
Na feira num sábado
Palpando batatas
Cotando trocados
Somando, subtraindo, dividindo
Meu Deus, será que vai dar para pagar a conta?
Ah, velha caduca, tu deliras, confessa!
Nem crê merecer as melhores batatas
Sequer lançar um olhar ao bacalhau
Estendido no açougue tu ousa
Se contenta com as batatas amassadas
Podres, bolorentas, baratas
Ah, velha demente
Os poetas se reúnem
Sob a lua cheia reluzente
Cantamos a tristeza que vives
Degustando a ceia dos felizes...
Vivemos a vida ao extremo
No dia em que partiremos
Iremos saciados
Porque o tempo é chegado
Em viver fartamente
De modo pomposo
Rico em sentimentos
Embriagados até o êxtase
Porque de graça nos foi dado
Por dom de Deus
Nossa missão cumprimos
Trazendo ao mundo poesia
Cada uma delas vivendo
Com gratidão e bonança
Pobre velha coitada
Tua vida é inteiro lamento
Teu coração
Mais enrugado que a cara!
Viveu a vida
Feito morta
Resmungando o passado
Não aprendeu a lição:
O copo cai no chão
Estilhaça em mil pedaços
E agora, o que faço?
Junto os cacos
Meu coração refaço
Chorar leite derramado
É pecado!
Se tua vida é vivida
Feito morta
Como morrerás a morte
Feito viva?
Ah, velha caduca
Tu deliras, confessa!
Vão bora!
O feijão já queimou na panela
A velha pensando no sexo
Que não fez quando tinha
Dezenove anos...
Já é fim do dia
A barriga continua vazia
A luz se finda
As sombras caem
Em tua vida
A boca se cala
Olhos se fecham
A respiração se corta
Teu coração pára...
Adeus velha senhora!
Rob Azevedo
De Gato de Botas à Lobo da Estepe
De Gato de Botas à Lobo da Estepe
-> Trilha sonora
Assisto um jogo
De baralho
No xadrez quadriculado
De meu cárcere privado
E pano estampado
Da calça desfiada
Surrada, desbotada
Que desfilo remendada
Com pose de modelo
Rasgada no joelho
Desde a penúltima quadrilha
De Festa Junina.
Comprei novinha
Em mil novecentos e oitenta e seis
Exibida na vitrine
Duma loja notória
Bem na esquina
Da Sunset Boulevard Avenue
Com a Pacifc Ocean Street
Lá no alto
Do morro da Mangueira
Subindo o escadão
É contígua à boca de fumo
Da famosa quadrilha
Do "saudoso" Escadinha.
Sangue frio e calculista
Observo o carteado
Sobre a mesa.
No boteco do seu Jorge
Entre nuvens de nicotina
Bebidas e drogas
O ambiente é pesado
Denso
Lembra um filme
De Hitchcock.
Os olhares são desconfiados
As mãos por baixo da mesa
Acariciam
A coronha d`alguma pistola
Com bala na agulha
Porque entre aqueles
Que jogam o carteado
Os Judas
São muitos.
Ah, se ao menos soubessem
Sempre li Herman Hesse
Sou Lobo da Estepe!
Criado nos desertos áridos
Onde vicejam espinhosos cactos
Deles, se preciso, me alimento.
Meu engenho
Vem da Arte
De ser anjodemônio
Bem de acordo
Com as intempéries.
Meus olhos
São de águia
Espreitam do alto
Sem serem vistos.
De tudo sei
Ainda que não saibam
Do meu saber
Porque assim tenho
Um Az na manga.
Se alguma víbora me atraiçoa
O veneno que em meu sangue inocula
Não me derruba
Mas amolda meu Ser
Tornando predador que devora
Répteis nocivos pegajosos
Que se arrastam sobre pedras.
Ainda que seja filho
Do Santo Pai Bento
Exorcista diplomado
Conhecedor das artimanhas do Dragão das Trevas
E mais forte que a Sombra
Ungido na Luz
Da Sagrada Cruz
Em mim habita
Em celeste paz
Deus e o Diabo.
Então cuidado!
Cuidado!
Estou sempre desperto
Mesmo sem meus olhos
Pousarem sobre seus atos
Ou meus ouvidos
Escutarem sua voz
Dialogando com os seus.
Cuidado!
Sou muito acordado!
Estou sempre desperto
Ainda quando durmo
Me ausento
Me encontro distante.
Cuidado!
Minha Luz que ilumina
Pode tornar-se chama
Ardente que queima.
Nenhuma gota de suor escorre por minha face
Acompanho o carteado
Frio, analítico, sensato, imparcial
Racional
Senhor de mim
A mão direita
Freqüenta o bolso
Da jaqueta
Meus dedos
Alisam o gatilho
De uma pistola.
O quadro do ambiente,
De todos oponentes,
Tenho em minha mente
Em imagem
De Raio X.
Conheço suas tramas
Sórdidas
Cada artifício que usam
Manipulações
Concessões interesseiras e enganosas
Para que de presente diante a nós
Concedam a si mesmos o dobro
Elevando o resultado ao cubo.
Suas legislações conheço
Em causa própria
E imposições resguardando
Seus interesses
Em detrimento dos nossos.
Conheço a mão
Que dá somente
O que sobra quando não usa
Tirando tudo
O que temos.
Conheço aqueles
Que sentem os sapatos
Lhes apertarem
Mas desconhecem os calos
Que seus passos
Provocam
Em nossos pés.
Abrem a boca
E gritam as dores
Que lhes martirizam
Ignorando aquelas
Que nos agoniam.
Seus ouvidos só escutam
O que desejam
Massageia o ego
Relevam avisos
E observações
Realistas.
Exigem o pão sobre a mesa
Quente, com mel, geléia e queijo
Ao lado do jarro
De suco de frutas.
E nos dão
Migalhas bolorentas
Lançadas ao chão
E água de torneira
Um vintém sem valor em um milhão
Ainda julgam e dizem a todo momento
De uma forma ou outra, velada ou explícita
Mas sempre com ar garboso
Nos darem tanto, bem mais do que merecemos
Que mereciam um monumento
Em praça pública
Um busto, com o semblante ajeitado
Para que pareçam mais vistosos
E nome em ouro gravado
Em placa de mármore
Para que tenham ares
De gente importante
E ainda querem
Um jardim florido em torno
Sempre bem cuidado.
Acompanho o carteado
Sobre a mesa
Sei o que transcorre
Por debaixo
E nos bastidores.
Sei de cada legionário
Que arrebanham
Meus oponentes
Para que mais fortes
Me enfrentem.
E só blefo
Quando mentem
Meu blefe: Fingir acreditar
Quando julgo apropriado
Ao meu modo, averiguando os fatos
Fazendo deduções
De acordo com meu pensar.
O que disseram
Nessas horas
Relevo
Tudo há de ser
Comprovado.
Pistas investigo
E meus delitos
Não deixam rastros.
Só acredito
No que é crível
No que é dúbio
Duvido.
E Histórias da Carochinha
Abomino
Ainda quando escuto
Com um sorriso
Estampado no rosto.
Nesse jogo
De Reis e Damas
Paus e Espadas
Valetes e Coringas
Azes e Copas
Todos marcados
Não se têm amigos
Mas canibais
Puro instinto
De sobrevivência.
Mal sabe que disse
Quem deu as cartas
Alea jacta est...
O haver se esvai
Torna-se havia
E morre vinte mil
Léguas submarinas
Além do pôr do Sol
Que beija o mar
Em tardes lilases
No horizonte anil.
Senão me entendeu
Ao menos me leu
E isso basta
Ao Gato de Botas
Lobo da Estepe
Que de repente comeu
A poesia que nasceu
Ao acaso no deserto
Usando as patas
Encolhendo as unhas
Ajeitando os pêlos - da barba
E ouvindo estórias
De Quincas Borba.
De resto
O tráfego é intenso
Em horário de rush
Na Avenida
Dos Bandeirantes.
Rob Azevedo
A Guilhotina - A Verdadeira História Que Os Livros Não Contam -
A Guilhotina
- A Verdadeira História
Que Os Livros Não Contam -
Sinteticamente perfeito
O arremesso
Desconheço
Petardo mais certeiro
Alcança a lança
O alvo
Crava no peito
A rainha da França
Na casa da mãe Joana
D`Arc sorri
Volta-se ao lado e diz:
- Sorry
I feel so good
Hasta la vista, baby!
Charles De Gaulle
Encabulado
Vomitou a mesa do bar
Resmungou:
- Que Chateau!
Prefiro Bourbon!
Napoleão Bonaparte
Tarde da noite
Foi a melhor parte
Suas pupilas dilatadas
Mirando assanhadas
A menina
De seus olhos caramelados
Encaravam a déspota face
No espelho
Com ar de covarde
Victor Hugo se espanta
Ajuda suplica
E lá vem os mosqueteiros
Trio de bêbados
Matam mariposas
Afogadas na sopa
Inocentes vitimadas
Em resina conífera
Batem os tambores...
Adentrando a taverna
O mensageiro alvoroçado esbraveja:
- Paris incendiada
A princesa de Marselha violada
Currada
Pelo exército vermelho inteiro!
Disparem os canhões!
Escândalo no reino
De Iêmen do Sul!
Soem a trombeta
A membrana rompida
Arrombada a porteira
De nossa amada princesa!
Convoquem o conselho
A cavalaria armada
Que marchem os soldados
Guerreie a Esquadra
Ao Mar Vermelho
Zarpem marinheiros!
Vinguemos nossa princesa
Desvirginada, coitada!
A rainha é morta
Por lança alvejada
De lesbiana guerreira
A pontaria é certeira!
- Os culpados serão punidos!
Declama solene o conselho...
- Detenham!
Revistem!
Humilhem!
Torturem!
Decapitem todos
Na guilhotina!
Pobres coitados
Os estrangeiros
Pagaram alto preço
Decapitados inocentes
Pelo resto de suas vidas
Impotentes...
Perderam a cabeça
Do órgão da copulação
Sob o corte de lâmina cruel
Terrível dor!
Que maldição!
Perpétuo padecimento
Amarga sentença
Nas terras da França
Nos bordéis de Bordeaux
As meretrizes cobiçadas
Dos condenados esquecidas
Vidas castradas
Dias tenebrosos
Celibato macabro
Na temível degola...
Os carrascos encapuzados
Espreitam, encurralam
Perseguem impiedosamente
Foragidos na Angola
Ouço passos
No breu noturno
Grasnam os corvos
Decapitação nos olhos...
Fujo, me arremesso
Sou estrangeiro!
Pânico, histeria
Suor, calafrio
Desespero e medo...
Fui pego!
Os algozes mordazes
Levam-me preso...
Diante do conselho
Ninguém entrego
Torturado não ajoelho
Minha fé não renego
Compassivo escuto
A sentença malfadada:
A guilhotina temida
Minha cabeça decapitaria...
- Princesa cretina!
Bastarda!
Nem era menina
Meretriz depravada
Minha cabeça não é culpada
Da tua porteira violada!
Impiedosa sina
Resta-me a guilhotina
Na Via Crucis, meu guia
Um algoz encapuzado
Abre minha braguilha
A cabeça eu perderia...
Levantei os olhos
O aço da lâmina reluzia
Afiado o corte
Prefiro a morte!
Avistei a lâmina que caía
Ligeiro afastei
Minha inocente pélvis
O pescoço adiantei
No derradeiro instante gritei:
- Liberté, Egalité, Fraternité
Vancé fudé!
Morri...
Rob Azevedo
Poética Surreal...
Poética Surreal
Da Peleja
Do Gato com Outro
Animal
O gato rosna
No telhado
Eriça o pêlo
E lambe a pata.
O pato grasna
Furioso
Não gosta e roça
O bico na pedra
Afiando a arma.
O gato estica a pata
Mostra a unha
E encara.
A pata com cara
De assanhada
Se acabrunha
Mas no fundo
Pensa:
Vale a pena
O gato é gato!
O pato solta pena
Bate a asa
Mas não voa
Empata
Segura vela
Ninguém assopra
E a pata
Nem é dele
Namorada
Só um rolo.
O gato rola
Se coça
Espanta mordida
De pulga
Com a pata
Ela pula.
O pato sente a pulga
Atrás da orelha
Encabulado
Com o gato
Flertando a pata.
Mas pato tem orelha?
O gato relha
Atrás dum pé de repolho
No peito da pata
Procurando no meio
Algum seio
Abre o olho
E passa a pata
Se dá conta:
Mais parece
Uma tábua
Mas não conta
Nada à pata
Já um tanto
Envergonhada.
Amargurado
O pato perde a partida
Sente a ferida
Mas pato que grasna
Não bica
Vai embora
Sem briga
Além do mais
Ele medita:
A pata é choca!
Entre hortaliças
Um marimbondo
Pica a bunda
Do gato que mia
Urra
E sai de banda.
Num galho
De castanheira
Um pica-pau curra
Uma andorinha
Ao som de castanholas
Vindo duma cabana
Perto do curral.
Abóbora
Alface
Manjericão
Couve-Flor
Alguém pergunta:
- Qual lua é boa
Para o plantio
De mandioca?
Agrião
Tomate
Brócolis
Batata-Doce
Um pé de Nabo
De nada vale
O gato é carnívoro
Come um ratinho
Que passa perdido
Nos canteiros
Depois o rabo
Da pata choca
Que grasna.
Rob Azevedo
quarta-feira, 4 de julho de 2007
Expresso da Meia-Noite
Expresso da Meia-Noite
-> Trilha sonora
Um recreio
Em meio ao caos
Pausa que entrecorta
O ir e vir impetuoso
Do machado zunindo no ar
Cortando sem dó
O sândalo a sangrar
Intervalo
Brilho de Luz
Meditar, refletir
O absurdo da vida
Que a si mesma maldiz
Vida que se devora
Mastiga
Engole
Rumina
Expele e vomita
Apodrecida
O tempo se consome
Ponteiros do relógio correm
Num infinito ciclone
O cão dispara
Atrás do próprio rabo
Não pára
Na cara do jovem
Brotam espinhas
O tempo passa
E surgem rugas
Fendas no solo ressecado
Tornando-se estéril
Chronos faminto
Saliva
A fome nunca sacia
Caem grãos
Formam dunas
E resmungam duas velhas
O leite derramado
No sótão
Soterradas
Em lamúrias
Caravelas singram mares
Rumo à Atlântida perdida
Enquanto choram violões
Violinos, bandolins
No vão das nuvens
Um Arlequim
À beira-mar
Contempla a onda
Vir e voltar
Cruzando o céu a gaivota
Pousa na espádua
Da Colombina
Cismando solitária
O Amor que o tempo
Levou
E tudo passa
Com pressa
Parece
O expresso
Da meia-noite
Com destino
Ao Oriente
Esse comboio
Não volta
Pega a mala
Enxuga a lágrima
Se acomoda
No vagão
E vamos embora!
Já estamos
Noutra estação...
Rob Azevedo
Violão Azul
Violão Azul
-> Trilha sonora
Poesia e Música
Mais Amor
E nada há de faltar
Na terra, céu e mar
De nossas vidas
Num canto do quarto
O velho violão azul prateado
Atrás, no tampo
O coração gravado
Faz tempo e ainda lembro quando
Tuas mãos deslizaram naquela madeira
Entalhando o desenho
Com destreza, à canivete
Mas meu nome
Junto ao teu
Fui eu quem cinzelei
A primeira serenata
Naquela noite de Julho
Deixou saudade
Fui teu poeta saltimbanco
Galante
Cantando meus poemas
Em música transformados
Meus olhos nos teus fincados
Refletindo brilho de diamante
Nada complicado entender
Era Amor ao primeiro acorde
No primeiro verso declamado
Em tantas rodas nos bares
Nas praias, praças ou nos campos
Nossa inseparável companhia
O violão azul
E meu cancioneiro de poeta do Amor
Sacramentado na mente
Nossos olhares se fitando
Dia e noite
Em cantorias sob o Sol
Ou à luz do luar
Se vinha a chuva
O violão voltava à capa
E banhávamo-nos nas águas
Que desabavam do céu
Tua roupa molhada
Colando nas curvas do corpo
E minh`alma contemplativa
Nas transparências ensandecida
Que riso fácil de menina faceira
Encantada com meus cabelos revoltos
Fora de todo eixo
Ah, violão azul!
A ti sou eternamente grato
Testemunha co-autora de tantas farras
De meus galanteios primeiros
Que nunca terminarão
Serei sempre o Don Juan
Trovador violeiro
E cada vez que meus lábios
Nos lábios daquela que inspira
Em minh`alma tantas trovas
Se encaixar feito um imã
Será o beijo inaugural
De dois corações contadores de estrelas
Em cada uma delas
- Que serão poucas -
Um beijo de tirar o fôlego
Na Poesia, na Música
O que sentimos no peito:
Resplandecente Paixão
E o velho violão azul
Há de nos acompanhar
Por mais mil anos
Companheiro audaz
De Don Quixote
E sua fiel escudeira
Amada Andaluz
Ó Violão Azul prateado
Nada há de nos faltar
Na terra, céu e mar
És nosso pastor
Nas veredas do Amor!
Rob Azevedo
Tudo Que Existe Um Dia Finda...
Tudo Que Existe
Um Dia Finda
Chega Ao Poente
Sobrevive - O Que É
Como A Camélia Prateada
Nua Flutuando
No Firmamento
-> Trilha sonora
..........I
O Gato de Botas
Caminha léguas
Em companhia do Boto
Cor de rosa.
Levam rosas
Ao velório
Dum gato conhecido
Que morreu
Escaldado.
Do céu nublado
Desaba água
Chuva fina
Os transeuntes
Pelas ruas
Erguem sombrinhas
Carrancudos
Bem agasalhados.
A estação Outono
É fria.
Estendido no esquife
Um corpo sob flores
Em torno, sete gatas
Lacrimosas pelo gato
Que perdeu
A sétima vida.
Os recém chegados à capela
Entristecidos
Depositam vermelhas rosas
No interior
Do ataúde.
O Boto veste luto
Com ar de sentido
O gato dá os pêsames
Às sete gatas que perderam
O predileto
Dos seus sete amantes.
Já é tarde
N`algum relógio bate
Sete horas da noite.
Mirando o corpo inerte
Pálido, em repouso eterno adormecido
Do conhecido padecido
Escaldado
O Gato de Botas reflete:
Como as rosas que trouxe
Tudo um dia
Murcha devagar e morre.
Mas sete vidas Deus lhe deu
Vive sete personagens
Cada um com sua identidade.
De modos que dorme numa noite
Como um gato
Acordando latindo
É cão.
Noutro alvorecer
Ao despertar, se mira no espelho
Contemplando o semblante
Dum coelho.
Alguns dias
Vê em seu corpo plumas
Tem asas
E voa
É pássaro.
De repente
É um gato
Bem maior
Enorme
Com juba
Chamado Leão.
Adiante um Marlin
Vivendo
No profundo azul.
E também
Um alazão
Correndo livre nos campos
Contra o vento.
..........II
Por fim
Diga-se ainda
Que às vezes
Tem hábitos
De corujas e morcegos
Seres da noite sombrios
E lobos das estepes
Amantes das madrugadas enluaradas
Afeitos à penumbra
E encanto
Do uivar em solidão
Entoando cantos de amor
De costume
- O por quê ninguém entende -
Não às lobas, mas à Lua
Camélia Prateada desfilando nua
No negro manto firmamento noturno
Jardim do Excelso
Florido de estrelas.
Aquela que ninguém alcança
Beijá-la ninguém pode
Os lobos, tantos seres notívagos
E sobretudo os poetas
É a quem
Verdadeiramente amam.
O inatingível
É uma quimera tão distante
Onde aportam tantos sonhos
Que suave torna-se
O mais desejado enlevo
D`alma e da carne.
Em brumas, pairando reluzente
Soberba, em plena majestade
Vistosa, como um diamante
Além do que tocam as mãos
Ainda estendidas num pulo do píncaro mais alto
Ou vôo de Ícaro
A Lua desperta em seu encanto
Mágico – místico – misterioso - eterno
Naqueles que almejam
O Amor por todos desejado
A mais bela imagem
De eternidade
Imaculada castidade
Perpétua virgindade
Entregue somente a quem
Saiba voar além
Do que as asas de Ícaro possam levar
O pouso no intangível
Amor em estado puro
Único.
O Gato de Botas
Cismando absorto
Retorna ao mundano cenário
Mirando um corpo descorado
Frio, estático
Estendido no esquife
Sob murchas flores mortas
Como tudo que existe
Um dia finda
Chega ao poente.
Sobrevive
O suceder dos tempos transcende
Somente realidades
Que se tornaram lendas
Pela grandeza de seus sonhos
Ou pela beleza
Do Amor santificado
Na magia que emana
Da Lua que flutua
No Jardim do Excelso
Florido de estrelas
Símbolo a todo aquele
Que de verdade ama.
Rob Azevedo
Carthago
Carthago
Embarcado numa fragata
Impelido por ventos
Cruzar o tempo
Cruzar o Ártico
Aportar em Cartago
Norte da África
Dois mil e cento e cinqüenta anos antes
Dos dias de hoje, de Tunis, Tunísia
Ser um guerreiro Vândalo
Lutando contra as forças de Roma
Disputando soberania
No Mar Mediterrâneo
Na derradeira Guerra Púnica
Vencer à Cipião Emiliano
Impedir a ruína de Cartago
Posta ao chão e nele posto
Sal, para que nada floresça
Na península do alto dum monte
Avistar no mar azul ao longe
Intermináveis brancas nuvens
De armadas frotas inimigas
Fragatas errantes, couraçados
Farejando a morte, sanguinários
Cruzando mares
Vindo de Roma
Em direção à Cartago
Na mente de cada soldado invasor a ordem:
Delenda est Carthago.
Arrasar até aos alicerces
A capital da República Marítima
Concorrente
Nenhuma vida poupar
Sem clemência
Não deixar feridos, inválidos
Prisioneiros escravos
Acorrentados em grilhões
Somente cadáveres
Amontoados, entre as ruínas
De Cartago
No Mediterrâneo balouçando
Ao sabor dos ventos
Impelindo velas abertas
Sob a força de Éolo rasgando
Ondas se agitam
Subindo e descendo
Mareando novatos marinheiros
Vem vindo a poderosa frota
Do Império Romano
- Cartago precisa ser destruída.
Delenda est Carthago.
Entoam aqueles
Até os dentes armados
À bordo de fragatas infindas
- Cartago precisa ser destruída.
O mar se torna branco e marrom
Branco das velas estendidas
E marrom da madeira dos cascos
É como se a morte
Estivesse chegando
Inevitável
Vinda do Oceano
Por detrás das três muralhas
Infantes em terra erguem espadas
Escudos e lanças
Reluzem sob o Sol elmos
Encobrindo toda cercania
Cavalos aos milhares se alvoroçam
Poeira levantam
Relincham
Bufam ao brado
De seus cavaleiros guerreiros
Pela glória de Cartago
Olhos se voltam
Ao mar vestido de marrom e branco
Uma ponta cruciante de espanto
Crava no peito de cada soldado
Cartaginês ou mercenário
Revigoram ânimo
Elevando preces ao deus Ba`al Hammon
Estátua de pedra na acrópole
E mirando sobre colinas e pontos vistosos
Inscrições tremulando em flâmulas:
À glória dos cartagineses!
Em tributo à Cartago nossas vidas!
Lavada em sangue será a vitória!
Soldados perfilados
Repetem em coro
Versos guerreiros de um Bardo
Declamados por este
Do alto do minarete:
Cartago, por nossa honra
Cartago, por nossa honra
Não será derrotada
Não será derrotada
Sem as últimas gotas de sangue derramadas
Sem as últimas gotas de sangue derramadas
De nossos guerreiros
De nossos guerreiros
Gloriosas vidas que se apaguem
Gloriosas vidas que se apaguem
Gravadas com heroísmo e coragem
Gravadas com heroísmo e coragem
Metamorfoseadas em lendas
Metamorfoseadas em lendas
Acenderão a chama da eternidade
Acenderão a chama da eternidade
Aqueles que de pé se mantiverem
Aqueles que de pé se mantiverem
Entoando ao final da batalha - Vitória!
Entoando ao final da batalha - Vitória!
A conhecerão em vida
A conhecerão em vida
Transformados em célebres guardiões
Transformados em célebres guardiões
Celebrados em hinos
Celebrados em hinos
Baluartes da honra e liberdade de Cartago!
Baluartes da honra e liberdade de Cartago!
Rob Azevedo
A Tirania e o Sangue Vêm à Terra Firme
A Tirania e o Sangue
Vêm à Terra Firme
Numa cidadela distante
No norte da África
Assentado em pedras defronte
O Mediterrâneo
Um poeta contempla
Do costão rochoso o horizonte
Mórbidos navegantes cruzam o extremo
Do Golfo di Surriento
Velas estendidas impelidas por Éolo
Trazem a bordo Tânatos
Vestido de negro manto
Segurando firme a foice
O aço frio cintila
Refletindo o furor de Apolo
Tânatos se atiça
Navegando sombrio
Nos braços de Poseidon
Hades espera
Ansioso, trincando os dentes
Aqueles que descerão
Aos seus domínios subterrâneos
Todo panteão antigo
Assiste ao conflito
Delineando-se nas águas bravias
Do Mar Mediterrâneo
Velam por seus semi-deuses
Do alto do Olimpo
Ou planos humanos
E se compadecem
Por suas amantes terrenas
Habitantes de Cartago
Na rota das sombras e ruína
Ares cruel e impiedoso
Espírito da agressividade
E cegueira sanguinária
Surge com a lança
Vocifera
Militariza
Rege a estratégia
Das frotas romanas
As primeiras fragatas intrusas
Cruzam a barreira de corais
Incólumes, sobre a maré alta
E vão ancorando
Bem perto da praia
Aninhados em incontáveis barcas
Guerreiros romanos
Armados e malditos
Maus e insanos
Trazem à terra firme
A tirania e o sangue
O poeta
No costão rochoso solitário
Sente na carne a realidade
Da escuridão vinda da guerra
Onde a glória é quimera
Cada gota de sangue derramada
Um passo sem volta
Em direção ao Tártaro
Sob a treva em plena luz do dia
A chama interior acende
E enxerga a fantasia desnuda:
Aventuras em batalhas lendárias
Vitória e bravura
Condecorações, medalhas
Tambores, trombetas
Hinos, eternidade
Heroísmo, honra
Espada contra espada
Cabeças degoladas
Braços decepados
Pernas mutiladas
Prisioneiros acorrentados
Humilhados
Soldados e famílias dizimados
Mulheres estupradas
Destroços e ruínas
Fome e ódio
Sede e frio
Grito e angústia
Desespero e medo
Crianças maltrapilhas
Devoradas por ratos
Em nuvens de fumaça...
Glória?
Nesse contexto se encaixa alguma glória?
Não meus bravos guerreiros
Não quero ser Herói das Trevas
Renego versos de guerra
Nascidos de minha entranha entorpecida
Deserto!
Estou de partida
Jejuarei no deserto
Abominando cactos e pedras
Transformados em pães
Pela demência humana
Deserto!
A adaga que fere entrego
Jejuarei no deserto
Por quarenta dias
Abominando cactos e pedras
Em companhia do Arcanjo
Que a Paz espera
Rob Azevedo
O Alquimista do Amor
O Alquimista do Amor
-> Trilha sonora
Me esgueiro pela sombra
Como um poema negro
Sem destino nem dona
Luzindo pirilampos
Sigo um facho de luz
Vindo do luar
Ascendo aos céus
Teto do inferno
Em nuvens de incenso
Sândalo indiano
Não pergunte meu paradeiro!
Haverei de me embebedar
N`alguma taverna além do infinito
De todas estrelas do firmamento
No mundo em que vivo
Envolto em brumas de mistério
Sou bruxo
Demônio medieval
Devasso
Sou Incubus!
Ao cair da madrugada
Meu espírito vaga
Atravessa vales sombrios
Adentra adormecidas casas
Assumindo a forma do desejo
Em cama ardente
D`alma da mulher
Que em sonhos
Se liberta dissoluta
Quando ao descanso noturno entregue
Em sentindo-se lânguida
Ofegante
Corpo trêmulo
Pêlos eriçados
Libido aflorada
Sou em quem lhe visito
Na medida do que queres
Lasciva, ensandecida
Ardendo em chama
Na pele de fêmea
Que o instinto saciado
Do átomo ao infinito
Banhada em suores
Clama
Na melodia
Do balé reticente de meus versos
Indo e voltando
Ora o ritmo é lento
Adiante ligeiro
Compondo sinfonia
Que alivia a espera
Do cio do corpo
E êxtase d`alma
Rutilante me confesso:
Vim das trevas
Existentes
Onde nascem as estrelas
Sou as letras
Que ledes agora
Nelas
Vive minh`alma
Mais forte
Que na carne em que se abriga
Sou demônio medieval
Devasso
Descendente dos celtas
Sumo Sacerdote
No clã dos druidas
Quando a Lua é cheia
No Amor
Tenho os dons da Alquimia
Me transformo
Na forma que sacia
Instinto e cada pêlo
D`alma feminina
No balé do ato
Se meus passos não me conduzem
Aonde repousam seus sonhos
Vinde a mim
Seguindo a trilha de meus versos
Batei à porta, adentre minha alcova
Deite-se comigo em meu leito
E tudo vos será dado
Por méritos da Minha Graça
Como Alquimista do Amor
Rob Azevedo
O GATO DE BOTAS
O GATO DE BOTAS
-> Trilha sonora
Acendo um cigarro
Apago uma estrela
Afago um gato
E mato
Um carrapato
Afogado
Num copo duplo
Em dose
De Conhaque.
Aliso o cavanhaque
Bebo num gole
Um refresco
Me refresco
Com leque árabe
Tiro uma pedra
Da bota
E um coelho
Da cartola.
A gata assanhada
Com jeito moleque
O rabo abana
Ao som da corneta
Vitrola
E Gaita de Foile.
Ouço o canto
Estridente da cigarra
Erguendo o tridente
Rompe a aurora
Toca o sino
E vai embora.
Zunindo delirante me toca
Zombando inconseqüente
Afrontando o espírito
Ultraja o hino
Do Anjo Cupido.
Num recanto d`alma
Rangem meus dentes
Afino a guitarra
Aguço ouvidos
Recobrando sentidos
Esvaídos.
Amargurado e aflito
Sentido de havê-los perdido
Gato que sou, pêlos eriço
E apelo ao sexto-sentido
Fe-li-no
O por quê, o que terá havido?
Se ávido e compadecido
Percebo que tinha, o que tendo ido
Me dói de dor tão doída
Que melhor seria
Não haver existido
A ida.
Nem mesmo sequer
A vinda.
Num canto do quarto
Contendo o pranto
Elevo meu canto
Procurando o encanto
Que um dia guardei
Em baú de ouro
Enquanto passava
Um quarto de hora
E a velha senhora
Como quem pede esmola
Muda e amarga
Passava uma muda
De roupa lavada
Ao lado da muda
De erva cidreira
Planta amarga
Feito um naco
De açúcar mascavo
Degustado ao contrário
Pela boca
Que mastiga.
Tal espécie herbácea
Flor bastarda
Sobre a cômoda estava
Que diz minha mãe
Com ar feliz, cheia de pompa
É o criado-mudo.
Prefiro empregada surda
Que seja boa
Quando nua
E papoula
D`onde se tem o ópio
Que inalado anima
Minh`alma quando desanima
Em tardes de ócio.
Cheio de ódio
Malcriado e intruso
Falante e ardiloso
Depois dum pileque
E meia dúzia
De cheque sem fundo
Salto com o cavalo
Sobre o bispo
E tomo a torre...
É Xeque-Mate!
Venço a partida
E perco o sentido
Da vida.
Alguém ao léu
Não mira o céu
Como devia
Se desvia
Da Via Láctea
E me chama
De chato.
Calado
Tranco a porta
A chave
Jogo fora.
Rob Azevedo